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O vento da manhã soprava pelas ruas de Vidran quando Nice deixou a Biblioteca Arcana.
Nos olhos dele havia um brilho novo — não de quem aprendeu algo… mas de quem ganhou uma peça nova para seu tabuleiro.
Shibungo flutuava ao lado, ajeitando a cartolinha etérea.
— Oxê… homi, tu tá sorrindo do nada. Isso é bom ou é ruim?
— “É perfeito.”
Nice respondeu enquanto caminhava, a capa balançando atrás dele como um pano de palco que se fecha após o melhor ato da noite.
Aos poucos, o jovem invocador deixava de ser apenas o rapaz frio e calculista apresentado nos capítulos anteriores. Havia algo nele agora… algo mais afiado. Mais sombrio. Mais teatral.
Ele parecia saborear cada passo.
Vidran era viva, movimentada — comerciantes berrando preços, anões discutindo sobre armas, elfos oferecendo ervas raras, demônios menores negociando contratos pequenos.
Um caos harmônico.
E Nice caminhava entre eles como um diretor passando por sua trupe de atores.
Logo ao chegar na praça principal, ele ergueu a mão de forma súbita.
Pequenas fagulhas de mana azul dançaram em seus dedos.
Shibungo arregalou os olhinhos.
— Oxe! Tu vai aprontar o quê dessa vez?
— “Apenas…”
Nice sorriu.
— “Um pouco de publicidade.”
Ele estalou os dedos.
Uma pequena explosão silenciosa de luz se espalhou na praça, como purpurina mágica voando pelo ar. Quando as pessoas sentiram o toque da energia, suas atenções foram puxadas involuntariamente para Nice.
Era uma magia simples — um encantamento de atenção, sutil o bastante para parecer natural, forte o bastante para torná-lo o centro do mundo naquele instante.
Nice respirou fundo.
E então…
A performance começou.
Ele abriu os braços como um anfitrião de teatro.
— “Senhoras e senhores de Vidran!” — a voz dele ecoou clara, firme, encantadora. — “Permitam que eu lhes apresente algo jamais visto neste reino!”
Um círculo completo se formou ao redor dele.
Anões pararam de discutir.
Elfos silenciaram.
Até um demônio vendedor de contratos cruzou os braços, curioso.
Shibungo murmurou. — Vixe, lá vem o show…
Nice sorriu como quem vê o cenário perfeito se desenrolar.
— “O destino dá sorte aos tolos…” — ele começou, andando em círculos no centro da praça — “mas eu… dou sorte aos inteligentes.”
A multidão o seguia com o olhar.
— “E para aqueles com ambição… para aqueles com coragem… para aqueles que merecem mais do que a vida comum!”
Ele ergueu um cristal entre os dedos, que brilhava com o símbolo do próprio cassino.
— “Eu apresento a vocês… A Casa Lunatic!”
Hubo murmúrios. Curiosidade. Ganância.
Nice percebia tudo.
Ele notava cada expressão, cada brilho nos olhos.
E moldava respostas antes mesmo que surgissem.
— “Um lugar onde o impossível acontece…” — ele continuou, com a voz caindo para um sussurro dramático. — “Onde a magia e a sorte dançam juntas. Onde seus sonhos…”
Ele aproximou o rosto de um dos espectadores, um jovem elfo.
— “…podem virar ouro.”
O elfo engoliu seco.
Nice deu meia-volta, teatral.
— “Mas é claro…”
Ele sorriu, olhos semicerrados.
— “A entrada não é para qualquer um.”
Essa frase sempre funcionava.
Nada atrai mais do que exclusividade.
A multidão reagiu exatamente como ele esperava — se inclinando para frente, curiosa.
— Isso é muita safadeza, homi… — Shibungo comentou, mas estava rindo.
Nice então abriu a palma da mão.
Runas azuis surgiram no ar, formando brilhantes tickets mágicos.
— “Apenas aqueles que receberem um destes poderão entrar hoje…”
Ele deixou silêncio por três segundos.
— “E eu… escolherei pessoalmente.”
Magia sutil.
Manipulação psicológica perfeita.
Uma interpretação digna dos melhores palcos.
A multidão foi ao delírio.
— “Por favor! Eu quero entrar!”
— “Nice, olhe pra mim!”
— “Escolha-me!”
— “Eu trago dinheiro!”
— “Eu tenho joias!”
Nice ergueu uma sobrancelha, satisfeito.
Ele não estava apenas divulgando um cassino.
Ele estava criando um mito.
E mais:
ele estava testando sua capacidade de controlar as massas — algo que, no futuro, seria essencial quando decidisse tomar os reinos para si.
Ele caminhou diante das pessoas, analisando-as como se fossem peças em sua vitrine.
A cada movimento de mão, um ticket aparecia.
A cada gesto de cabeça, alguém comemorava.
A cada sorriso, outra pessoa caía no encanto.
Era uma dança.
Uma dança de manipulação.
Um espetáculo impecável.
E Nice Lunatic era o protagonista absoluto.
— “Muito bem…” — ele disse ao final, recolhendo os últimos tickets. — “Vocês, escolhidos, compareçam à Casa Lunatic ao pôr do sol.”
Ele inclinou levemente a cabeça.
— “Uma noite… inesquecível espera por vocês.”
As pessoas começaram a aplaudir.
Aplaudir.
Nice sorriu discretamente.
Então, baixinho, apenas para Shibungo:
— “Eles acham que eu ofereço sorte.”
Ele ajeitou a luva.
— “Mas o único que sai ganhando… sou eu.”
Shibungo coçou a cabeça.
— Eita peste… tu ficou mais perigoso ainda depois que aprendeu essas runas da biblioteca, viu?
Nice começou a caminhar na direção de seu cassino principal.
— “Perigoso?”
Ele riu.
— “Não, Shibungo. Eu estou apenas… começando.”
E assim, o lado vilão de Nice Lunatic — o manipulador, dono do submundo da sorte, mago da lábia, gênio teatral — começava a emergir plenamente.
A atuação continuava.
A plateia aumentava.
E o mundo inteiro, sem perceber…
estava entrando no espetáculo dele.
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