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Os aplausos ainda ecoavam nas paredes douradas do Cassino Lunatic quando Nice terminou sua apresentação. A multidão vibrava, encantada, hipnotizada — não apenas pelos truques, mas por ele.
Por sua presença.
Por seu sorriso calculado.
Por sua performance impecável, teatral ao ponto de fazer qualquer bardo parecer amador.
Ele desceu do palco caminhando com a mesma postura de quem sempre teve o mundo nas mãos. Seus passos eram lentos, precisos, quase coreografados. Cada gesto, cada olhar, cada silêncio: tudo calculado para parecer espontâneo.
Shibungo, flutuando perto de sua orelha, murmurou:
— Ocê fez foi lascar com a emoção desse povo todim, viu? Tem até gente chorando ali no canto!
Nice não olhou para o público. Apenas abriu um sorriso suave.
— “Chorar é bom. Sinal de que estão emocionalmente frágeis. Pessoas frágeis tomam decisões… previsíveis.”
O besouro arregalou os olhos.
— Eita que tu tá num nível de frieza que dá até gosto de ver.
Nice caminhou pelo salão enquanto as pessoas se aproximavam, rindo, elogiando, agradecendo pela apresentação. Ele respondia com charme, voz baixa e olhar magnético.
— “Fico feliz em proporcionar uma noite inesquecível.”
— “Sim, o jogo é seguro… desde que você siga as regras.”
— “O destino sorri para quem acredita nele.”
Era como ver um ator controlando a plateia com perfeição absoluta.
E então veio a parte divertida.
Uma elfa de cabelos prateados — claramente fascinada — aproximou-se dele, quase flutuando em admiração.
— “Senhor Lunatic… nunca vi alguém manipular mana com tanta elegância. É simplesmente… encantador.”
Nice ergueu o rosto, analisando-a como um predador que observa uma presa curiosa.
— “Encantador, hm?” — ele sorriu. — “Imagine o que eu posso fazer quando realmente quero impressionar.”
A elfa ficou vermelha, completamente desarmada.
Shibungo deu uma risadinha maliciosa.
— Oxiii… tu é um perigo pros coração alheio, homi.
Nice piscou para o besouro — o mais próximo que ele chegava de rir de verdade.
Mas ele não se envolvia emocionalmente.
Ele apenas jogava.
Era mais um tabuleiro para ele, mais uma forma de obter vantagem.
Manipular sentimentos era só mais uma ferramenta — e ele a dominava tão bem quanto dados e cartas.
A elfa tentou dizer algo, mas Nice já havia se virado para outro grupo, deixando-a perdida, ansiando por mais.
Era exatamente assim que ele gostava: provocar, brincar, soltar a isca… e sair antes que alguém achasse que tinha ganhado algo dele.
Então veio o momento importante.
Um nobre gordo e riquíssimo, Lorde Ferrondar, aproximou-se suando, com uma expressão ansiosa demais para ser casual.
— “S-senhor Nice… sobre aquela… proposta. O empréstimo. Eu… preciso conversar.”
Nice sorriu. Um sorriso tão educado que escondia a lâmina por trás.
— “Claro. Vamos conversar em particular.”
Ele o guiou até uma sala reservada. As luzes eram mais baixas, e o som da música do salão ficava abafado.
Nice serviu uma taça de vinho para si mesmo — não para o nobre, que já bebia demais. Sentou-se como quem ocupa um trono.
— “Então, Lorde Ferrondar… você veio pedir dinheiro emprestado novamente?”
— “Sim, sim… veja bem, meus negócios—”
Nice levantou a mão, interrompendo-o com absoluta autoridade.
— “Seus negócios fracassaram porque você é incompetente. Mas isso não importa.”
O homem engoliu seco.
— “P-por favor… eu preciso apenas de mais um pequeno valor para recuper—”
— “Você não vai se recuperar.” — Nice disse, com um tom tão calmo que parecia um veredito divino. — “Mas eu posso te dar o que quer.”
Os olhos do nobre brilharam.
— “Sério?! Então—”
— “Em troca…” — Nice apoiou o queixo sobre uma das mãos — “…você me dará sua mina de ouro.”
O nobre arregalou os olhos.
— “A mina?! Não! Isso é—”
— “Uma péssima decisão para você.” — Nice completou. — “E uma decisão obrigatória.”
O silêncio na sala ficou pesado.
Nice se levantou e aproximou-se do homem, de forma lenta e teatral, como um ator prestes a sussurrar o clímax de uma peça.
— “Porque, meu caro Lorde Ferrondar… você já está devendo demais. E sabe o que acontece com homens endividados em Vidran?”
O nobre tremia.
Nice sorriu e inclinou-se ao lado de sua orelha:
— “Eles passam a fazer parte do meu teatro.”
O homem não tinha escolha.
Ninguém nunca tem quando Nice decide o script.
Assinou.
Com mãos trêmulas.
Nice então se afastou, satisfeito, ajustando a gola do traje com suavidade.
— “Muito bem. Agora vá aproveitar a noite. O cassino Lunatic ainda tem muito a tirar de você.”
Quando Ferrondar saiu, derrotado, Nice ficou sozinho na sala, observando o pergaminho assinado.
Shibungo pousou em seu ombro.
— Oxente… tu acabou de tomar a mina inteira do homem com meia dúzia de palavras.
— “Não.” — Nice corrigiu, dobrando o pergaminho com cuidado. — “Eu tomei antes mesmo de ele entrar na sala. Só precisava que ele assinasse.”
O besouro deu uma gargalhada.
— É por isso que eu digo: tu não joga o jogo… tu cria ele.
Nice sorriu.
— “E agora, Shibungo… vamos para a segunda parte.”
— Segunda parte de quê, homi?
— “Do meu teatro.” — Nice respondeu, levantando-se. — “É hora de Vidran começar a pensar que eu sou o herói desta cidade.”
Shibungo deu um salto no ar.
— Aí é que mora o perigo…
E Nice caminhou de volta ao salão principal, onde luzes, aplausos e gente impressionável esperavam o próximo ato.
Porque para ele, o mundo inteiro era apenas isso:
Um palco.
E ele sempre seria o ator principal.
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