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O Cassino Lunatic estava silencioso naquele horário — um silêncio que nunca era inocente. Era o tipo de quietude que antecedia um truque bem executado, um movimento calculado ou uma queda inevitável.
Nice caminhava pelo salão vazio, o passo ecoando entre as mesas de cartas cobertas com panos verde-esmeralda. A brisa suave trazia o cheiro de incenso, ouro polido e perfume de clientes ricos que não sabiam o quanto já tinham perdido.
Shibungo flutuava atrás dele, com sua cartola torta e olhar desconfiado.
— Eita que tu tá com a postura de quem vai derrubar mais alguém hoje… — o besouro comentou, pousando numa lâmpada de cristal. — E tu nem terminou o plano da elfa ainda.
Nice apenas sorriu.
— “Shibungo… um plano nunca termina. Ele se adapta.”
— Pronto. A lábia começou… — Shibungo bufou. — Mas diga aí, o que tu vai fazer agora com a tal da Lytharis?
Antes que Nice respondesse, passos elegantes ecoaram pelo salão.
Lytharis.
E dessa vez, ela não veio sozinha.
Vestida com um manto azul celeste adornado com fios de prata, os cabelos longos e prateados soltos, trazendo um brilho aristocrático que só elfos de linhagem nobre possuíam. Atrás dela, dois guardas élficos — silenciosos, disciplinados, claramente desconfortáveis naquele antro de vícios.
Ela caminhou como quem entra em um território que já considera seu.
Nice virou-se com calma, como se já a esperasse.
— Lytharis. — Ele disse, com um sorriso sutil. — “Veio mais cedo. Não esperava sua visita até o anoitecer.”
Ela ergueu o queixo com aquele charme arrogante característico.
— “Eu decido meus horários, Lunatic. E decidi vir antes para…” — ela avaliou a sala — “ver o tabuleiro antes do jogo.”
Shibungo cochichou:
— Oxê… ela tá achando mesmo que tá mandando em tu…
Nice manteve o sorriso.
— “Claro. Fique à vontade. Meu cassino é… seu.”
Ela sorriu, triunfante. Achou que tinha vencido alguma coisa.
E Nice deixou.
Isso também era parte do espetáculo.
— “Excelente.” — Lytharis respondeu, caminhando até uma mesa de apostas. — “Eu queria conhecê-lo melhor hoje. Saber suas intenções… seus interesses… suas habilidades.”
Nice inclinou levemente a cabeça.
— “Eu sou um livro aberto.”
Shibungo quase gargalhou.
— Livro aberto? Tu é um enigma dentro de outro enigma enrolado num papel de mentira!
Mas Nice manteve o olhar calmo, o corpo relaxado, a expressão impecável.
Lytharis caiu direitinho no teatro.
Ela aproximou-se mais, como se estivesse no controle da situação.
— “Tenho influência na corte élfica, Lunatic. Tenho terras, propriedades, contratos… talvez até mais do que você imagina.” — Ela disse, cruzando os braços numa pose de autoridade. — “Se você pretende dominar Vidran… deveria considerar aliar-se a mim.”
Nice deixou um silêncio dramático. Perfeito. Cirúrgico.
Depois, aproximou-se dela devagar, com a confiança de quem nunca teme um passo em falso.
— “Lytharis…” — ele sussurrou — “você já é minha aliada.”
Ela piscou, surpresa.
— “Eu… sou?”
— “Claro.” — Nice respondeu, tocando levemente o queixo dela, como se analisasse uma peça de arte rara. — “Você só não percebeu ainda.”
O rosto da elfa corou — um misto de irritação e… fascínio.
Shibungo revirou os olhos.
— Aí pronto. Caiu feito uma jumenta na lama…
A elfa recuperou a postura, tentando demonstrar controle.
— “Muito confiante, Lunatic. Mas quem disse que eu jogo no seu time?”
Nice se afastou apenas meio passo, o suficiente para deixá-la querer se aproximar mais.
— “Você veio ao meu cassino sozinha. Com guardas que não ousam falar. Me procurou. Exigiu respostas. E está aqui… bem diante de mim… tentando descobrir minhas intenções.”
Ela abriu a boca, mas Nice ergueu um dedo, pedindo silêncio.
— “Isso não é atitude de alguém indiferente, Lytharis. Isso é atitude de quem quer entender… quem deseja controlar o tabuleiro.”
Ela franziu levemente o cenho, incomodada por ele acertar tanto.
— “E você acha que eu… controlo?”
Nice deu uma risada leve. Charmosa. Irritante. Sedutora.
— “Acho que você acredita que sim.”
Silêncio.
Lytharis ficou visivelmente mexida — orgulho ferido, mas também encantada pela elegância manipuladora de Nice. Ela virou o rosto, cruzou os braços e disse:
— “Muito bem… talvez eu queira ver até onde você vai.”
— “Eu vou longe.” — Nice respondeu, com a calma de quem está descrevendo uma verdade incontestável.
— “E eu posso te ajudar.” — ela completou.
Nice sorriu de lado.
— “Exatamente o que eu queria ouvir.”
Lytharis sorriu também, achando que tinha arrancado algo de Nice.
Quando na verdade…
Nice a tinha levado exatamente até essa frase.
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A Proposta que Ela Acha que Criou
Lytharis se aproximou, confiante:
— “Eu posso abrir portas na corte élfica. Posso garantir clientes ricos, contratos, influência. Mas quero algo em troca.”
— “Claro que quer.” — Nice respondeu, olhando nos olhos dela. — “Qual é o preço?”
Ela ergueu o dedo para ele, como quem dita regras.
— “Quero 20% dos lucros dos seus cassinos.”
Shibungo arregalou os olhos.
— Credo! A muié é doida! — ele sussurrou.
Nice, porém, não mudou a expressão.
Nem por um instante.
— “Feito.”
Lytharis piscou, surpresa.
— “Tão rápido?”
— “Você vale mais do que 20%.” — Nice murmurou.
Ela corou mais uma vez — e agora, a queda era mais profunda.
— “Então… temos um acordo.” — Lytharis afirmou, estendendo a mão.
Nice pegou a mão dela, inclinou-se e beijou levemente os dedos — o suficiente para fazê-la perder o eixo… mas não o suficiente para ela perceber a manipulação.
— “Temos… um acordo.”
Shibungo soluçou de rir.
— Ô atuação da peste, viu.
Lytharis virou-se, triunfante, acreditando que acabara de amarrar Nice a ela.
Acreditando que ele estava sob sua influência.
Acreditando que controlava o jogador mais perigoso do reino.
Mas quando ela saiu…
Nice deixou o sorriso verdadeiro surgir.
Frio.
Lúcido.
Diabolicamente satisfeito.
— “Shibungo…”
— Oxe? — respondeu o besouro.
— “Ela acha que me possui.”
— Acho que acha mesmo… — Shibungo respondeu, rindo nervoso.
Nice olhou para a porta por onde a elfa saíra, olhos brilhando com um cálculo afiado demais para qualquer pessoa comum.
— “Perfeito.”
— Perfeito? — perguntou o besouro.
Nice passou a mão pelos cabelos dourados, ajeitando o casaco elegante.
— “Porque não há jogadora melhor…”
Ele virou-se para o salão vazio, como um ator que declara sua fala ao palco.
— “…do que a que acha que está ganhando.”
Shibungo arregalou os olhos.
— Oxê… a jogada tá só começando, né?
Nice sorriu.
— “Sempre.”
E assim, o capítulo 7 terminava com Nice ampliando sua rede, sua influência e seu teatro.
A elfa Lytharis acredit
ando que ganhou um aliado poderoso…
E Nice construindo mais um fio da teia que, um dia, engolirá reinos inteiros.
O palco está montado.
E o protagonista continua sendo o único jogador que nunca perde.
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