O pacto havia sido selado.
Desde aquele dia, nenhum deus pisaria novamente no mundo dos homens. Nenhuma oração seria respondida. Nenhum milagre surgiria para alterar o destino dos mortais.
Ainda assim...
O silêncio jamais significou paz.
Muito acima do firmamento, além das estrelas que iluminavam o universo dos homens, erguia-se Asgard, o majestoso reino dos deuses nórdicos.
Ao contrário do Olimpo, construído em mármore branco e ouro reluzente, Asgard era formado por muralhas colossais de pedra rúnica, salões de madeira ancestral e pilares adornados com metais impossíveis de serem encontrados em qualquer mundo mortal. Os rios que atravessavam o reino carregavam água cristalina misturada à energia primordial que havia dado origem aos Nove Reinos.
No centro da cidade divina, o Valaskjálf permanecia silencioso.
A maior parte dos deuses havia retornado para seus afazeres após a reunião realizada no Olimpo. Alguns treinavam os Einherjar. Outros apenas observavam os acontecimentos do universo através dos inúmeros artefatos espalhados pelos reinos.
Mas havia um deus que jamais suportara o tédio.
Loki.
No interior de uma antiga biblioteca esquecida, escondida sob inúmeras camadas de magia, Loki permanecia sozinho.
Sentado sobre uma cadeira de madeira negra, sustentava entre as mãos uma pequena esfera prateada.
A esfera não exibia o mundo dos homens.
Muito menos algum dos Nove Reinos.
Dentro dela...
Existia outro céu.
Outro continente.
Outras estrelas.
Montanhas que jamais haviam existido.
Cidades erguidas por arquiteturas desconhecidas até mesmo para os deuses.
Loki observava aquelas imagens com um sorriso discreto.
— Fascinante...
A esfera mudava constantemente.
Às vezes mostrava um enorme deserto vermelho.
Depois uma cidade iluminada por torres flutuantes.
Logo em seguida...
Uma floresta infinita onde árvores brilhavam como galáxias.
— Então vocês realmente existem...
Seus olhos azuis refletiam aquele universo distante.
— Um mundo completamente separado do nosso...
Ele aproximou a esfera do rosto.
— Ou talvez...
Sua voz tornou-se quase um sussurro.
— Um universo paralelo.
Subitamente...
A esfera vibrou.
Loki ergueu uma sobrancelha.
Passos.
Pesados.
Determinados.
Ele sorriu.
— Ah...
— Chegou mais cedo do que imaginei.
A esfera desapareceu em uma nuvem verde antes que qualquer outra pessoa pudesse vê-la.
A porta foi aberta violentamente.
O impacto fez as paredes estremecerem.
Njord entrou.
O deus protetor dos mares e dos navegadores respirava profundamente.
Seus cabelos grisalhos balançavam enquanto seus olhos carregavam uma fúria incomum.
— LOKI!
O salão inteiro pareceu congelar.
Loki apenas abriu um sorriso divertido.
— Sempre tão caloroso, Njord.
— NÃO OUSE BRINCAR COMIGO!
Em um único movimento, Njord atravessou toda a sala.
Sua velocidade rivalizava com a força das tempestades.
Sua mão agarrou Loki pelo pescoço.
CRAAACK!
As costas do deus da trapaça bateram contra a parede.
O impacto rachou parte da pedra rúnica.
Njord apertou ainda mais.
— Você...
— Foi você.
— Essa maldita ideia foi sua!
Loki continuava sorrindo.
Mesmo sem conseguir respirar.
Njord aproximou o rosto.
— Séculos...
— Milênios...
— Protegemos aqueles mortais!
— E agora...
— Devemos apenas assistir enquanto eles morrem?!
Loki respondeu com dificuldade.
— Você...
— Está...
— Exagerando...
— Cala a boca!
A pressão aumentou.
A madeira ao redor começou a estalar.
— Você manipulou Zeus!
— Manipulou Hades!
— Manipulou todos eles!
— Quantos inocentes morrerão por causa da sua diversão?!
O sorriso de Loki aumentou.
— Provavelmente...
— Muitos.
Os olhos de Njord arregalaram-se de ódio.
— EU VOU—
Antes que pudesse terminar...
O corpo de Loki dissolveu-se.
Virou fumaça verde.
Njord ficou imóvel.
— O quê?
Uma risada ecoou atrás dele.
— Sempre funciona.
Njord virou-se imediatamente.
Loki estava sentado sobre uma estante, cruzando as pernas enquanto observava toda a cena.
— Você realmente acredita que conseguiria colocar as mãos em mim?
Njord fechou os punhos.
— Covarde...
— Não.
Loki sorriu.
— Inteligente.
— Há uma diferença enorme.
O deus dos mares respirava pesadamente.
Então estendeu a mão.
Runas antigas surgiram ao redor de seu braço.
A água presente no ar condensou-se.
Metal divino tomou forma.
Poucos segundos depois...
Uma espada azul-prateada apareceu em sua mão.
Sua lâmina parecia feita do próprio oceano.
Loki assobiou.
— Bonita espada.
— Será uma pena vê-la quebrar.
Njord começou a caminhar lentamente.
Cada passo fazia o chão vibrar.
— Desta vez...
— Sem ilusões.
— Sem truques.
— Apenas você...
— E eu.
Loki levantou-se calmamente.
— Ah...
— Isso seria divertido.
As sombras começaram a girar ao redor dele.
Dezenas de cópias surgiram.
Cinco.
Dez.
Vinte.
Cinquenta.
Toda a biblioteca foi preenchida por Lokis.
Todos sorriam exatamente da mesma forma.
— Qual deles pretende matar primeiro?
Njord ergueu a espada.
— Todos.
Antes que pudesse avançar...
Uma luz dourada iluminou o salão.
— Basta.
A voz era serena.
Mas carregava autoridade suficiente para fazer até mesmo Njord hesitar.
Balder.
O deus da luz caminhava lentamente entre as ilusões.
Curiosamente...
Nenhuma delas ousava aproximar-se dele.
Sua presença parecia dissipar a própria mentira.
Balder olhou primeiro para Njord.
Depois para Loki.
— Já terminou seu espetáculo?
Loki deu de ombros.
— Ainda estava começando.
Balder ignorou a provocação.
Parou diante de Njord.
E segurou lentamente a lâmina.
A espada desapareceu instantaneamente.
Njord respirava com dificuldade.
— Solte-me, Balder.
— Não.
— Ele merece.
— Talvez.
Balder respondeu sem alterar o tom.
— Mas isso mudará alguma coisa?
Silêncio.
— Se matar Loki...
— O pacto desaparecerá?
Njord permaneceu calado.
— Zeus voltará atrás?
Nada.
— Os humanos deixarão de sofrer?
A resposta continuava inexistente.
Balder então colocou uma das mãos sobre o ombro do velho deus.
— Eu também discordo.
— Thor também.
— Freya também.
— Quase todos nós.
Ele olhou discretamente para Loki.
— Mas infelizmente...
— A decisão foi tomada.
Loki sorriu.
— Viu?
— Até o deus mais bondoso entende.
Balder respondeu sem sequer olhar para ele.
— Não confunda resignação com aprovação.
O sorriso de Loki diminuiu por um instante.
Balder continuou.
— Você é desprezível.
— Sempre foi.
— E provavelmente sempre será.
— Mas não podemos agir movidos pela raiva.
Njord abaixou lentamente a cabeça.
Sua respiração finalmente começou a voltar ao normal.
Balder concluiu.
— O melhor que podemos fazer agora...
Ele olhou para o céu de Asgard.
— É observar.
Muito distante dali...
Muito além dos Nove Reinos...
Erguia-se Takamagahara.
O Reino Celestial dos deuses japoneses.
Enquanto Asgard era austero e imponente, Takamagahara parecia um eterno amanhecer.
Campos dourados se estendiam até onde a vista alcançava.
Rios de luz atravessavam jardins repletos de cerejeiras eternamente floridas.
No centro daquele paraíso encontrava-se o Palácio Solar.
Ali...
Amaterasu permanecia diante de uma enorme varanda.
Seus longos cabelos negros eram iluminados pela própria luz que emanava de seu corpo.
Ela observava silenciosamente o mundo dos homens.
Sem poder agir.
Sem poder ajudá-los.
Atrás dela...
Passos suaves aproximaram-se.
— Ainda pensando nisso?
Era Hachiman.
O patrono dos guerreiros.
Vestia uma armadura branca adornada por detalhes dourados.
Seu semblante permanecia calmo.
Amaterasu não desviou o olhar do horizonte.
— Você consegue ouvir?
Hachiman permaneceu ao seu lado.
— Ouvir o quê?
— As orações.
Silêncio.
Ela fechou lentamente os olhos.
— Ainda chegam até mim.
— Crianças pedindo comida.
— Mães implorando pela vida dos filhos.
— Soldados pedindo coragem.
— Reis pedindo sabedoria.
Sua voz tornou-se quase um sussurro.
— E agora...
— Sou obrigada a ignorá-las.
Hachiman respirou profundamente.
— Eu sei.
Amaterasu finalmente olhou para ele.
— Nós realmente fizemos o certo?
— Somos deuses.
— Nossa existência sempre foi proteger a humanidade.
— Como posso chamá-los de meus filhos...
— Se agora apenas assisto ao sofrimento deles?
Hachiman permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu.
— Eu também questionei.
— Muito.
Ele caminhou lentamente até a sacada.
— Passei dias pensando em uma resposta diferente.
— Em algum argumento que convencesse Zeus.
— Em alguma alternativa.
Ele sorriu de maneira melancólica.
— Não encontrei nenhuma.
Amaterasu abaixou a cabeça.
— Então simplesmente aceitamos?
— Não.
Respondeu Hachiman.
— Nós suportamos.
Ela voltou a encará-lo.
— Existe diferença?
— Existe.
— Aceitar significa concordar.
— Suportar significa carregar um peso que nunca desejamos.
Amaterasu permaneceu em silêncio.
Hachiman prosseguiu.
— Agora...
— Já não podemos voltar atrás.
— O pacto foi selado.
— Qualquer deus que o quebre...
Ele parou por um instante.
— Assumirá todas as consequências.
Essas palavras fizeram Amaterasu permanecer imóvel.
Seu olhar voltou para o horizonte.
— Ainda assim...
— Meu coração diz que algo está errado.
Nesse instante...
O vento cessou.
Os pássaros silenciaram.
Até mesmo a luz pareceu congelar.
Hachiman percebeu imediatamente.
— Sentiu isso?
Amaterasu assentiu.
Uma energia desconhecida atravessava Takamagahara.
Não era divina.
Não era mortal.
Não era demoníaca.
Era...
Completamente diferente.
Diante de Amaterasu surgiu uma pequena fissura luminosa.
Do tamanho da palma de uma mão.
Ela pulsava lentamente.
Como um coração.
Hachiman imediatamente colocou a mão sobre a espada.
— O que é isso?
Amaterasu aproximou-se.
Mesmo ela...
Nunca havia sentido aquela energia.
A fissura aumentou alguns centímetros.
Então...
Uma voz ecoou.
Não vinha do céu.
Não vinha da terra.
Nem sequer daquele universo.
Era uma voz distante.
Antiga.
E carregava um peso que fazia até mesmo uma deusa estremecer.
> — Finalmente...
> Encontrei vocês.
Os olhos de Amaterasu se arregalaram.
Hachiman sacou imediatamente sua espada.
A voz continuou.
> — O equilíbrio entre os universos está prestes a ruir...
> E vocês...
> São a única esperança.
A fissura brilhou intensamente.
Então desapareceu.
O silêncio voltou.
Mas nada voltaria a ser como antes.
Amaterasu permaneceu imóvel.
Seu coração, pela primeira vez em incontáveis eras...
Estava tomado pelo medo.
Continua...