O silêncio que se seguiu àquela voz parecia ainda mais perturbador do que as próprias palavras.
> "Finalmente... encontrei vocês."
A fissura havia desaparecido.
A luz dourada que preenchia Takamagahara voltava lentamente ao seu brilho habitual, e o canto dos pássaros recomeçava como se absolutamente nada tivesse acontecido.
Mas Amaterasu sabia.
Aquilo não era uma ilusão.
Muito menos um sonho.
Ela permaneceu imóvel diante da varanda do Palácio Solar, encarando o espaço onde a pequena abertura luminosa existira poucos segundos antes.
Seu coração, normalmente sereno como o nascer do sol, batia depressa.
Ao seu lado, Hachiman mantinha a mão sobre o cabo da espada.
— Nunca senti uma energia como aquela...
Amaterasu concordou com um leve movimento de cabeça.
— Nem eu.
— Não era uma presença maligna...
— Também não era divina...
Ela respirou lentamente.
— Era... diferente.
Hachiman cruzou os braços.
— Seja lá o que tenha sido, precisamos descobrir antes que outro deus faça alguma imprudência.
A deusa voltou-se para ele.
— Vá.
— Descubra se algum outro panteão percebeu isso.
— Pergunte a Susanoo, Tsukuyomi, Inari... todos.
— Se alguém souber alguma coisa...
— Quero saber imediatamente.
Hachiman assentiu.
— Voltarei assim que descobrir alguma informação.
Uma aura branca envolveu seu corpo.
No instante seguinte...
Ele desapareceu em um feixe de luz.
O enorme salão tornou-se silencioso novamente.
Amaterasu caminhou lentamente até o centro do templo.
Ergueu uma das mãos.
Diversos círculos mágicos dourados começaram a surgir ao seu redor.
Símbolos antigos giravam lentamente, formando um gigantesco selo celestial.
Ela fechou os olhos.
— Kyuubi no Kitsune...
Sua voz ecoou por todo Takamagahara.
— Atenda ao meu chamado.
A magia expandiu-se.
As nove direções do céu foram iluminadas simultaneamente.
Um vento suave atravessou o jardim.
As flores de cerejeira começaram a girar no ar.
O selo permaneceu ativo.
Ela sabia.
Mesmo para alguém como Kitsune...
Responder a uma convocação direta da principal divindade japonesa exigia alguns instantes.
Enquanto aguardava...
Outro pensamento lhe ocorreu.
Aquela energia...
Ela havia reconhecido algo.
Muito pequeno.
Quase imperceptível.
Mas inconfundível.
Mana divina.
Mana oceânica.
Ela estendeu novamente a mão.
Outro círculo mágico surgiu.
Desta vez...
Azul.
As runas transformaram-se lentamente em uma superfície líquida.
Poucos segundos depois...
A imagem de um homem apareceu.
Longos cabelos negros.
Barba espessa.
Olhos tão profundos quanto os oceanos.
Poseidon.
O senhor dos mares do Olimpo.
O deus arqueou uma sobrancelha.
— Amaterasu?
— Aconteceu alguma coisa?
Ela não perdeu tempo.
— Preciso lhe fazer uma pergunta.
Poseidon cruzou os braços.
— Estou ouvindo.
— Você entrou em contato comigo há poucos minutos?
O deus pareceu genuinamente confuso.
— Não.
— Nem mesmo pensei em utilizar comunicação divina hoje.
Ela estreitou os olhos.
— Tem certeza?
Poseidon sorriu discretamente.
— Se eu quisesse falar com você...
— Não precisaria esconder minha identidade.
Amaterasu respirou fundo.
— Recebi uma mensagem.
— Vinda através de uma fissura.
— Havia mana semelhante à sua.
Poseidon ficou pensativo.
Depois balançou lentamente a cabeça.
— Estranho...
— Mas não fui eu.
Ele permaneceu alguns segundos refletindo.
Então sorriu de maneira tranquila.
— Não se preocupe tanto.
— Conhecendo Loki...
— Aposto algumas ondas do Mediterrâneo que isso foi apenas mais uma brincadeira dele.
Amaterasu não pareceu convencida.
— Você realmente acredita nisso?
— Acredito que Loki é criativo demais quando está entediado.
Poseidon respondeu.
— E, sinceramente...
— Depois do que aconteceu no Olimpo...
— Não me surpreenderia.
Ela permaneceu em silêncio.
Poseidon continuou.
— Se descobrir alguma coisa...
— Avise-me.
— Farei o mesmo.
Amaterasu assentiu.
— Obrigada.
A comunicação foi encerrada.
O círculo mágico dissolveu-se lentamente.
Ela permaneceu observando o vazio.
Talvez Poseidon tivesse razão.
Talvez fosse realmente mais um dos incontáveis truques do deus da trapaça.
Ela fechou lentamente os olhos.
Respirou fundo.
Inspirou.
Expirou.
Seu coração começou finalmente a desacelerar.
Foi nesse instante que uma gargalhada suave ecoou pelo jardim.
— Faz tempo que não me chama pessoalmente.
Amaterasu abriu os olhos.
À sua frente...
Uma mulher de cabelos brancos como neve caminhava lentamente entre as cerejeiras.
Vestia um quimono vermelho adornado por desenhos dourados.
Atrás dela...
Nove enormes caudas balançavam graciosamente.
Cada uma parecia feita de pura energia espiritual.
Seus olhos dourados carregavam séculos de conhecimento.
Kyuubi no Kitsune.
A Raposa de Nove Caudas.
Uma das mais antigas yokais existentes.
Ela sorriu levemente.
— Então...
— O que deixou até mesmo a deusa do Sol preocupada?
Amaterasu caminhou até ela.
— Preciso da sua ajuda.
Kitsune inclinou levemente a cabeça.
— Sempre imaginei que esse dia chegaria.
A deusa estendeu a mão.
Um pequeno círculo dourado surgiu diante delas.
A imagem da fissura foi reconstruída através da memória divina.
Kitsune observou atentamente.
Seu sorriso desapareceu.
Ela aproximou o rosto.
— Interessante...
Muito interessante...
Amaterasu percebeu a mudança de expressão.
— Você reconhece isso?
A yokai permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
Suas nove caudas moveram-se lentamente.
Uma energia azulada percorreu suas mãos.
Ela tocou a projeção.
No mesmo instante...
Runas desconhecidas surgiram ao redor da fissura.
Kitsune respirou profundamente.
— Como imaginei...
Amaterasu aproximou-se.
— O que é?
A raposa voltou-se para ela.
— Isso...
— Não é uma fissura dimensional comum.
A deusa franziu a testa.
— Explique.
Kitsune começou a caminhar lentamente.
— Existem diversos tipos de abertura entre planos.
— Portais.
— Fendas.
— Rasgos espaciais.
— Corredores espirituais.
Ela apontou para a projeção.
— Mas isso...
— É completamente diferente.
Amaterasu aguardava atentamente.
— Trata-se de uma magia de comunicação interdimensional.
O silêncio tomou conta do jardim.
— Comunicação...
— Entre universos?
Perguntou Amaterasu.
Kitsune assentiu.
— Exatamente.
Ela voltou a tocar a projeção.
Desta vez...
Uma pequena centelha azul surgiu.
Os olhos dourados da yokai estreitaram-se.
— Aqui está.
Amaterasu percebeu imediatamente.
Aquela energia.
Era a mesma.
Mana divina.
Mana oceânica.
— Poseidon...
Murmurou ela.
Kitsune assentiu novamente.
— Sim.
— A mana originária pertence a Poseidon.
Amaterasu respirou aliviada.
— Então realmente foi ele...
— Não.
A resposta veio imediatamente.
A deusa permaneceu imóvel.
— O quê?
Kitsune olhou diretamente em seus olhos.
— A mana pertence a Poseidon.
— Mas...
Ela fez uma pequena pausa.
— Não ao Poseidon que conhecemos.
O vento voltou a soprar.
As flores giraram ao redor das duas.
Amaterasu permaneceu completamente imóvel.
— Explique melhor.
Kitsune sorriu discretamente.
— Universos paralelos compartilham inúmeras semelhanças.
— Em muitos deles...
— Existem versões das mesmas pessoas.
Ela cruzou os braços.
— Reis.
— Mortais.
— Monstros.
— E...
— Deuses.
A expressão de Amaterasu endureceu.
— Está dizendo...
— Que existe outro Poseidon?
— Sim.
— E acredito...
— Que foi justamente ele quem tentou entrar em contato conosco.
O coração da deusa acelerou novamente.
Outro universo.
Outro Olimpo.
Outro Poseidon.
Outra realidade.
Tudo aquilo parecia impossível.
Mas...
A energia confirmava.
Kitsune permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois perguntou calmamente.
— Deseja que eu tente responder?
Amaterasu olhou novamente para o local onde a fissura havia surgido.
Diversas perguntas invadiam sua mente.
Quem era aquele Poseidon?
Por que procurava justamente ela?
Como atravessara a barreira entre universos?
E...
Era seguro responder?
Ela fechou lentamente os olhos.
— Não.
Kitsune aguardou.
— Ainda não.
A deusa respirou profundamente.
— Preciso pensar.
A yokai sorriu.
— Prudente.
— Às vezes...
— A maior sabedoria está justamente em esperar.
Muito longe de Takamagahara...
Em um plano onde montanhas verdes encontravam cavernas cristalinas e rios subterrâneos iluminavam toda a paisagem...
Existia o domínio da grande deusa Mari.
A principal divindade do antigo panteão basco.
Guardiã da natureza.
Senhora das tempestades.
Protetora das montanhas.
No interior de uma enorme caverna adornada por cristais azuis...
Mari encontrava-se sentada diante de um tabuleiro.
À sua frente...
Ísis.
A deusa egípcia da magia.
Entre elas...
Um antigo jogo de estratégia.
Xadrez.
Mari movimentou calmamente um cavalo.
Ísis sorriu.
— Ainda insiste nessa abertura?
Mari respondeu com tranquilidade.
— Funciona há séculos.
Ísis moveu um bispo.
— Não contra mim.
As duas sorriram.
O clima era surpreendentemente amistoso.
Mari apoiou o rosto sobre a mão.
— Como anda o Egito depois do pacto?
Ísis observava cuidadosamente o tabuleiro.
— Mais silencioso.
— Bastante silencioso.
Ela movimentou uma torre.
— Alguns aceitaram rapidamente.
— Outros...
Nem tanto.
Mari fez uma expressão curiosa.
— Quem mais se incomodou?
Ísis sorriu.
— Anúbis.
— Ele sente o peso de cada alma que chega ao submundo.
— Desde o pacto...
— Sua preocupação aumentou muito.
Mari concordou lentamente.
— Faz sentido.
— Entre todos vocês...
— Talvez seja quem mais veja as consequências.
Ísis assentiu.
— Os demais também demonstraram preocupação.
— Mas ninguém tanto quanto ele.
Mari movimentou sua rainha.
— Loki continua sendo um problema.
Ísis deu uma pequena risada.
— Isso nunca mudou.
Mari apoiou as costas na cadeira.
— Nunca consegui entender como Odin lhe concede tanta liberdade.
Ísis respondeu enquanto observava o tabuleiro.
— Existe um rumor curioso circulando entre os deuses.
Mari arqueou uma sobrancelha.
— Qual?
Ísis sorriu discretamente.
— Dizem que Loki assumiu a aparência de Zeus diversas vezes.
Mari piscou surpresa.
— Não...
— Sim.
Ísis segurou o riso.
— Apenas para seduzir mortais...
— E fazer parecer que Zeus era o responsável.
Mari levou a mão ao rosto.
— Isso explica tantas histórias contraditórias...
As duas riram.
Mari então respondeu.
— Também ouvi um rumor.
Ísis ergueu os olhos.
— Conte.
Mari aproximou-se da mesa.
— Dizem que há muitos séculos...
— Loki tentou tornar-se o Rei dos Dragões.
Ísis arregalou os olhos.
— Está brincando.
— Não.
— Segundo contam...
— Ele apareceu no território dos dragões exigindo submissão.
Ísis já começava a rir.
Mari continuou.
— Parece que o verdadeiro rei simplesmente o expulsou.
— E ainda o proibiu de retornar.
Ísis finalmente caiu na gargalhada.
— Nem Loki seria louco de enfrentar Dreico diretamente.
Mari sorriu.
— Exatamente.
— O Rei dos Dragões nunca foi conhecido por sua paciência.
Ísis observou novamente o tabuleiro.
Seus olhos brilharam.
Ela moveu calmamente sua rainha.
Depois um peão.
Então olhou para Mari.
— Xeque.
Mari analisou cuidadosamente.
Movimentou um bispo.
Ísis sorriu.
— Errado.
Ela deslizou sua torre pela última coluna.
— Xeque-mate.
Mari observou o tabuleiro durante alguns segundos.
Depois riu.
— Acho que passei tempo demais falando de Loki.
Ísis cruzou os braços.
— Conversar também faz parte da estratégia.
Antes que qualquer uma pudesse reorganizar as peças...
Duas pequenas esferas douradas apareceram diante delas.
Ao mesmo tempo.
Mari olhou para a sua.
Ísis fez o mesmo.
As duas tocaram simultaneamente as mensagens.
Uma voz ecoou.
> "Convocação oficial para reunião extraordinária entre os principais representantes dos panteões. Presença obrigatória."
As duas trocaram olhares.
Ísis foi a primeira a quebrar o silêncio.
— Algo aconteceu.
Mari assentiu lentamente.
Seu instinto dizia exatamente a mesma coisa.
E, pela primeira vez desde o pacto...
Os deuses voltariam a se reunir.
Continua...