O Ducado de Violet erguia-se como um colosso de pedra branca não muito longe da capital do reino Redrose, suas torres envoltas por trepadeiras de rosas que brilhavam suavemente sob o luar. O salão principal, onde Sayuri, Clarice e Joayne foram conduzidas, era um espetáculo de opulência decadente: tapeçarias bordadas com cenas de batalhas antigas pendiam das paredes, seus fios dourados desbotados pelo tempo; lustres de cristal refletiam a luz de velas, lançando sombras dançantes que pareciam sussurrar segredos; e o chão de mármore, polido até brilhar, ecoava cada passo como um aviso. O ar cheirava a cera derretida, vinho doce e algo mais — um leve toque de intriga, como se a própria mansão soubesse dos jogos que ali se desenrolavam.
Sayuri, Clarice e Joayne, ainda vestidas com as túnicas simples fornecidas pelos soldados, caminhavam em silêncio atrás do Comandante Rayos. Seus novos corpos, frágeis e estranhos, contrastavam com a determinação em seus olhos. Elas trocavam olhares discretos, avaliando o ambiente: portas laterais, guardas posicionados, possíveis rotas de fuga. A sincronia entre elas, forjada em anos de amizade no outro mundo, permanecia intacta.
O Duque Garazel Virellian, já desembarcado de sua carruagem, aguardava no centro do salão, sentado em um trono elevado de carvalho negro entalhado com espinhos estilizados. Seus cabelos castanhos caíam em cachos calculados, e seus olhos, de um azul gélido, pareciam dissecar cada detalhe das três jovens. Vestia uma túnica de veludo vermelho, bordada com fios de prata que captavam a luz, e um sorriso que não alcançava os olhos. Ao seu lado, uma mesa longa exibia cálices de prata e bandejas de frutas cristalizadas, um convite tão tentador quanto perigoso.
— Bem-vindas, jovens — disse Garazel, a voz melíflua, como se estivesse recitando poesia. — Três flores resgatadas da selvageria do bosque. Redrose é generosa, não é? — Ele gesticulou para Rayos, que permanecia rígido, a mão no cabo da espada. — Comandante, minhas congratulações. Mais uma vez, sua eficiência é... admirável. — Falava enquanto gesticulava de forma teatral.
Rayos inclinou a cabeça, mas seus olhos cinzentos não vacilaram.
— Apenas meu dever, Duque.
Sayuri trocou um olhar rápido com Clarice e Joayne. Fique alerta, dizia o olhar de Sayuri. Ele não é confiável, respondeu o de Joayne. Quero socar esse sorriso, gritava o de Clarice, mesmo em silêncio.
Garazel levantou-se, descendo os degraus com a graça de um predador.
— Nomes, por favor. E, se me permitem a curiosidade, de onde vêm essas... adoráveis criaturas?
Sayuri deu um passo à frente, a mente estrategista de Augustus ainda afiada, mesmo sob a nova pele.
— Eu sou Sayuri. Estas são Clarice e Joayne. Quanto à nossa origem... é uma história complicada, Duque. Digamos que somos viajantes, longe de casa.
Garazel arqueou uma sobrancelha, o sorriso alargando-se.
— Viajantes? Com equipamentos que intrigaram até meus melhores ferreiros? — Ele pegou uma fivela abandonada, recuperada pelos soldados de Rayos, e girou-a entre os dedos. — Aço leve, mas resistente. Couro que não rasga. Fascinante.
Clarice cruzou os braços, incapaz de se conter.
— Isso é malha de fibra de carbono, sabia? Não que você entenda o que é. — Sua voz carregava o tom desafiador de Máximo, o ferreiro que sabia mais de ligas metálicas do que qualquer um ali.
Joayne lançou um olhar de advertência, mas Garazel apenas riu, um som que ecoou pelo salão como sinos fora de tom.
— Encantador! Uma língua afiada para uma jovem tão delicada. E você, Joayne, parece mais... reservada. Uma estrategista, talvez?
Joayne inclinou a cabeça, o rosto impassível.
— Apenas observo, Duque. Palavras são como flechas: é melhor mirar com cuidado.
Garazel bateu palmas, claramente divertido.
— Maravilhoso! Três jovens com tanto... potencial. Mas sem família, sem recursos, suponho que precisem de um lar. — Ele fez uma pausa, os olhos fixos em Sayuri, como se tentasse desvendar algo além da superfície. — Serão minhas hóspedes. Teto, comida, segurança. Em troca, apenas sua presença e... curiosidade. O que dizem?
Rayos tensionou-se, os dedos apertando o cabo da espada, mas permaneceu em silêncio. Sayuri engoliu o orgulho, sentindo o peso do olhar de Garazel. Não havia escolha — não ainda.
— Aceitamos, Duque — disse, a voz firme, mas com um toque de cautela. Por dentro, ela já planejava: observar, aprender, escapar quando possível.
A mansão de Violet era um labirinto vivo, onde cada corredor parecia sussurrar segredos antigos. As paredes de pedra branca, polidas pelo tempo, eram adornadas por tapeçarias desbotadas que narravam conquistas de reis esquecidos. Tochas crepitavam em suportes de ferro, lançando sombras que dançavam como espectros inquietos. O aroma do lugar era uma mistura inebriante: velas aromáticas, ervas secas dos jardins de rosas e um leve incenso, como se a mansão guardasse mais do que revelava. Pelas janelas altas, a luz do amanhecer banhava os jardins, onde as rosas brilhavam com um fulgor mágico — um lembrete constante de que não era o mundo que conheciam.
Foi nesse cenário que Sayuri, Clarice e Joayne caminharam pelos corredores, agora vestidas com trajes cuidadosamente preparados para elas. Os criados haviam ajustado os vestidos com pressa, mas o resultado era impressionante, misturando elegância com um toque de mistério.
Sayuri vestia um longo vestido carmesim, justo no busto e na cintura, com amarrações douradas que cruzavam o corpete como uma teia de poder silencioso. O tecido fluía até os tornozelos, revelando meias escuras que contrastavam com a pele alva e sapatos de tira simples, que ecoavam com graciosidade pelo chão de mármore. Seus cabelos vermelhos, presos em dois rabos de cavalo laterais com fitas negras, balançavam como chamas vivas. Os olhos verdes — outrora os de Augustus, o estrategista — agora brilhavam com um misto de contenção e adaptação. Sua nova aparência a fazia parecer uma personagem retirada diretamente das lendas que folheara na biblioteca, mas por dentro, ela sentia o peso da vulnerabilidade.
Clarice, por sua vez, trajava um vestido amarelo dourado com detalhes brancos que desenhavam flores e linhas geométricas na barra. O corte era simples, mas elegante, com mangas bufantes que terminavam em rendas delicadas. Seu corpo compacto preenchia o traje com uma firmeza natural, revelando a força contida sob a aparência frágil. Os cabelos loiros, curtos e revoltos, não se deixavam domar facilmente, e seus olhos dourados pareciam avaliar cada detalhe ao redor com desconfiança e ímpeto. Cada passo dela era quase um protesto contra aquele figurino — ainda que ninguém pudesse negar o impacto que causava. Ela puxava as mangas, murmurando baixinho sobre como preferia armaduras reais.
Joayne, por fim, parecia ter nascido para aquele papel. O vestido violeta, de mangas longas e bufantes, envolvia seu corpo com sensualidade elegante. A fenda lateral revelava as meias brancas até o alto das coxas, e o cinto fino ajustado na cintura destacava sua postura ereta e controlada. Os cabelos longos e lisos desciam como uma cascata púrpura, e os olhos azul acinzentados — frios, inquisitivos — encaravam tudo com uma serenidade quase aristocrática. Ela caminhava como se tivesse estudado todos os códigos de etiqueta da nobreza local, embora seu espírito ainda pertencesse à engenheira calculista de outrora, sempre mapeando o ambiente mentalmente.
Juntas, as três cruzavam os salões como peças recém-moldadas de um tabuleiro maior — belas, perigosas e cada uma encarnando um arquétipo que confundia e encantava aqueles que as observavam. A vida no Ducado exigia que se misturassem à nobreza e aos visitantes, mas suas mentes, moldadas em um mundo de tecnologia e estratégia, não se contentavam com meras formalidades. Cada interação social era uma oportunidade, cada conversa, uma chance de desvendar o jogo perigoso do Duque Garazel Virellian. Elas discutiam em sussurros nos cantos, planejando como sobreviver e, quem sabe, virar o jogo.
Os dias seguintes foram uma dança delicada de adaptação. As três foram alojadas em um quarto pequeno, com camas de palha e uma janela que dava para os jardins de rosas, cujas pétalas pareciam pulsar com uma luz suave à noite. Suas obrigações como hóspedes eram leves, focadas em participação em eventos sociais e discussões eruditas, mas elas encontravam formas de transformar a situação em oportunidade.
Os dias começavam antes do amanhecer, com o clangor de panelas na cozinha e o murmúrio dos servos se preparando para o trabalho. Sayuri, Clarice e Joayne foram designadas a atividades variadas, como acompanhar o Duque em refeições, participar de saraus e organizar a biblioteca da mansão. Mas, mesmo sob a fachada de convidados, elas deixavam sua marca.
Clarice, com seu passado de ferreiro e químico, rapidamente se destacou na cozinha, intervindo de forma discreta em conversas com os cozinheiros sobre a preparação de alimentos e a manutenção do forno. Durante uma manhã caótica, quando um aprendiz deixou o forno superaquecer, ela interveio com uma precisão quase científica.
— Fogo alto demais, oxidação descontrolada — disse, ajustando as brasas com uma vara de ferro. — Adicionem cinzas de carvalho aqui, reduz a chama sem matar o calor.
O cozinheiro-chefe, um homem chamado Torren, olhou-a com uma mistura de espanto e respeito.
— Como você sabe disso, garota? — perguntou ele, coçando a barba grisalha.
— Experiência — respondeu Clarice, com um sorriso enigmático. — Já lidei com fornalhas bem mais quentes.
Joayne, com sua mente de engenheira, transformava cada passeio pelos corredores em uma missão de reconhecimento. Enquanto caminhava pelos salões, memorizava a disposição das portas, a rotina dos guardas e os pontos cegos da mansão. Durante uma pausa, ela rabiscou um mapa detalhado em um pedaço de pergaminho escondido sob o avental, marcando saídas de emergência e janelas acessíveis.
— Se Garazel tentar algo, não vamos ficar encurraladas — sussurrou para Sayuri, enquanto observavam a troca da guarda no salão secundário.
Sayuri, por sua vez, usava sua inteligência tática para observar e aprender. Na biblioteca, enquanto organizava pergaminhos sob o pretexto de “limpeza”, lia trechos de textos antigos. Entre os livros, encontrou várias informações sobre o continente de Garden e os Reinos de Redrose e Bluerose, poucas sobre o reino de Lyria e só menções aos reinos de Marguerite e Thulipe, alguns mapas e cidades e ducados do reino de Redrose. Ela absorvia tudo, traçando paralelos com o mundo antigo, imaginando como aplicar esse conhecimento para sua vantagem.
Garazel, porém, não era um homem que deixava detalhes passar. Ele as observava constantemente, aparecendo em momentos inesperados com presentes ambíguos: um vestido de seda para Clarice, um arco ornamental para Joayne, um livro de poesia para Sayuri. Cada oferta vinha com um sorriso que prometia mais do que entregava, e as três sentiam o cerco se fechando.
— Sayuri, minha cara — disse ele numa noite, durante um jantar no salão. — Você lê com tanto fervor. Já pensou em se apresentar à corte? Uma jovem tão... singular poderia brilhar lá.
Sayuri segurou o cálice de vinho com firmeza, forçando um sorriso.
— A corte parece um lugar barulhento, Duque. Prefiro a quietude dos livros.
Garazel riu, mas seus olhos não acompanharam o som.
— Quietude é para os fracos, minha cara. E você... não me parece fraca.
Clarice, sentada ao lado, quase engasgou com o pão.
— Se ela não é fraca, por que nos manter como hóspedes aqui, hein? — Sua voz era um misto de provocação e sarcasmo, e Joayne chutou sua canela por baixo da mesa.
Garazel apenas sorriu, inclinando a cabeça.
— Porque toda peça tem seu lugar no tabuleiro, Clarice. E eu sempre sei onde posicionar as minhas.
Mais tarde, no quarto, as três se reuniram em sussurros.
— Ele tá testando a gente — disse Sayuri, os olhos fixos na janela. — Ele sabe que não somos o que parecemos.
— Então por que não nos entrega? — perguntou Clarice, esfregando a canela com uma careta. — Ele quer algo. Algo grande.
Joayne cruzou os braços, o olhar distante.
— Ele quer poder. Redrose e Bluerose estão estagnadas. Se ele acha que somos peões valiosos... vai tentar nos usar contra a Coroa.
Sayuri assentiu, sentindo um peso crescer no peito.
— Então precisamos ser mais espertas. E mais rápidas. Vamos mapear tudo, fazer aliados entre os servos.
Nem todos na mansão eram leais a Garazel. Entre os servos, havia murmúrios de descontentamento: salários atrasados, castigos severos, rumores de que o Duque desviava impostos da Coroa. Sayuri, com sua habilidade de ouvir sem ser notada, começou a construir pontes com os outros servos.
Uma noite, enquanto carregava uma bandeja de pão para a mesa dos guardas, ela ouviu uma conversa entre dois soldados, Lira e Gavren.
— O Duque acha que pode desafiar o rei com seus joguinhos — disse Lira, uma mulher de rosto marcado pelo sol. — Mas o Comandante Rayos não é idiota. Ele tá de olho.
Sayuri aproveitou a deixa, fingindo tropeçar e derrubando um pão perto deles.
— Desculpe-me — disse, abaixando-se para pegá-lo. — Ouvi falar do Comandante Rayos. Ele é... confiável?
Gavren riu, mas Lira a encarou com curiosidade.
— Mais confiável que o Duque, isso é certo. Mas cuidado, garota. Aqui, ouvidos abertos podem custar caro.
A troca foi breve, mas suficiente. Sayuri sabia que Lira podia ser uma aliada, alguém que talvez compartilhasse informações sobre Rayos ou os planos de Garazel. Enquanto voltava à cozinha, ela sussurrou para Clarice:
— Estamos começando a montar o tabuleiro.
Garazel não deixava as três em paz. Ele aparecia em momentos inesperados, sempre com um presente ou uma proposta que parecia inocente, mas carregava segundas intenções. Uma manhã, entregou a Clarice um vestido de seda azul, tão fino que parecia flutuar.
— Para uma jovem tão... talentosa — disse, com aquele sorriso que não alcançava os olhos. — Vista-o no próximo jantar. A corte adora beleza.
Clarice segurou o vestido como se fosse uma cobra venenosa.
— Prefiro minhas próprias roupas, Duque. Elas são mais práticas para minhas atividades de observação.
Garazel riu, mas havia um brilho frio em seus olhos.
— Prática, mas sem graça, Clarice. A vida exige um pouco de... espetáculo.
Para Joayne, ele ofereceu um colar ornamental, entalhado com rosas de prata.
— Um presente para uma bela dama, talvez? — disse, observando-a com atenção.
Joayne pegou o colar, observou-o com atenção.
— Bonito, mas fútil... — respondeu, seca. — Não serve para nada além de decoração.
Sayuri recebeu um livro de poesia, com capa de couro vermelho e versos sobre heroínas de Redrose.
— Para sua mente curiosa — disse Garazel, inclinando-se perigosamente perto. — Talvez encontre inspiração para algo... maior.
Sayuri forçou um sorriso, segurando o livro com firmeza.
— Palavras são perigosas, Duque. Às vezes, cortam mais que espadas.
Naquela noite, no quarto das três, a tensão explodiu.
— Ele tá nos cercando! — disse Clarice, jogando o vestido no canto. — Vestidos, arcos, livros... Ele acha que pode nos comprar?
Joayne, examinando o arco ornamental, quebrou a corda com um puxão deliberado.
— Ele não quer nos comprar. Quer nos controlar. Cada presente é uma coleira disfarçada.
Sayuri folheou o livro de poesia, parando em um verso sobre a espada de Redrose.
— Ele sabe que não somos hóspedes comuns. Mas ainda não sabe o quê somos. Precisamos usar isso a nosso favor. Vamos continuar fingindo, mas coletando provas contra ele.
Enquanto os dias passavam, as três começaram a tecer um plano. Clarice usava suas conversas com os artesãos para reunir informações sobre os movimentos de Garazel, descobrindo que ele recebia visitantes misteriosos à noite, possivelmente ligados ao mercado negro. Joayne, com seu mapa improvisado, identificou uma passagem secreta nos fundos da biblioteca, que podia levar aos aposentos privados do Duque. Sayuri, com sua leitura, juntava peças sobre a política de Redrose, aprendendo que a estagnação política com Bluerose crescia e que Garazel sonhava com um golpe contra a Coroa.
— Se ele quer nos usar como peões, vamos virar o tabuleiro — disse Sayuri, os olhos brilhando com determinação. — Mas precisamos de aliados. Rayos, talvez. E precisamos recuperar nossos equipamentos.
Clarice bufou, mas sorriu.
— Se eu encontrar minha armadura de Kevlar, o Duque vai aprender o que é uma surra moderna.
Joayne dobrou o mapa, guardando-o sob o colchão.
— Um passo de cada vez. Primeiro, sobrevivemos. Depois, lutamos.
Enquanto a noite caía, as rosas encantadas brilhavam nos jardins, e a mansão de Violet parecia segurar o fôlego. Algo grande se aproximava — e Sayuri, Clarice e Joayne estavam no centro disso. Elas passavam as noites em vigília, alternando turnos para garantir que nenhuma surpresa as pegasse desprevenidas.
O salão de banquetes do Ducado de Violet era um palco de opulência enganosa, onde a luz de velas tremeluzia nos lustres de cristal, lançando sombras que pareciam se mover com intenções próprias. A mesa central, coberta por uma toalha de linho bordada com rosas de prata, exibia cálices de vinho tinto, travessas de carne temperada e doces cristalizados que reluziam como gemas. O aroma de ervas assadas e cera derretida pairava no ar, mas havia algo mais — um toque acre, quase imperceptível, que fazia os instintos de Sayuri, Clarice e Joayne vibrarem. Pelas janelas altas, as rosas encantadas do jardim pulsavam com um brilho inquieto, como se o próprio reino de Redrose pressentisse o perigo.
As três, vestidas com seus melhores trajes, se juntavam à mesa quase como se fossem troféus. O convite do Duque Garazel para “servirem no jantar” era uma fachada, e elas sabiam disso. Seus olhares se cruzaram, carregados de uma sincronia forjada em anos de amizade: fiquem atentas.
Garazel Virellian, sentado à cabeceira, estava mais ousado que o usual. Sua túnica vermelha reluzia como sangue fresco, e seus olhos azuis gélidos fixavam-se nas três com uma intensidade que dispensava sutileza. Durante a semana, suas manipulações haviam escalado. Para Sayuri, ele sussurrara promessas de “um lugar na corte” enquanto entregava um colar de pérolas, sua mão demorando-se demais ao tocar a dela. Para Clarice, ele oferecera um anel de ouro, comentando que “sua beleza merecia mais que simples vestes”. Para Joayne, um leque ornamental, acompanhado de um convite para “um passeio privado pelos jardins”. Cada oferta era uma corrente disfarçada, e as três a rejeitavam com respostas afiadas, mas Garazel apenas sorria, como se o desafio o divertisse.
Agora, no jantar, ele ergueu um cálice, o sorriso cortante.
— Às minhas hóspedes mais... intrigantes — disse, a voz carregada de insinuação. Ele olhou para os criados e esbravejou: — Sirvam-nos!
Sayuri apertou a taça com força, forçando um sorriso.
— Somos melhores em movimento do que sentando, Duque — respondeu, mantendo a voz firme.
Clarice, ao lado, bufou baixo.
— Prefiro pão seco a esse vinho com cara de veneno — murmurou, só para as outras ouvirem.
Joayne, com seu olhar clínico, notou que não havia nenhum outro criado neste cômodo, apenas quem lhes servira, e já tinha partido, deixando apenas o Duque ao redor da mesa. Suas risadas eram forçadas, seus olhos desviavam-se para as portas laterais, onde sombras de homens armados se moviam.
— Ele não tá sozinho — sussurrou ela.
O jantar começou com uma calma tensa. Garazel insistiu que as três provassem o vinho antes dos pratos, um gesto que ele disfarçou como “cortesia”. Sayuri, desconfiada, fingiu tomar um gole, deixando o líquido escorrer pelo canto da boca. Clarice, com seu conhecimento de química, cheirou o cálice discretamente, os olhos arregalando-se.
— Cloridrato de alguma coisa... sedativo — sussurrou, enquanto passava a bandeja adiante.
Joayne, com reflexos rápidos, derrubou “acidentalmente” seu cálice, o vinho manchando o linho.
— Desculpe-me, Duque — disse, seca, enquanto observava a reação dele.
Garazel franziu o cenho por um instante, mas recuperou o sorriso.
— Sem problema, Joayne. Há mais vinho. Muito mais — disse ele, estalando os dedos. Criados entraram com novas jarras, e o ar ficou mais pesado. Sayuri percebeu que o Duque bebia de um jarro diferente, intocado pelas jarras das três.
Antes que pudessem planejar, o efeito do sedativo começou a se manifestar — não no vinho, mas na comida, da qual o Duque não havia tocado, e que elas haviam mordiscado por descuido. A visão de Sayuri embaçou, suas pernas fraquejando. Clarice cambaleou, xingando baixo. Joayne tentou se apoiar na parede, mas caiu de joelhos.
— Armadilha... — murmurou, antes de desmaiar.
Quando Sayuri abriu os olhos, a cabeça latejava como se martelos batessem em seu crânio. O cheiro de pedra úmida e ferro enferrujado enchia o ar. Elas estavam em uma câmara subterrânea da mansão, as mãos presas com grilhões de ferro, os tornozelos presos por correntes. Tochas fracas iluminavam as paredes, revelando marcas de arranhões, como se outros já tivessem tentado escapar dali.
Garazel entrou na sala diante delas, flanqueado por quatro mercenários, que ficaram ao lado de fora enquanto a porta fechava. Seus olhos brilhavam com uma mistura de triunfo e crueldade.
— Vocês... hoje vão pagar por toda a minha hospitalidade — disse, a voz perdendo o tom melífluo. Aproximou-se de Joayne, tocou sua face com uma mão e com a outra passou pela cintura... — Essa noite vocês serão minhas... — Falou o Duque com um sorriso sádico.
Clarice, mesmo grogue, cuspiu no chão.
— Seu escroto nojento, eu vou sair daqui e enfiar o pé nessa tua fuça.
Garazel riu, mas deu um passo à frente, agarrando o queixo de Clarice com força.
— Cuidado, loirinha. Posso arrancar essa língua afiada. — Ele se virou para Sayuri. — E você, carmesim. O que me diz? Preferem do modo fácil, onde ninguém se fere, ou do modo difícil? — Comentou enquanto mostrava um chicote de couro.
Sayuri, com a mente tática ainda funcionando apesar da dor, olhou para os grilhões. Não tem jeito, vou entrar no jogo...
— Já que o senhor coloca deste jeito... não vejo porque me negar... — Comentou com uma voz mais doce. Ela fez sinal para que a desamarre.
As outras duas logo perceberam o jogo que Sayuri estava fazendo e fingiram também ceder. O Duque entrou em êxtase, achando que já tinha dominado as três, e seguiu para soltá-las. Quando ele encaixou a chave nas correntes de Joayne, parou e olhou para Sayuri, gritando com violência:
— Vocês acham que eu cairia nessa, garotas tolas...? — Pegou no vestido de Sayuri e rasgou-o, deixando-a parcialmente nua. As outras duas começaram a se debater, e o Duque fez uma expressão de prazer enquanto indagava: — Isso, assim mesmo. Se não houver luta, não tem graça...
Clarice esbravejou:
— Seu pervertido nojento...!
Então, o Duque desenrolou o chicote e começou a açoitá-las uma a uma. Clarice, com sua experiência com metais, mesmo em meio às açoitadas, conseguiu deslocar os pulsos e se libertar. Ela segurou o chicote e puxou, derrubando o Duque. Ela aproveitou e soltou Joayne, removeu os grilhões de suas pernas e, enquanto passava a chave para Joayne, o Duque, enfurecido, pegou um ferro de atiçar chamas de lareira que estava próximo e atingiu a canela de Clarice, que caiu com o tornozelo quebrado enquanto a chave rolava pelo chão longe das garotas. Clarice estava solta, mas com um tornozelo quebrado; Joayne com braços libertos, mas pés presos; e Sayuri ainda presa e com vestido rasgado, parcialmente nua.
O Duque se levantou e, com muita fúria, começou a açoitá-las com muito mais força. A cada açoitada, as roupas e a pele se rasgavam.
Clarice, mesmo com uma fratura, se levantou e se pôs na frente das duas, usando-se como escudo. Por um instante, o chicote se prendeu nos grilhões de Sayuri, e Clarice viu a chance... Projetou-se e pegou o ferro de atiçar chamas, partindo para cima do Duque. O Duque girou o corpo para se proteger e foi atingido no braço pelo ferro, ficando cravado.
Nisso, os guardas que estavam do lado de fora ouviram o grito do Duque e invadiram o quarto...
No andar superior, o Comandante Rayos caminhava pelo salão de banquetes, agora vazio. A ausência das três o incomodava. Ele parou um criado, Torren, o cozinheiro que Clarice impressionara.
— Onde estão as garotas? Sayuri, Clarice, Joayne? — perguntou, a voz firme.
Torren hesitou, olhando ao redor.
— Senhor... Elas foram levadas. O Duque... ele deu pão com algo dentro. Ouvi os guardas falarem de uma câmara subterrânea.
Rayos apertou o cabo da espada, os olhos endurecendo.
— Mostre-me o caminho.
Guiado por Torren, Rayos desceu ao subterrâneo, o som de luta ecoando pelos corredores. Ele irrompeu na câmara, encontrando Sayuri amarrada e com o vestido em pedaços, Joayne com os pés acorrentados, ferida com vários cortes, mas lutando com uma ferocidade, e Clarice, mesmo em sua condição, dispunha-se em pé em frente aos mercenários que estavam indo atacá-la.
— Pelo Reino de Redrose, parem! — rugiu Rayos, sua espada longa cortando o ar. Com um golpe, ele desarmou Dren, que caiu gemendo. Os outros mercenários avançaram, protegendo Garazel, que removia o ferro de seu braço e aproveitou a distração para correr em direção a uma passagem lateral.
— Ele não escapa! — gritou Clarice, tentando correr, mas suas pernas não respondiam mais, e ela caiu de joelhos.
Rayos pegou a chave e soltou as três, sua expressão uma mistura de raiva e alívio.
— Vocês estão vivas. Mas bastante feridas. — Ele examinou os cortes em Sayuri, que pareciam ser mais profundos que nas outras duas; de seus cortes escorria sangue, e a cobriu com sua capa. — O Duque responderá por isso.
Os mercenários formaram uma barreira, dando tempo para Garazel desaparecer pela passagem. Rayos enfrentou os dois restantes, sua espada movendo-se com precisão mortal. Em minutos, eles estavam no chão, desarmados ou inconscientes. Mas Garazel já estava longe, seu riso ecoando nos túneis.
Rayos ajudou Sayuri a se levantar.
— Vocês resistiram com bravura — disse, com um leve aceno de respeito.
Clarice, se apoiando em um móvel no canto:
— Boa hora pra chegar, cavaleiro. Mas o cretino escapou.
Joayne, segurando a parte da frente de seu vestido cortado pelo chicote:
— Ele não vai longe. Não com Rayos atrás dele.
Sayuri, ignorando a dor por todo o corpo, apertou a manta que estava envolta.
— Você sabia, não é? Que Garazel era uma ameaça.
Rayos assentiu, sério.
— Há meses investigo seus abusos com criadas e camponesas. Impostos desviados, tratos com o mercado negro. Ele é uma praga para Redrose. — Ele fez uma pausa, olhando para as três. — Vocês são muito corajosas em enfrentar o Duque como fizeram.
No quarto, algum tempo depois, as três se reuniram, após receberem os primeiros socorros. Descansavam após serem sedadas... Elas trocavam palavras baixas sobre o ocorrido, reforçando sua união e planejando o futuro.
Rayos vasculhava os documentos e provas contra o Duque, que no caso não eram poucas. Os criados da mansão já se sentiam muito mais aliviados após a partida do Duque.
No dia seguinte, Virellian já era considerado fugitivo real. Seu nome apagado da nobreza, sua fortuna congelada pela Coroa.
A mansão que antes pulsava com o perfume forçado de rosas falsas e intenções podres agora estava silenciosa. Soldados reais patrulhavam os corredores, suas armaduras refletindo a luz das janelas altas. Onde antes havia sussurros envenenados, agora restava apenas a respiração pesada da transição.
No centro da sala de estudos, Sayuri, Clarice e Joayne estavam sentadas em cadeiras acolchoadas, recebendo tratamento médico de um clérigo real. O homem idoso, vestido em túnicas brancas bordadas com símbolos de uma rosa dourada, posicionou suas mãos sobre os ferimentos de Clarice.
— Fiquem imóveis, por favor — murmurou ele, fechando os olhos em concentração.
Uma luz esverdeada e suave emanou das palmas de suas mãos, envolvendo o tornozelo quebrado de Clarice. A luxação regrediu lentamente até não restar nada, nem mesmo a dor se fora; a pele dos vários cortes regenerando como se o tempo estivesse sendo revertido.
— Meu... Deus... — sussurrou Clarice, os olhos arregalados.
Sayuri se inclinou para frente, fascinada, mas claramente confusa.
— É... é magia de verdade!
Os olhos dela se acenderam em êxtase por alguns instantes. Era tudo com que sempre sonhara — um mundo onde a magia existia, onde o impossível era cotidiano. Mas também era completamente fora da sua realidade, algo que não conseguia compreender. Ela tocou o próprio braço, sentindo a energia residual.
— Claro que é magia — disse o clérigo com um sorriso gentil. — Vocês não são deste continente, são? Pela reação, diria que vêm de terras onde a arte da cura divina é... desconhecida.
Joayne trocou um olhar significativo com as outras duas.
— Completamente desconhecida — respondeu diplomaticamente.
— Fascinante — murmurou o clérigo, movendo as mãos para curar os cortes no corpo de Joayne. — Suas auras são... peculiares. Há algo de diferente em vocês, mas também algo que não consigo identificar. E vocês parecem completamente cegas às correntes mágicas.
Quando o clérigo terminou seu trabalho e se retirou, as três ficaram sozinhas, observando os estandartes sendo substituídos. O brasão rubro de Virellian havia sido arrancado das tapeçarias. Em seu lugar, erguia-se agora o emblema da Ordem Real — espadas cruzadas e uma coroa menor no topo.
— Então... acabou? — murmurou Sayuri, olhando para a lareira apagada. — O Duque fugiu como um rato, e agora estamos... sem futuro. De novo.
— Não exatamente — respondeu Joayne, ajeitando o curativo no braço. — Temos abrigo. Testemunho. E um protetor. Mesmo que contrariado.
Clarice cruzou os braços.
— E uma mansão mal-assombrada de lembranças ruins. Isso também.
As portas se abriram com firmeza. Rayos entrou, os cabelos castanhos começando a ficar grisalhos, o rosto severo, porém gentil, e o olhar era o mesmo: firme, duro, mas nunca cruel.
— A Coroa decretou — disse ele, parando diante delas com postura militar. — Recebo o título de Lorde e a guarda deste território. A mando de Sua Majestade. Não é uma escolha. É... uma missão.
As três trocaram olhares.
— Pretende nos mandar embora? — perguntou Sayuri, com leve tom de desafio.
Rayos hesitou por um instante, depois negou com a cabeça.
— Vocês não são prisioneiras. Mas... são jovens, sem origem registrada, ligadas ao maior escândalo dos últimos anos. Permanecer aqui talvez seja o mais seguro, escapar da vista de alguém que queira retaliar.
Clarice deu um passo à frente.
— Então nos deixe ajudar, podemos contribuir!
— Como hóspedes? — Rayos franziu o cenho. — Agora isso não é mais necessário. Vocês podem descansar. A Coroa não cobrará serviço.
— Não é por obrigação — disse Sayuri, se levantando. — É por... autonomia. Dignidade. Precisamos fazer algo para retribuir já que nos salvou duas vezes.
Joayne assentiu.
— Queremos continuar sendo úteis. Não como vítimas, mas como pessoas.
Rayos as encarou por longos segundos. Depois soltou um suspiro baixo, entre cansaço e respeito.
— Então seja. Vocês receberão funções. Mas serão protegidas com todo o peso que este brasão pode oferecer. — Sua voz ficou mais grave. — Se alguém ousar encostar um dedo... não haverá túnel o bastante para fugir.
E a partir deste dia, o Ducado de Violet deixou de existir e, ao mesmo tempo, o Ducado de Greanleaf nascia. As três sentiram um alívio misturado com determinação: um novo capítulo se iniciava, longe das sombras de Garazel.