A viagem durou quatro dias inteiros, um percurso que serpenteava pelas veias vivas do Reino de Redrose, cruzando pradarias vastas onde o vento sussurrava através das gramíneas altas como um segredo ancestral, bosques de folhas carmesins que tingiam o horizonte de tons de outono eterno e sangue coagulado, e vilarejos pacíficos cujos sotaques variados ecoavam como canções regionais, cheias de risos roucos e barganhas animadas nos mercados ao ar livre.
Cada parada revelava nuances do reino — sua diversidade cultural, com mercadores de Marguerite trocando especiarias picantes por panos tecidos em teares locais, suas tensões veladas, como os olhares desconfiados dos camponeses para forasteiros que carregavam o cheiro de terras distantes, e os contrastes gritantes entre o centro acadêmico próspero, com estradas pavimentadas e carruagens elegantes, e as regiões esquecidas, onde vilas lutavam contra invernos rigorosos e impostos que sugavam a vida como parasitas.
Sayuri devorava os livros que Rayos havia lhe dado — informações detalhados com rotas antigas marcadas em tinta desbotada, tratados de história que narravam guerras esquecidas entre reis rivais, e relatos sobre Gardemont que pintavam a cidade como um farol de conhecimento em um mar de ignorância medieval. Ela lia à luz de velas tremeluzentes nas paradas noturnas, os dedos traçando linhas invisíveis, a mente já tecendo estratégias para o que viria.
Clarice mantinha-se ativa, praticando formas com uma espada de treino improvisada feita de um galho resistente e equilibrado, seus movimentos cortando o ar com precisão, o som ecoando como um lembrete de sua determinação inabalável, o suor escorrendo pelo rosto apesar do vento fresco. Joayne observava tudo. As trilhas sinuosas que podiam esconder emboscadas, os sons das aves migratórias que cruzavam o céu em padrões previsíveis, os padrões das nuvens que podiam anunciar chuva ou calmaria — sempre traçando mapas internos, anotando mentalmente pontos de vulnerabilidade ou rotas de fuga alternativas, sua mente uma engrenagem constante de vigilância e cálculo e aos poucos ela começava a criar interesse nos mapas que Rayos havia entregado a Sayuri, porem era ela quem estava o observando e memorizando.
Na terceira noite, acamparam à beira de um riacho murmurante, cujas águas cristalinas refletiam o céu límpido e profundo, salpicado de estrelas como diamantes espalhados por uma mão descuidada. O fogo crepitava baixo, o cheiro de lenha queimada misturando-se ao aroma de ervas selvagens colhidas ao longo do dia, e o silêncio da noite era quebrado apenas pelo canto distante de corujas e o crepitar ocasional das brasas.
— Vocês acham que vamos ser aceitas? — murmurou Sayuri, seu olhar perdido nas chamas dançantes, a voz carregada de uma dúvida rara, o reflexo alaranjado iluminando seus cabelos carmesim.
— Não — respondeu Joayne, sem hesitar, ajustando uma flecha em seu arco de treino, os olhos semicerrados avaliando a tensão da corda sob a luz fraca.
— Mas vão ter que nos engolir — completou Clarice, com um sorriso torto, afiando uma adaga improvisada contra uma pedra lisa, o som ritmado como um desafio lançado ao destino.
O riso que seguiu foi baixo, mas genuíno, um fio de normalidade tecendo-se em meio ao desconhecido que as aguardava. Elas trocaram histórias da viagem — um mercador tagarela que oferecera vinho azedo em troca de contos de Greanleaf, um vilarejo onde as crianças as seguiram curiosas, pedindo demonstrações de "magia das forasteiras" —, fortalecendo o laço que as unia como uma armadura invisível contra o que viria. Naquela noite, sob o manto estrelado, o medo da incerteza se dissipou um pouco, substituído por uma determinação silenciosa: juntas, elas enfrentariam o que Gardemont jogasse em seu caminho.
Na manhã do quinto dia, os muros brancos de Gardemont surgiram ao longe, como uma coroa de pedra imaculada sobre uma colina verdejante, reluzindo sob o sol nascente como um farol de ambição intelectual. A cidade não era uma mera urbe real — era uma cidade-escola, pulsando com o ritmo incansável do saber, onde cada estrutura parecia erguida não para abrigar vidas comuns, mas para nutrir mentes afiadas.
Todas as lojas, casas, estalagens e mercados existiam em função da Academia: livrarias em cada esquina transbordavam de tomos antigos, o ar carregado com o cheiro de pergaminho envelhecido e tinta fresca; estúdios de treino ecoavam o clangor constante de espadas e o grunhido de esforços; cafés com mesas ocupadas por jovens discutindo lógica aristotélica, retórica inflamada e duelos táticos, o vapor de chás aromáticos subindo como névoa de ideias fervilhantes. Não havia palácio real opulento, nem sede administrativa da Coroa imponente com guardas reluzentes — apenas o fluxo incessante de conhecimento, como um rio que nunca secava.
Enquanto cruzavam os bairros periféricos em direção ao centro, Sayuri observava as pessoas com um fascínio crescente: roupas austeras de linho cinzento e couro prático, sem adornos supérfluos; olhares pensativos perdidos em devaneios profundos ou debates internos; posturas disciplinadas, como soldados em formação eterna, mesmo nas ruas movimentadas. A cidade inteira parecia respirar ao ritmo da aprendizagem, o ar vibrando com o zumbido de conversas eruditas e o ocasional estalo de um pergaminho sendo desenrolado.
— Eles realmente vivem por isso — disse ela, mais para si mesma, o tom misturado de admiração e incredulidade, os olhos verdes absorvendo cada detalhe como páginas de um livro vivo.
— Não sei se admiro ou acho insano — comentou Clarice, ajustando a alça de sua mochila com um puxão impaciente, os olhos dourados semicerrados contra o sol que batia forte.
Joayne mantinha os olhos atentos às estruturas defensivas: muralhas baixas, porem de pedras entalhadas e esculpidas para encaixarem umas nas outras, encaixes perfeitos uma obra prima de engenharia, quase invisíveis a olhares casuais; torres de vigia camufladas como bibliotecas altas, com janelas que podiam ser trincheiras. Havia poucas barreiras físicas evidentes. A verdadeira fortaleza era a Academia em si e, talvez, o conhecimento que ela guardava, uma armadura invisível tecida de segredos e sabedoria acumulada ao longo de séculos.
No centro da cidade, a Academia se erguia como um monólito de mármore e pedra clara, recortando o céu com suas torres altas e janelas arqueadas que filtravam a luz em padrões geométricos. Era bela, mas austera, sem o luxo exagerado de palácios — apenas proporção perfeita, simetria impecável e uma disciplina que se sentia no ar, como uma presença constante e julgadora.
Lorde Rayos as deixou no portão principal, uma estrutura imponente de ferro forjado com símbolos que representavam cada reino que passou por essa academia entalhados que pareciam pulsar levemente, e entrou na academia para lidar com as burocracias necessárias, sua capa azul-escura ondulando ao vento como um adeus silencioso e protetor. Ao passarem pelos portões, foram recebidas por um grupo de instrutores com túnicas de faixa azul-escura, o tecido prático e sem adornos desnecessários, o ar ao redor delas carregado de uma autoridade fria e impessoal. Nenhuma cerimônia calorosa. Nenhum sorriso acolhedor para suavizar a transição.
— Identificação? — perguntou uma mulher de cabelos presos num coque militar apertado, segurando uma prancheta de madeira lascada e penas para escrita, sua voz seca como o estalo de um pergaminho antigo.
Sayuri entregou a carta de recomendação, o papel selado com o brasão recém-adotado de Greanleaf, a cera ainda fresca em sua memória.
A instrutora leu com atenção meticulosa, ergueu uma sobrancelha em surpresa contida, e assentiu devagar, o som da pena riscando a prancheta ecoando como um veredicto.
— Recomendação pessoal de um Lorde territorial. Filhas de lorde Rayos… nunca tinha ouvido que ele possuía filhos, muito menos desta idade… mas aceitável — murmurou ela, quase para si mesma. — Vocês serão avaliadas junto com os demais candidatos.
Ela sinalizou para que três cadetes se aproximassem, jovens de uniformes semelhantes, com olhares curiosos e posturas rígidas, o cheiro de couro novo e tinta fresca emanando deles.
— Estes são outros membros do grupo de integração. Muitos vêm de outras regiões — alguns, até de países vizinhos como Bluerose ou Marguerite. Comportem-se de acordo — instruiu ela, o tom deixando claro que não toleraria desvios, os olhos varrendo o grupo como uma lâmina.
— E o que exatamente vamos enfrentar? — perguntou Joayne, a voz baixa, mas firme, os olhos azul-acinzentados avaliando os cadetes novos com rapidez, catalogando expressões e posturas.
— Avaliação tripla — respondeu a mulher, sem pausas ou floreios. — Aptidão física, estratégica e… percepção de essência. Aqueles que não demonstrarem compatibilidade mínima com os padrões da Academia serão dispensados imediatamente. Sem apelos. Sem segundas chances.
As três se entreolharam, um olhar silencioso que transmitia tudo: prontidão, confiança mútua, o eco de anos de amizade forjada em mundos e corpos diferentes. Sem precisar dizer nada, sabiam o que pensar: estavam prontas. O ar da academia cheirava a cera de vela queimada e livros antigos, um perfume que prometia conhecimento infinito, mas também desafios que testariam não só o corpo, mas a alma.
Enquanto atravessavam os corredores de pedra clara da ala leste, o eco de seus passos misturando-se ao murmúrio distante de aulas em andamento, sussurros se espalhavam como poeira em vento seco, vozes baixas ricocheteando nas paredes altas e abobadadas.
— São essas as filhas do duque de Greanleaf? — murmurou um cadete, o tom carregado de dúvida.
— Parece que vieram de um campo de refugiados — sibilou outro, os olhos semicerrados em julgamento.
— Elas não têm nem brasão bordado direito — completou uma terceira voz, com um riso abafado.
Clarice cerrava os punhos, os nós dos dedos embranquecendo, o rosto corando de irritação contida. Sayuri apenas observava, os olhos verdes catalogando as vozes e rostos com frieza calculada, arquivando para uso futuro. Joayne já havia memorizado os rostos de quem murmurava e, discretamente, suas fraquezas também, notando posturas desleixadas, olhares evasivos ou acessórios que podiam ser explorados em um confronto.
Foram conduzidas até um dormitório simples e espartano: três camas de madeira dura alinhadas contra a parede fria, três baús de ferro enferrujado para pertences pessoais, uma lareira apagada que exalava um cheiro residual de cinzas frias e umidade. A janela estreita dava para o pátio interno, onde figuras distantes se moviam como sombras em treinamento.
— Bom — murmurou Clarice, jogando a mochila na cama com um baque surdo que ecoou no quarto vazio. — Já estive em prisões mais apertadas. Pelo menos aqui tem uma vista.
— Melhor do que dormir em tenda sob chuva — rebateu Joayne, testando a tranca do baú com um clique metálico satisfatório, o som reconfortante em meio à austeridade.
Sayuri olhou pela janela, o vidro embaçado pela umidade da manhã. Dali, via-se o pátio principal — amplo, silencioso, quase reverente, com estátuas de heróis antigos erguidas em nichos, seus olhares de pedra fixos no vazio como sentinelas eternas.
— Este lugar respira expectativa — disse ela, a voz baixa, quase um sussurro. — E vigilância. Cada canto parece observar.
Joayne sorriu de leve, desdobrando seu mapa improvisado sobre a cama.
— Então já estamos em casa — respondeu ela, o tom seco, mas com um traço de humor irônico.
O sol mal havia tocado os vitrais superiores do dormitório, tingindo o quarto de tons rosados e dourados, quando o gongo de chamada ecoou pela ala leste da Academia. Um som profundo e contínuo, como se a própria pedra vibrasse com ele, despertando os cadetes com uma urgência implacável que penetrava ossos e mentes. Era o sinal do início do primeiro dia, o ar ainda frio e úmido da madrugada carregando o cheiro de orvalho e pedra antiga.
Sayuri já estava de pé, revisando mentalmente os mapas da noite anterior, sua mente traçando rotas e possibilidades como linhas de código invisíveis. Clarice se espreguiçava como uma gata mal-humorada, resmungando sobre o frio que se infiltrava pelas frestas, os cabelos loiros desgrenhados caindo sobre o rosto. Joayne terminava de amarrar os braceletes de couro que usaria para os testes físicos, seus movimentos precisos e econômicos, os dedos ágeis como em uma montagem de mecanismo. Nenhuma falava muito — sabiam que aquele dia definiria como seriam vistas dali em diante, não só como filhas de um lorde periférico, mas como potenciais forjadoras de destino.
O campo de testes da Academia Real ficava nos fundos da grande torre central, um espaço projetado não para mera exibição, mas para julgamento impiedoso. Não era apenas um campo aberto, mas um anfiteatro de pedra com degraus largos e curvos onde instrutores e estudantes veteranos observavam de cima, como juízes em um tribunal antigo e inexorável. Um símbolo sutil de hierarquia: quem assiste, julga, o eco dos passos e respirações amplificado pelas paredes circulares, tornando cada erro um espetáculo público.
Ao todo, cerca de trinta novos candidatos se posicionavam sob a luz suave da manhã, divididos em trios irregulares, o ar fresco carregado com o cheiro de terra úmida e tensão nervosa. A maioria vestia roupas sob medida, com brasões bordados no peito em fios de ouro e prata que reluziam ao sol, exalando herança e privilégio acumulado por gerações. As três de Greanleaf se destacavam, não por ostentação — mas pela ausência dela, suas túnicas simples e práticas contrastando como intrusas em um baile nobre, o tecido áspero roçando contra a pele como um lembrete de humildade.
— Olhem só, as protegidas do duque da província roubada — sussurrou alguém próximo, o tom carregado de escárnio velado, o riso abafado ecoando como uma provocação.
— Elas chegaram ontem e já estão aqui? Que tipo de indicação foi essa? — murmurou outro, os olhos semicerrados em julgamento, o dedo apontando discretamente.
Sayuri manteve a postura ereta, o queixo erguido, ignorando os comentários como ruído de fundo. Clarice cruzou os braços e rosnou baixo, um som gutural de advertência que fez o sussurrador mais próximo recuar um passo. Joayne apenas notou quem falou, decorou o rosto com precisão fotográfica e seguiu adiante, sua mente já catalogando potenciais aliados ou ameaças em um arquivo mental.
Um homem alto e magro, com cabelos grisalhos amarrados em um nó baixo e túnica azul-escura que pendia como uma sombra, subiu ao centro do campo. Seus olhos, incrivelmente claros como vidro polido, varreram os candidatos com a frieza de quem mede armas, não pessoas, o ar ao seu redor parecendo se tornar mais pesado, carregado de expectativa.
— Silêncio — ordenou ele.
A palavra não foi dita em tom alto, mas ecoou com autoridade inquestionável, cortando o ar como uma lâmina invisível. Todos obedeceram de imediato, o burburinho morrendo como uma chama sufocada, deixando apenas o som distante de pássaros e o vento leve.
— Sou Ivon Dareth, instrutor-chefe da Primeira Seção. Hoje, os que não demonstrarem aptidão mínima serão dispensados. Estejam à altura de suas recomendações… ou desapareçam — declarou ele, a voz como uma lâmina afiada, sem misericórdia ou floreios desnecessários.
Sem mais introduções ou discursos motivacionais, os testes começaram, o ar carregado com o cheiro de terra úmida, suor fresco e a eletricidade sutil da ansiedade coletiva.
— Sigam-me — declarou Dareth.
Ivon Dareth seguiu para o pátio exterior caminhando com passos largos e precisos sem se importar com quem vinha atrás, muitos dos candidatos que se diziam eruditos mal podiam acompanhar o ritmo do instrutor, que mesmo sem olhar para trás ainda assim era capaz de perceber e analisar os candidatos, mal sabiam eles que o teste já havia começado.
Ao chegarem no patio exterior, enquanto alguns chegavam arfando e se apoiando em seus joelhos outros quase não sentiram efeitos da caminhada em ritmo acelerado. O patio parecia uma área de treinamento militar, com pistas de corrida regulares e irregulares, áreas afastadas para pratica de arco entre varias outras áreas especificas de treino. Para as três garotas aquele cenário era familiar, mas para a maioria dos candidatos aquela área era intimidante.
Teste 1: Aptidão Física
Saltos sobre barreiras de madeira, corridas em circuitos irregulares com obstáculos naturais, provas de resistência com pesos de pedra amarrados aos pulsos, testes de precisão com alvos móveis que balançavam ao vento. Os primeiros testes eram simples em aparência, mas exaustivos em essência, projetados para separar os teóricos dos práticos.
Enquanto alguns nobres tropeçavam em raízes expostas, Sayuri, Clarice e Joayne executavam cada prova com fluidez quase instintiva. Seus corpos, forjados em dois anos de rotina militar implacável com Rayos, respondiam com precisão mecânica, os músculos queimando, mas obedecendo sem queixa. Nenhuma ostentava força bruta descontrolada mas compensavam com técnica refinada, ritmo constante e consciência corporal aguçada.
— Elas são... rápidas — murmurou um dos avaliadores.
Clarice, em particular, transformou o teste de resistência em uma demonstração de durabilidade. Na corrida com pesos, ela não apenas aguentava a carga; ela usava uma técnica de respiração profunda e passada e uniforme que a fazia parecer menos cansada que os outros. Clarice focava na economia de movimento, mantendo o centro de gravidade perfeito, uma habilidade herdada da tenacidade e tecnica de forja com o físico de Máximo.
No confronto contra os bonecos de treino de madeira, ela se moveu com instinto puro. Seus golpes não eram os mais fortes, mas os mais bem angulados, atingindo as juntas dos bonecos com o peso corporal correto, garantindo que caíssem com o mínimo de esforço. era eficiência mecânica bruta.
Joayne, por sua vez, demonstrou o olhar de batedora na prova de mira e agilidade. Ela desviava de obstáculos com uma economia de movimento impressionante, pegou o arco previamente deixado no percurso e atirou suas flechas que não eram poderosos, mas incrivelmente bem balanceados, visando o centro de massa do alvo com precisão cirúrgica, deixando muitos dos instrutores impressionados com a precisão.
Clarice terminou o percurso de resistência dois minutos antes da média, o peito arfando levemente, mas ainda com fôlego para comentar:
— Isso é tudo? No nosso solar a gente chama isso de aquecimento — provocou ela, o tom leve, mas com uma ponta de desafio que fez alguns cadetes próximos engolirem em seco.
Alguns riram, um som nervoso e disperso ecoando no anfiteatro. Outros franziram o cenho, o desprezo evidente em olhares cruzados e murmúrios abafados, mas ninguém ousou responder abertamente.
Sayuri não se destacava com sua resistência ou com sua precisão com o arco, mais ainda assim sempre estava acompanhando as outras duas, sempre economizando suas forças, e essa atitude combinada com o resultado de ter terminado o percurso inteiro depois de Clarice e Joayne, porem era visível que estava menos cansada das três e isso foi o que a destacou, a administração de suas forças e equilíbrio emocional para dosar sua capacidade para a melhor eficiência.
Após o fim dos testes de aptidão fisica os candidatos foram remanejados para outra area, seguiram para um dos salões internos da academia.
Teste 2: Estratégia
Em uma sala circular adjacente ao campo, iluminada por vitrais que tingiam o ar de tons azuis e vermelhos como sangue diluído. Neste teste podiam se agrupar para discutir e executar estrategias. E as três garotas já formaram um grupo. O objetivo era elaborar uma solução em um cenário predeterminado. O cenário era se defender de um cerco com o dobro de suas tropas e evacuar do local para chegar em um ponto especifico já pre determinado. E as equipes eram chamadas para resolver dilemas táticos em um mapa sobre uma plataforma de pedra polida. O ar cheirava a couro, suor e tinta fresca, o zumbido da conversa dos candidatos preenchendo o silêncio tenso.
Sayuri liderava com a frieza calculada. Sua mente estratégica traçava linhas invisíveis no ar, tratando a guerra como um complexo problema de otimização de variáveis. Ela não estava pensando em heroísmo, mas em custo-benefício e taxa de perda aceitável.
— Nossa prioridade é o tempo. A evacuação deve ocorrer em menos de dez horas para evitar o reforço inimigo no Flanco Norte, — declarou ela, movendo peças de madeira entalhada com precisão cirúrgica. — Para isso, precisamos de um dreno de atenção no centro.
Sayuri moveu três esquadrões de infantaria para um vale que era claramente uma armadilha.
— Essas unidades serão sacrificadas. Elas representam um custo de 20%, mas a distração que criam nos dá 40 minutos livres na retaguarda. — Sacrificadas? Não podemos simplesmente evitar o combate? — questionou um instrutor que acompanhava o teste, franzindo a testa. — Não, — respondeu Sayuri, sem desviar o olhar do mapa. — Evitar o combate nos forçaria a uma rota mais longa e pode acabar gerando abertura para uma emboscada inimiga, podemos perder tudo por ingenuidade. O custo-benefício de três vidas pela vitória de setenta é aceitável e otimiza a missão principal, que é a evacuação. A perda de recursos não é um erro; é um cálculo.
Joayne a acompanhava com naturalidade fluida, preenchendo as lacunas com sugestões práticas baseadas em terreno. Seus olhos azul-acinzentados calculavam distâncias e probabilidades como equações vivas.
— A densidade da floresta naquela rota alternativa desaceleraria a cavalaria em 25%. A rota sacrificada, embora perigosa, oferece um solo mais firme e uma linha de visão mais limpa para a nossa extração, — complementou Joayne, apontando para o mapa com a exatidão de um arquiteto analisando a fundação.
Clarice, por outro lado, cortava a abstração com a realidade brutal do campo de batalha. Ela não se importava com as setas no mapa, mas com a materialidade da guerra.
— Vocês podem mover as peças como quiserem, mas se a única ponte de madeira cair sob fogo concentrado de catapulta, nossas tropas aqui morrem cercadas e sem suprimentos, não importa o algoritmo. — toda a nossa linha de defesa tática colapsa. Priorizem a proteção das unidades críticas e dos suprimentos de água. Façam direito, ou é só teoria bonita.
A intervenção prática de Clarice e a análise ambiental de Joayne eram o contraponto perfeito para a frieza analítica de Sayuri.
Mesmo instrutores mais experientes pararam para observar, inclinando-se sobre a plataforma com sobrancelhas erguidas, o ar carregado de um respeito relutante. Sua leitura era precisa, fria, quase profissional como se Sayuri estivesse decifrando um código antigo, não um jogo de guerra. A solução, apesar de controversa, era a mais rápida e garantiu o objetivo dentro do tempo limite.
Ao final da prova, Ivon Dareth não comentou abertamente. Apenas fez uma anotação mais longa do que o habitual, o som da pena ecoando no silêncio como um elogio mudo. Sayuri notou e entendeu que isso era o mais próximo de um elogio que teriam naquele dia, um reconhecimento sutil em meio à rigidez impiedosa da academia.
Teste 3: Afinidade Mágica
A última prova causou um silêncio tenso que se espalhava como névoa, o ar da câmara subterrânea pesada com o cheiro de incenso antigo queimado e pedra úmida que exalava umidade milenar. Os candidatos eram levados um a um a uma sala de pedra escura, isolada do mundo exterior, onde uma chama azul — a Chama de Avalon, uma relíquia da era dos Reis heróis da Academia — tremeluzia sozinha no centro, sua luz etérea dançando nas paredes como fantasmas inquietos, projetando sombras alongadas que pareciam julgar.
— A chama é um artefato passivo, não encantado — explicou uma instrutora de voz baixa e autoritária, sua silhueta recortada contra a luz fraca. — Não há truques. Ela reage ou não. Não forcem. Não mintam. Ela vê além da carne, até a essência.
A maioria dos alunos saiu da sala com expressões neutras, alguns decepcionados, com ombros caídos e olhares vazios, outros aliviados, como se um peso invisível tivesse sido removido de seus ombros. Poucos sorriram, um brilho de orgulho genuíno nos olhos, saindo com passos mais leves.
Joayne foi a próxima. E ali, diante da chama, nada aconteceu nos primeiros segundos, o ar imóvel como uma tumba. Mas então, o ambiente ao redor pareceu… estável demais. Como se o silêncio se tornasse presença viva. A chama não aumentou em fúria, mas também não recuou em medo. Apenas... se ajustou, um reconhecimento sutil de equilíbrio, como um instrumento se afinando a uma nota perfeita.
Os avaliadores tomaram nota.
Clarice entrou em seguida. A chama hesitou, tremeluzindo como se testasse, mas então pulsou uma vez. Breve, direto. Como um reconhecimento ou um alerta, uma faísca de energia que ecoou sua força interna bruta, o ar ao redor aquecendo ligeiramente. E mais uma vez os avaliadores tomando nota.
Quando chegou a vez de Sayuri, a tensão cresceu na antecâmara, o ar carregado com sussurros abafados e respirações contidas. Ela entrou, sentiu o ar pesado da câmara pressionando sua pele, o cheiro de ozônio sutil misturando-se ao incenso. A chama era pequena, delicada, quase frágil. Como se observasse, uma presença viva e julgadora, esperando.
Ela respirou fundo, fechou os olhos, sentindo o pulso acelerado ecoar em seus ouvidos. E a chama… oscilou.
Não cresceu violentamente, mas sua cor se tornou azulada e pouco a pouco se tornou mais intensa, com flashes momentâneos de turquesa escura, uma tonalidade incomum que só ocorria quando a Mana se misturava a uma poderosa fonte de energia externa. A chama pulsou em sincronia perfeita com o coração de Sayuri, um eco que enviou um formigamento elétrico por sua espinha, uma conexão que sussurrava promessas de poder ilimitado e perigos. O formigamento era Mana pura, mas o ritmo era o de uma máquina; era o algoritmo de Augustus sobrepondo-se ao potencial de Sayuri.
Quando ela saiu, o burburinho se espalhou: — Reagiu… Com uma cor dupla! — Essa reação… como pode? Não é comum para iniciantes…
Ao saírem da sala final, ninguém disse nada abertamente para elas. Mas os instrutores, sim, reunidos em um canto sombreado, longe dos ouvidos dos candidatos.
Ivon Dareth os reuniu no alto das arquibancadas e comentou, em tom baixo e confidencial, o vento leve agitando sua túnica:
— As três têm semente. Dormindo, talvez. Mas é genuína.
— Mesmo sem linhagem nobre conhecida? — indagou uma mulher instrutora, erguendo uma sobrancelha cética, os braços cruzados.
— Não há dúvida, — respondeu Ivon, os olhos claros fixos no horizonte. — Devem ser observadas de perto. Principalmente Sayuri, que aparenta possuir uma semente pura como a de linhagens antigas. Há potencial aí… e risco. Elas podem ser joias ou bombas-relógio.
No fim do dia, dos trinta candidatos iniciais, apenas dezenove foram aceitos, o anúncio ecoando como um martelo em bigorna. Alguns partiram cabisbaixos, os ombros curvados sob o peso da rejeição, malas arrastadas com passos pesados. Outros com ódio nos olhos, murmurando maldições contra o sistema ou contra si mesmos. As três de Greanleaf foram chamadas por um assistente de rosto impassível para receberem seus uniformes oficiais. Nada luxuoso ou ostentoso. O uniforme consiste em uma jaqueta branca de corte militar, ajustada ao corpo, com gola alta e fechamento frontal por meio de botões dourados dispostos em fileira única. A jaqueta possui um caimento impecável, evidenciando um design formal e cerimonial, as mangas longas apresentam punhos brancos com detalhes em azul e duas listras horizontais azuis que circundam os pulsos, Com uma saia longa branca plissada que desce até os tornozelos, criando um contraste elegante, por cima da jaqueta, e a capa possui um design simétrico com a parte interna em azul e a externa em branco, No peito, do lado direito, há um emblema bordado em dourado o simbolo da academia um exógono com um cajado e uma espada cruzados em dourado. O tecido prático que permitia movimento sem restrições.
Ao vestirem os trajes em seus dormitórios, o quarto agora familiar com o cheiro de lençóis limpos e poeira assentada, se olharam no espelho embaçado pela umidade, o reflexo tremendo ligeiramente à luz de uma vela solitária.
— De executivos a hospedes, de hospedes a cadetes… — murmurou Joayne, ajustando a gola com precisão meticulosa, os olhos azuis refletindo uma mistura de ironia e aceitação.
— Depende — disse Clarice, girando para testar o movimento das mangas, o tecido sussurrando. — Vamos viver o suficiente pra descobrir quantas vidas mais cabem nessa loucura?
Sayuri sorriu. Um sorriso quieto, confiante, tocando o brasão recém-costurado com os dedos, sentindo o relevo sob a ponta.
— Acho que acabamos de começar — respondeu ela, a voz baixa, mas carregada de uma determinação que ecoava como um juramento.