
Notas do Autor
Antes de tudo pessoal tenho um comunicado, eu diminui a quantidade de Novels feitas por semana, estou mais escrevendo essa novel para mim mesmo, porque se eu não gostar do ritmo dela posso acabar fazendo um trabalho "ruim" e eu não quero fazer isso, quero trazer o maximo de qualidade possivel, então agradeço a todos que aguardaram este capitulo.
Forte abraço a todos.
Sanstone estava deitada na maca da enfermaria, encarando as próprias mãos em silêncio. Sua mente repassava cada detalhe do confronto.
— Aquela luta... — murmurou para si mesma.
Lembrou-se do soco que conseguiu desferir em seu pai, e do golpe devastador que ele parou a milímetros de seu rosto.
— Ele estava se contendo... e eu ainda precisei de ajuda.
Ela baixou o olhar para as ataduras que cobriam seus ferimentos. Uma lembrança amarga e antiga invadiu sua mente.
(No passado — Mansão do Clã Stone)
A pequena Sanstone estava em seu quarto, desenhando em pergaminhos com uma pena. De repente, ruídos estranhos vindos do quarto de seus pais chamaram sua atenção. Ela sorriu, movida pela inocência. A mãe sempre dizia para ela não ir lá quando escutasse aqueles sons, justificando que ela entenderia "quando fosse mais velha".
— Haha! Mamãe e papai acham que não sou inteligente. Claro que vou lá ver, preciso saber como os bebês nascem! — pensou ela, caminhando na ponta dos pés pelo corredor.
Porém, ao espiar pela fresta da porta, o sorriso infantil desapareceu.
Leônidas segurava a esposa pelos cabelos, jogando-a com violência contra a parede.
— Você não serve nem para satisfazer um homem como eu! — rosnou ele, a voz transbordando nojo. — Chama isso de prazer? Eu teria mais diversão fazendo isso sozinho!
A mãe de Sanstone, caída no chão, respondeu com a voz embargada e submissa:
— Peço perdão, querido... Deixe-me tentar de novo, eu prometo melhorar.
Um tapa estalou no rosto dela.
— Escuta bem, sua inútil — ameaçou Leônidas. — Eu vou treinar a nossa filha agora. E ai de você se estiver me traindo com outro homem. Porque, para ter um desempenho tão patético na cama, só pode ser uma rameira barata. Se eu descobrir qualquer coisa, vou esfregar sua cara nessa parede até não sobrar nada.
Ela encolheu-se, respondendo de forma reprimida:
— S-sim, querido... peço perdão. Eu nunca trairia você.
Sanstone, paralisada e com os olhos arregalados, tentou recuar para fugir. Mas a porta se abriu abruptamente. A figura imensa de seu pai bloqueou a luz.
— Aonde você pensa que vai? — perguntou ele. — Seu treinamento começa agora.
A inocência nos olhos da garota morreu naquele instante. Sanstone fechou a expressão, adotando a máscara gélida que carregaria para o resto da vida.
— Claro, pai.
(Presente — Ala Médica do QG)
Sanstone abriu os olhos. A frieza habitual estava lá, mas suas sobrancelhas franzidas denunciavam o ódio contido.
— Um dia, vou fazer ele pagar por todo o sofrimento que causa à minha mãe. Ele finge ser um herói para este reino, mas não passa de um demônio.
Forçando os músculos doloridos, ela se levantou da maca. A tontura a atingiu, mas ela se apoiou na parede e começou a caminhar lentamente em direção ao pátio de treinamento.
No corredor, algumas Valquírias que conversavam notaram a situação e correram até ela.
— Vice-Comandante! Deixe a gente ajudar!
Sanstone as afastou com um gesto brusco.
— Me deixem em paz. Vou treinar.
As garotas a seguiram, preocupadas, vendo-a usar a parede como apoio.
— Mas, General, a senhora perdeu muito sangue! A Sargenta Laura nos deu ordens expressas para cuidar de você!
Sanstone parou, respirou fundo, equilibrou o corpo e forçou-se a andar normalmente, escondendo a dor. As Valquírias arregalaram os olhos, perplexas com a resistência absurda da oficial.
— Se quiserem ficar de olho em mim, fiquem à vontade — disse Sanstone, sem olhar para trás. — Mas, se tentarem me impedir de treinar, a expulsão de vocês deste exército será rápida e dolorosa. Entendido?
As recrutas engoliram em seco e apenas a seguiram em silêncio.
Chegando ao pátio, os soldados que suavam em seus exercícios bateram continência imediatamente. Sanstone caminhou até um dos cantos mais afastados.
— Descansem. Podem voltar às suas tarefas. Estarei aqui treinando — ordenou ela.
Sanstone posicionou-se diante de um manequim de madeira dura e ergueu os punhos nus. Uma Valquíria, ainda apreensiva, perguntou:
— Senhora... gostaria de ajuda para colocar os manequins no lugar toda vez que a senhora os destruir?
Sanstone não desfez a base de luta.
— Claro. Agora, por favor, silêncio.
Ela avançou num piscar de olhos. O soco atingiu o manequim com um estrondo seco, rachando a madeira e derrubando-o. As Valquírias bateram palmas, maravilhadas. Sanstone, no entanto, ofegou levemente, uma das valquírias levantou o manequim.
— Parece que tenho uma longa caminhada pela frente... — murmurou, antes de desferir outro golpe.
Enquanto Sanstone castigava os manequins no pátio, a Sala do Comandante era palco de uma crise existencial.
Alexandre encarava Laura, perplexo.
— E-espera... medíocre?!
Laura uniu os dedos indicadores, sorrindo de forma descontraída.
— E-então, Comandante... sua reserva arcana é bem pequena. Ela só permite que você use habilidades mágicas muito, muito básicas…
Alexandre murchou. Ele escorregou na cadeira, encarando o teto, a aura de depressão quase visível ao seu redor.
— Quer dizer que terei que aceitar ser destruído por magos para o resto da vida... Eu não aceito isso. Sou inútil.
Laura balançou as mãos, tentando animá-lo.
— Calma, Comandante! Não é o fim do mundo. Se quiser, eu posso te ensinar um feitiço interessante que combina perfeitamente com o seu estilo de luta e gasta pouquíssima mana!
A depressão de Alexandre sumiu num instante. Ele se endireitou, os olhos brilhando de curiosidade.
— Espera, é sério?!
Laura suspirou, sorrindo com a mudança de humor dele.
— Sim. Sabe o feitiço "Casco de Tartaruga" que mencionei? Tem como fazer uma versão modificada e mais eficiente dele.
Alexandre inclinou-se sobre a mesa, empolgado.
— Isso é muito interessante. Sou todo ouvidos.
Longe dali, além das fronteiras do Império Humano. O Reino das Bestas era uma selva colossal e impenetrável.
Um enorme jacaré caminhava sobre quatro patas pela folhagem densa. Ao chegar aos degraus de um templo em ruínas que servia como sala do trono, a criatura ergueu-se, assumindo uma forma humanoide musculosa e escamosa.
Diante dele, uma criatura gigantesca estava sentada nas sombras de um trono de pedra.
— Senhor. Jacó se apresentando para o serviço — disse o jacaré, curvando-se.
A voz que respondia das sombras era grave e fazia o chão tremer.
— Meu fiel escudeiro. Encontrou uma forma de entrar no Reino dos Espíritos?
Jacó manteve a cabeça baixa.
— Meu Senhor, com todo o respeito... só existe uma pessoa viva que consegue acessar aquele reino. E essa pessoa é o Imperador Supremo dos Humanos. Apenas ele possui a chave arcana.
Dois olhos vermelhos e furiosos brilharam na escuridão.
— Está querendo me dizer que somente aquele covarde esnobe consegue?!
— Sim, meu Senhor. Se quisermos entrar lá, precisaremos... ser amigos dele.
Um punho colossal desceu sobre o braço de pedra do trono, pulverizando-o. O estrondo fez os pássaros levantarem voo a quilômetros de distância e os outros animais presentes no salão caírem de cara no chão, aterrorizados.
— MALDITO!!! — rugiu a criatura. — Este humano é uma pedra no meu sapato há incontáveis anos! Eu fico incrédulo que ele ainda esteja vivo. Aposto que aqueles malditos Espíritos deram a imortalidade a ele!
A luz da lua filtrou-se por uma fenda no teto, revelando a figura. Leonardo, o Rei das Bestas. Um leão humanoide colossal, com uma juba espessa levemente grisalha, músculos definidos por décadas de guerra e uma cicatriz profunda rasgando o olho esquerdo.
— Essa imortalidade deveria ter sido do meu pai! E minha! — continuou Leonardo, enfurecido. — Mas ele morreu, e eu estou seguindo o mesmo caminho. Enquanto aquela raça humana fedida permanece e ainda ousa nos humilhar, nos chamando de cães!
Jacó, inabalável, respondeu com um tom levemente sarcástico:
— Com todo o respeito, Chefe, eu acho que esse discurso de vilão revoltado não vai nos levar a lugar nenhum. O senhor sabe que temos o maior exército do mundo, certo?
Leonardo bufou, sentando-se novamente e parecendo encolher um pouco sua presença esmagadora.
— Sim, sim. Mas não podemos simplesmente marchar e atacar aquele reino. Os Espíritos ainda os protegem. Eu tenho certeza. A aura deles ainda é forte por lá.
Jacó piscou os olhos.
— Então o senhor consegue ver quando tem ou não espíritos num lugar?
— Claro que sei, seu jacaré estúpido! — rosnou o leão. — Meu pai passou essa herança para mim. Os Espíritos estão lá. Se atacarmos agora, seremos aniquilados, mesmo com nosso exército. Meu reino pode ser a selva, mas ainda somos de carne e osso. Estamos limitados a corpos físicos.
Jacó sentou-se no chão, apoiando o queixo na mão escamosa, curioso.
— Então me conte, Chefe. Como funciona essa história?
Leonardo suspirou, a voz grave assumindo um tom de contador de histórias.
— Há muito tempo, existiam três grandes reinos inteligentes que se tornaram potências: os Humanos, os Demônios e as Bestas. Nós, as Bestas, somos unidos. Do predador mais feroz ao cordeiro e ao porco, todos lutamos lado a lado. Comandamos toda a selva, que é cinquenta por cento do mundo. Os Demônios governam todo o submundo escaldante. E os Humanos? Eles não governam nada! Eles apenas roubam nossas terras, destroem a natureza e se escondem atrás de muros e magias roubadas!
Jacó coçou a cabeça.
— Senhor Leonardo, na minha humilde visão, acho que essa guerra é perda de tempo. Deixe os humanos com aquela terrinha apertada deles. Já temos metade do mundo. Devíamos focar em nos entender com o Povo dos Peixes, no oceano. Essa sim é a nossa prioridade.
Leonardo sacou uma espada larga do tamanho de um tronco de árvore e a arremessou. A lâmina cravou-se na parede de pedra a centímetros do focinho de Jacó, vibrando intensamente.
O jacaré nem piscou. Manteve o sangue frio e o tom arrastado:
— Não precisa ficar tão nervoso. Só estou dizendo que isso seria bom para os nossos cidadãos. E para sua pressão arterial também... meu Lorde.
— Eu não pedi seus conselhos, lagartixa gigante! — rosnou Leonardo. — Agora me faça um favor e me diga: o que aquela maldita Primeira-Ministra humana queria vindo até aqui na semana passada?
Jacó baixou a cabeça em uma reverência formal.
— Ela veio nos dar a garantia verbal de que os humanos não atacariam nossas fronteiras. O que, convenhamos, tenho certeza de que é verdade…
Leonardo o cortou, a voz ecoando de forma autoritária:
— Aquela garotinha arrogante é um incômodo. Quando nosso aliado secreto estiver pronto, vamos fingir aceitar essa amizade diplomática... e então, vamos sequestrá-la.
Jacó sorriu, exibindo fileiras de dentes afiados.
— Como quiser, meu Lorde.
No pátio do QG, Sanstone continuava seu treinamento. O som dos impactos ecoava pelo local.
Marcos acabara de retornar do cemitério improvisado, após enterrar as Valquírias rebeldes. Ao ver os soldados parados, assistindo a algo, ele bateu palmas para chamar a atenção.
— Que enrolação é essa, pessoal!? Todo mundo voltando para seus postos e treinos! Parem de fazer papel de plateia!
Quando a multidão se dissipou, Marcos viu o motivo do alvoroço. Sanstone estava no centro, destruindo manequins.
— Oh, entendi. O espetáculo é dos bons — disse Marcos para si mesmo, caminhando até ela.
Na Sala do Comandante, Laura virou o rosto subitamente em direção à janela. Alexandre, que praticava os gestos do novo feitiço, parou.
— O que foi?
Laura cerrou os olhos, a intuição gritando.
— Nada. É só que... eu sinto que o Marcos corre um perigo iminente.
Alexandre acenou com a mão, despreocupado.
— Fica tranquila. Ele foi enterrar os corpos do massacre e organizar o pátio. Deve estar longe de qualquer perigo real.
Laura franziu a testa, balançando a cabeça.
— Sei não. Estamos falando do Marcos.
— Está duvidando da minha avaliação tática, Laura?
— Não é de você que eu estou duvidando, Comandante — ela riu, olhando para o teto. Alexandre suspirou, entendendo perfeitamente o ponto dela.
No pátio, Marcos se aproximou justo no momento em que Sanstone arremessou um manequim quebrado. Marcos deu um salto e aplicou um chute, mandando o manequim de volta para ela. Sanstone, sem sair do lugar, desferiu um soco limpo, estilhaçando o alvo em mil pedaços no ar.
Ela limpou as mãos e fixou seus olhos vermelhos no Capitão.
— Por que está provocando sua superiora? Não deveria estar liderando o batalhão?
Marcos sorriu, apoiando a lança no ombro.
— Não seria melhor você treinar com um alvo que revida?
Sanstone relaxou a postura de combate, mas o olhar esfriou ainda mais.
— Está querendo um duelo contra mim? Você está bem atrevido pro meu gosto, Marcos.
Marcos riu, cravando a ponta da lança no chão de terra e estalando os dedos das mãos.
— Vamos fazer uma luta justa no corpo a corpo. Afinal de contas, eu e você somos os "guerreiros da linha de frente" deste QG, não é?
Sanstone suspirou, massageando as têmporas.
— Você é realmente um idiota. Minha força física é absurdamente maior do que a sua. Vai se machucar de graça.
Marcos abriu um sorriso provocador.
— Relaxa, Sans. Da última vez eu estava pegando leve com você só porque você era a Vice-Comandante. E também... porque é uma mulher.
Uma veia saltou na testa de Sanstone. A aura ao redor dela pareceu cair alguns graus.
— Você... pediu por isso.
Ela avançou como um raio. Marcos já esperava, mantendo o sorriso, e cruzou os braços para bloquear. O punho de Sanstone atingiu a defesa de Marcos com um baque surdo. A força foi imensa, e os braços de Marcos ficaram roxos instantaneamente, mas ele não arredou o pé nem foi empurrado.
— Hahaha! Você pode fazer melhor que isso! — provocou ele.
Sanstone trincou os dentes, girando o quadril para o segundo golpe.
— Morra e aprenda qual é o seu lugar!
O segundo soco acertou o peito de Marcos, lançando-o pelos ares. Ele rolou no chão levantando uma nuvem de terra.
Sanstone abriu as mãos, ajustando as luvas.
— Espero que tenha entendido o recad...
— É só isso que você tem? — tossiu Marcos, colocando-se de pé e batendo a poeira das calças. — Se você nem me fez desmaiar, eu sinto que você está bem mais fraca.
Sanstone arregalou os olhos levemente. Olhou para o próprio punho.
Mas não é possível. Eu dei meu soco mais forte... O desgraçado tem razão. Meu corpo ainda está debilitado.
Marcos caminhou devagar, parando a poucos passos de distância dela, a expressão séria.
— Você enfraqueceu, Sans. Ou é só impressão minha?
As Valquírias que observavam de longe cochichavam, chocadas por Marcos ter resistido a um golpe direto da temida General.
Sanstone cruzou os braços para esconder o leve tremor nas mãos.
— Você pode ter razão. Ainda estou um pouco enferrujada devido aos... contratempos recentes. Mas não esqueça que, até hoje, você nunca conseguiu me fazer um único arranhão.
Marcos perdeu a pose de durão por um segundo, os ombros caindo.
— É verdade... Mas, Sans, eu estou aqui exatamente para superar isso. Não vou parar de te desafiar até conseguir te derrubar.
Sanstone percebeu a determinação nos olhos dele. Um sorriso rápido, quase imperceptível, cruzou seus lábios antes que ela retomasse a frieza habitual, entrando em base de combate.
— Está bem, Capitão. Mas saiba que não vou dar moleza só porque você é um masoquista.
Nos corredores do QG, Alexandre caminhava ao lado de Laura, discutindo os detalhes teóricos da magia que acabara de aprender.
— Você aprendeu os conceitos bem rápido, Comandante — elogiou Laura, com o dedo indicador erguido como uma professora. — Mas lembre-se da regra de ouro: se a sua mana acabar e você continuar forçando o feitiço, o custo será cobrado da sua força vital.
Alexandre assentiu, a expressão grave.
— Entendo. Preciso usar com extrema cautela e apenas em situações de vida ou morte.
A postura "professoral" de Laura durou pouco. Ela olhou para o lado, cobrindo a boca com a mão para esconder uma risadinha travessa.
— Ah... a menos, é claro, que você queira que eu faça outra transfusão de sangue entre você e a Sans. Aí vocês podem ter outro "encontro" romântico na enfermaria!
Alexandre ficou escarlate.
— Q-Quem devia se preocupar com encontros nem deveria ser eu e a General! Visto que você e o Marcos quase acordaram o quartel inteiro naquela noite!
Foi a vez de Laura ficar vermelha, parando de andar.
— E-estava tão alto assim?!
Alexandre apontou o dedo para ela, no melhor estilo acusatório.
— Estava! Dava pra ouvir lá da minha sala! Só sei que, graças a isso, você animou o Marcos, então eu e a Sans fizemos vista grossa. Mas, da próxima vez que essa gritaria se repetir, você vai direto pra sala de tortura por perturbação da ordem militar!
Laura recuperou o controle rapidamente. Um sorriso safado e perigoso surgiu em seus lábios. Ela deu um passo na direção dele.
— Quer dizer que... se eu fizer isso de novo, serei torturada? Que tipo de tortura seria essa?
Alexandre recuou um passo, com uma gota cômica escorrendo pela nuca. Como essa garota pode ser tão bizarra?, pensou ele.
Limpando a garganta, ele assumiu sua postura mais autoritária.
— Vamos focar no treino dos soldados e pare de falar asneiras, Sargenta!
Laura sorriu, batendo continência.
— Sim, senhor!
Enquanto caminhavam para o pátio, Alexandre rezava mentalmente: Por favor, Deuses, me deem paciência com essa equipe.
Ao chegarem na área externa, Alexandre viu a roda de soldados aglomerada.
— Pronto. Começou — murmurou ele, massageando as têmporas.
Eles abriram caminho pela multidão. No centro, Marcos estava esparramado no chão, completamente nocauteado. Sanstone, de pé e ofegante, estava com os punhos cerrados e esbravejava:
— Você fala todo aquele discurso bonito de não desistir e no segundo soco já cai babando?! Você é um imprestável!
Mas, virando o rosto e baixando o tom de voz para que quase ninguém ouvisse, ela sussurrou:
— ...Mas é um bom amigo também.
Alexandre ignorou Marcos no chão e marchou até Sanstone. Sem pedir permissão, pegou a mão dela e analisou os nós dos dedos esfolados, verificando se ela estava bem.
A ação repentina fez Sanstone prender a respiração, e os soldados arregalaram os olhos. Um grupo de Valquírias começou a fofocar descaradamente:
— Eu sabia! Bem que me disseram que eles estavam namorando escondido!
Alexandre virou o pescoço tão rápido que quase estalou, fuzilando o esquadrão com o olhar.
— Vocês só sabem pensar besteira?! Pela santa paciência! A Vice-Comandante deveria estar em repouso absoluto, e agora a encontro aqui brigando! Eu não posso virar as costas por um minuto que o circo pega fogo!
Sanstone, recuperando-se do toque de Alexandre e puxando a mão de volta, ergueu o queixo.
— Comandante, eu estou perfeitamente bem. Minha falta de sangue já foi suprida.
Alexandre apontou o dedo direto no nariz dela.
— Isso é uma mentira deslavada. Você enfrentou um monstro, serviu de bolsa de sangue ambulante e não passou nem vinte e quatro horas! Como pode ter se recuperado?
Sanstone ergueu os punhos na direção do rosto dele, um sorriso desafiador e teimoso nos lábios.
— Por que não testa minha força por si mesmo, Comandante?
Alexandre não recuou. Falou com uma calma assustadora:
— Vice-Comandante. Você vai voltar para a ala médica agora. E isso não é um pedido. É uma ordem.
Sanstone abriu a boca para rebater, mas foi interrompida por Laura e por um Marcos recém-acordado, ainda grogue no chão.
— Poxa, Alê, você tá muito chato hoje — resmungou Marcos, esfregando a bochecha roxa. — Deixa a General em paz. Ela me surrou direitinho.
— É, Comandante! — apoiou Laura, sorrindo. — Pense que ela já está bem. Ou vai me dizer que quer dar uma de namorado superprotetor no meio do expediente?
Os soldados seguraram o riso. Alexandre sentiu o rosto esquentar, mas, por dentro, observou a cena com alívio. A camaradagem deles é incrível. Ninguém está abatido pelo massacre de ontem. Temos a estabilidade de que precisamos.
A atmosfera descontraída, no entanto, foi quebrada por uma voz infantil e arrogante.
— Bravo, bravo! Que família mais linda. Mas vocês sabiam que insultar um Comandante de alta patente é crime militar?
Alexandre virou-se, a expressão endurecendo na mesma hora. Marcos e Laura seguiram o olhar dele, os sorrisos sumindo.
Sanstone, que nunca a viu antes, cruzou os braços e analisou a intrusa: uma garotinha de cabelos azuis e roupas caras. Ela falou com sua frieza letal:
— E quem é você, pirralha? Está perdida e precisa de ajuda para encontrar o papai?
Lilith, a Primeira-Ministra, parou de andar. Jogou o cabelo para trás de forma soberba e sorriu.
— Você é muito boa nas piadas, soldadinha.
Sanstone não piscou.
— Não é uma piada. Seus olhos dizem que você é exatamente isso.
Lilith vacilou. A arrogância deu lugar a uma fúria repentina.
— Você tem noção de quem eu sou, sua insolente?!
— Tenho — respondeu Sanstone, inabalável. — É uma garota prepotente com o olhar de quem tem pais ausentes.
A frase foi um golpe certeiro. O rosto de Lilith murchou em tristeza e raiva contida. Alexandre, vendo a crise diplomática prestes a explodir, entrou no meio.
— Garotas, já chega! Não precisam brigar. Sans, mais respeito. Ela é a Primeira-Ministra Lilith.
Um engasgo coletivo varreu o pátio. Marcos e as Valquírias bateram continência em pânico. Sanstone, por sua vez, continuou de braços cruzados, a expressão perfeitamente indiferente, o que deixou Lilith ainda mais irritada. Mas a pequena governante forçou um sorriso doce, voltando-se para Alexandre.
— Muito obrigada pela defesa, Comandante. Sabe, você é um cara bem legal. E é justamente por isso que vim até aqui... Gostaria de conversar com você. A sós.
Para o choque geral, Lilith correu e abraçou o braço de Alexandre com força.
Sanstone apertou os dentes. Um tique nervoso fez seu olho esquerdo tremer, enquanto ela esmagava as próprias unhas contra o metal da braçadeira.
Alexandre e Lilith começaram a caminhar em direção ao escritório. Marcos não entendeu a tensão no ar, mas Laura olhou de Lilith para Sanstone, o sorriso safado voltando.
Ela sussurrou para a amiga:
— Ihhh, Sans... não vai me dizer que você está…
Sanstone virou a cabeça tão rápido. O olhar vermelho prometia dor.
— Nem ouse completar essa frase, Laura. Ou quem vai precisar de transfusão de sangue hoje é você.
Laura suou frio e recuou, rindo nervosa.
— N-não que isso, Sans! Longe de mim! Não ia dizer nada!
Sanstone virou-se para as tropas, o mau humor transbordando.
— Soldados! O intervalo acabou! O showzinho também! Voltem para os treinamentos! Hoje vamos pegar o dobro de peso, porque a Sargenta Laura resolveu me tirar do sério!
Um gemido de desespero subiu do pátio. Marcos olhou para a namorada, confuso.
— Poxa, Laura, por que você fez a General ficar brava?
Laura tentava se explicar gaguejando, enquanto Sanstone marchava a passos duros para longe.
Ao se afastar, Sanstone encostou em uma parede fria e bateu o pé no chão.
Droga! O que aquele projetinho de gente veio fazer aqui? E ainda por cima agarrando o braço do Comandante?! Será que ela... será que ela vai tentar seduzir o Alexandre para usar a influência dele? Ou pior... vai tirá-lo do cargo por causa dos problemas de ontem?!
O cérebro tático de Sanstone criava cenários políticos e românticos apocalípticos.
Enquanto Sanstone se afogava em paranoia, o clima na Sala do Comandante era de pura tensão.
Alexandre sentou-se em sua cadeira. Lilith, usando magia de levitação, sentou-se cruzando as pernas no ar, pairando acima da mesa.
— Você é um sujeito muito interessante, Alexandre — disse ela, brincando com a ponta da capa. — Não é à toa que dizem que você é demais.
Alexandre reclinou-se, os olhos estreitos.
— O que quer dizer com isso? Quem diz isso?
Lilith riu, girando no ar.
— Ora, quem mais? Suas Valquírias, claro! Muitas queriam sua cabeça no início, mas agora... ah, elas observam você o tempo todo quando não está prestando atenção. Acham você um verdadeiro príncipe!
Alexandre corou violentamente.
— C-Como você pode falar uma asneira dessas num momento sério?! o que você quer?
Lilith gargalhou, adorando a reação dele. Mas logo o sorriso morreu, substituído pela face implacável de uma governante.
— Você é engraçado. Mas vamos ao que interessa. Eu decidi organizar um Torneio.
Alexandre uniu as mãos sobre a mesa.
— Um torneio? Para as tropas?
— Não — disse Lilith, a voz suave e mortal. — Um torneio até a morte para os oficiais. Aquele que vencer, não só ganha o direito de decidir a vida do oponente... como também toma o cargo dele.
O ar na sala ficou denso. Alexandre percebeu que a garotinha mimada havia sumido; à sua frente estava a Segunda Autoridade do Reino.
Antes que ele pudesse pensar em recusar ou proteger sua equipe, Lilith abriu os olhos azuis, brilhando com magia opressora, e deu o ultimato:
— E caso você ou seus oficiais pensem em recusar o convite, será considerado deserção e derrota. Vocês serão executados sumariamente. Afinal, Comandante... os oponentes que escolhi para vocês não vieram para brincar.