
Alexandre encarou Lilith. O pavor gelava sua pele, mas ele forçou sua voz a sair com uma autoridade que não costumava usar.
— Lilith, deixe-me ver se entendi direito. Você quer dizer que eu terei que enfrentar outros guerreiros em um combate mortal apenas porque você quer brincar com as nossas vidas?
A garota que flutuava no meio da sala sentada em uma cadeira invisível, apenas tombou a cabeça para o lado tocando o queixo com o indicador abrindo um sorriso doce.
— Se for para pensar de um jeito chato, sim. E vocês não têm como rejeitar, se não…
Antes que ela pudesse terminar a ameaça, a postura de Alexandre mudou. A aura de desespero sumiu, dando lugar a uma frieza cortante, assustadoramente semelhante à de Sanstone.
— Então eu vou me inscrever sozinho.
A surpresa foi tanta que Lilith perdeu a concentração do feitiço e despencou no chão. Levantando-se apressada e esfregando a cabeça, olhou para o comandante com os olhos arregalados, genuinamente chocada.
— Espera aí! Você quer dizer que está se sacrificando? Tem certeza disso?! Você pode morrer num piscar de olhos.
Os olhos de Alexandre estavam semicerrados, carregando uma convicção invicta. Ele parecia um homem que não tinha mais nada a perder.
— Você não ouviu errado Lilith. Eu não ligo para o que vai acontecer comigo, mas o meu trabalho é cuidar desta nação e proteger a vida de outras pessoas. E isso inclui os meus soldados.
Lilith, finalmente, puxou uma cadeira real e sentou-se, abandonando a pose superior.
— Comandante, você tem um bom coração. Mas sabe que as regras do duelo são claras: cinco contra cinco. Você não tem muita escolha.
Ela abriu os braços, como se fosse um detalhe bobo, mas Alexandre não recuou.
— Lilith eu sei exatamente que torneio é esse. Eu fiz a prova oral e tirei a nota máxima. Nós dois sabemos muito bem que existe uma cláusula na lei que permite a um único membro assumir as cinco vagas, caso deseje.
A Primeira-Ministra piscou, levemente impressionada. Então, uma risada debochada escapou de seus lábios.
— Haha! Meu Deus, você é tão divertido.
Alexandre permaneceu impassível. A risada de Lilith foi morrendo aos poucos ao perceber que ele não estava blefando. Ela bateu as duas mãos na mesa, inclinando-se para a frente, o rosto obscurecido por uma sombra de irritação.
— Você não pode estar falando sério. Sabe quem eu sou para levantar a voz contra mim? E ainda por cima fazer uma insinuação dessas?
Sem piscar, Alexandre aprofundou o olhar ameaçador.
— Escute bem, Lilith. Me inscreva logo neste torneio, ou você está com medo?
A provocação atingiu Lilith que chutou a cadeira para trás, abrindo a porta do escritório com violência. Antes de cruzar o batente, lançou um olhar sombrio por cima do ombro.
— Você vai se arrepender de não ter feito o que eu quero.
A porta bateu. O silêncio engoliu a sala.
No momento em que ficou sozinho, a máscara de Alexandre derreteu. Ele desabou na cadeira exausto com a respiração acelerada.
— Meu Deus… Por que eu peguei mais responsabilidade do que posso carregar? — murmurou para si mesmo, esfregando o rosto com a mão. — Agora, com toda a certeza, serei morto naquele torneio… ou pior!
A mente tática de Alexandre começou a criar cenários paranoicos e catastróficos. Em um deles, visualizava Lilith correndo até o Grande Líder:
"Papai, aquele homem ergueu a voz pra mim e me chamou de burra!"
E a sombra colossal do Imperador respondendo do alto de seu trono:
"Então vamos executá-lo."
O delírio sumiu. Alexandre coçando a cabeça freneticamente num gesto cômico de puro desespero.
— Por que eu fiz isso?! Por que eu fiz isso?!
Antes que pudesse arrancar os próprios cabelos, a maçaneta girou. Sanstone entrou, fechando a porta com firmeza ativando o trinco. Ela caminhou até a cadeira em frente à mesa e sentou-se. Sua expressão era a mesma máscara gélida de sempre.
— O que aquela rosa venenosa falou com você?
Alexandre sobressaltou-se. A aura de Sanstone parecia três vezes mais assassina do que o normal apesar do olhar ser igual. Ele puxou alguns papéis da gaveta apressadamente, tentando disfarçar.
— N-Não foi nada. Ela estava só querendo brincar. Enfim, em breve vou precisar cuidar dessa papelada da logística da base…
Sanstone não moveu um músculo. Continuou sentada, pernas e braços cruzados, os olhos vermelhos perfurando a alma dele. Alexandre suspirou.
— Ela está me obrigando a ir a um torneio. Disse que é um duelo, mas eu vou enfrentar cinco pessoas sozinho.
A sobrancelha de Sanstone subiu um pouco.
— Além disso — continuou ele, coçando a nuca —, acho que precisamos tomar cuidado. Falei algumas coisas que a Lilith não gostou e ela saiu correndo daqui furiosa. Mas nós não fizemos nada proibido, eu juro!
A Vice-Comandante permaneceu em silêncio absoluto. O ar na sala parecia uma mistura sufocante de fogo e gelo mortal. Alexandre engoliu em seco.
— Sans, você está me assustando. Me diga o que acha…
Ela respirou fundo, mantendo a postura rígida.
— E você espera que eu aceite que você se inscreva nas cinco vagas para esse torneio?
Alexandre suspirou, derrotado.
— Então você sabe da regra.
Sanstone desfez a pose. Num movimento rápido, bateu a mão na mesa de madeira, deixando uma marca visível e alexandre levemente surpreso.
— Claro que sei! E eu vou entrar nessa droga de torneio com você. Me passa uns três para eu retalhar. Eu sei que está tentando nos proteger Alexandre, mas você sabe muito bem que se morrer o cargo passa para o próximo e ficarei de mãos atadas. Então, pelo menos, vamos dividir esse peso.
Alexandre olhou para ela com sinceridade. A surpresa inicial deu lugar a um olhar terno.
— Escute, Sans. Eu estou fazendo isso não para te diminuir. Estou aqui para impedir que algo terrível aconteça.
Sanstone perdeu a compostura. Ela se inclinou sobre a mesa, quase gritando:
— Você precisa parar de bancar o herói! Ninguém ganha a guerra assim!
— Sans, eu estou fazendo isso por você! - gritou alexandre
O silêncio reinou. Os dois ficaram surpresos e logo em seguida coraram intensamente ao ouvirem o eco daquela frase. Alexandre tossiu, tentando recuperar a formalidade, embora suas bochechas queimassem.
— O que quero dizer é… se eu acabar morto em combate, a constituição dita que o Vice assume o comando. Eles podem tentar mascarar isso no coliseu, mas no papel é a lei. Então…
Antes que ele pudesse terminar a linha de raciocínio, Sanstone contornou a mesa. Num movimento brusco que o deixou paralisado, ela sentou no colo dele e envolveu seu pescoço num abraço apertado. O rosto de Alexandre ficou igual um pimentão.
— Pare de ser estúpido Alexandre — sussurrou ela perto de seu ouvido, a voz misturando raiva e um carinho reprimido. — Você é mais inteligente do que isso ou você realmente está querendo brincar com os sentimentos de todos neste quartel?
Ele tentou processar o que estava acontecendo, retribuindo o abraço timidamente enquanto ela continuava:
— Tem muitas pessoas aqui que se preocupam com você. E se continuar com essas besteiras suicidas quem vai comandá-los?
Quando Alexandre abriu a boca para responder, Sanstone apertou o abraço com tanta força que ele ficou sem ar, debatendo-se de forma cômica enquanto ela sussurrava a ameaça final:
— Se você fizer isso mais uma vez, eu quebro a sua coluna e quem vai para o torneio sozinha sou eu. Fui clara?
Alexandre bateu freneticamente nas costas dela, derrubando os papéis como quem pede arrego em uma luta. Ela diminuiu a força e levantou-se, alisando a farda.
— Ufa… pensei que ia morrer agora mesmo — ofegou ele, massageando o pescoço. — Obrigado pelo apoio, Sans.
Sanstone virou de costas, cruzando os braços novamente para esconder o próprio rosto corado.
— Não por isso. Só peço que na próxima vez que formos conversar tão perto, você não fique com a espada fora da bainha.
O cérebro de Alexandre demorou um segundo para processar o duplo sentido. Quando a ficha caiu, ele ficou corado novamente.
— V-Você percebeu…?!
— Eu não uso armadura pesada aqui embaixo Comandante. Devo anotar essa sua falta de disciplina… — rebateu ela, ainda de costas.
Enquanto Alexandre e Sanstone se afundavam em um abismo de vergonha na sala de comando, o pátio de treinamento contava com uma dinâmica bem diferente. Laura e Marcos se aqueciam fazendo alongamentos.
— Estou preocupada com aqueles dois. Eles estão lá dentro há um bom tempo — comentou Laura, esticando as pernas.
— Relaxa, Laura. Provavelmente estão só descansando. O Alexandre anda muito tenso.
Laura parou o movimento, os olhos brilhando com uma suspeita maliciosa.
— Será que é o que eu tô pensando? Não pode ser…
— Ah, pode sim.
— Mas como a Sans consegue ser tão silenciosa? — perguntou ela, chocada.
— Pergunta pra ela depois sobre essa mágica. O Alexandre também tá sendo bem silencioso. Vou perguntar como foi, deve ter sido doloroso…
— Verdade… acho que é melhor não perguntarmos, ele sofreria muito de vergonha.
Laura balançou a cabeça, afastando a fofoca, e mudou o tom para algo mais sério.
— Marcos, acho que precisamos treinar mais. Melhorar nossas habilidades reais.
— Por quê? — perguntou ele, fazendo flexões.
— Porque eu fui derrotada facilmente pelo Leônidas.
— Tá, e daí? Você é fraca fisicamente mesmo.
A resposta sincera rendeu a Marcos um tapa estalado no rosto. Ele parou o exercício e colocou a mão no local, choramingando de forma cômica.
— O que eu fiz para merecer isso?!
— Tudo! — cravou Laura emburrada.
Ela suspirou, recompondo a postura de Sargenta.
— Sem brincadeiras. Precisamos nos tornar melhores que o inimigo. Não podemos deixar a Sans e o Comandante tomarem todas as decisões e levarem todo o peso por nós.
Marcos cruzou os braços, fechando os olhos num esforço raro de reflexão.
— Hmm. Então o que acha de fazermos um treinamento invertido?
— Invertido?
— Isso. Eu e você vamos treinar partindo de posições totalmente desfavoráveis para nós dois.
Laura fez uma careta desapontada.
— Mas, Marcos, não seria melhor fortalecer nossos pontos fortes para nos tornarmos imbatíveis neles ou uma batalha de treino?
— Isso também serve! — concordou ele, com o entusiasmo de um cachorrinho.
Laura levou a mão ao rosto, suspirando pesado. Caminhou até o centro da arena de terra.
— Vamos logo com isso. Só não pegue leve comi-
Ela nem terminou a frase. Marcos jogou sua pesada lança direto contra ela. Laura esquivou por reflexo, arregalando os olhos enquanto Marcos já corria em sua direção com o punho armado. Ela saltou para trás no último segundo. Marcos pegou a lança que havia cravado no chão e girou a arma com destreza.
— E quem disse que eu pegaria leve com você só por ser mulher? — provocou sorrindo.
Laura sorriu de volta. Seus dedos deslizaram para a cintura, sacando o chicote de ferro com um estalo metálico.
— Como eu gosto do seu estilo violento.
— Vamos dançar! — disseram os dois em uníssono.
Marcos avançou usando a investida clássica com a lança, um ataque frontal e brutalmente óbvio. Vendo a trajetória, Laura ergueu o chicote e curvou o corpo para a lateral.
— Uma técnica diferente? Marcos, por favor, usar a mesma tática do exame da Academia é palhaçada!
Num movimento fluido, ela chicoteou a arma, enrolando o ferro no cabo da lança. Com um puxão preciso, desestabilizou o apoio de Marcos, forçando a ponta da lança contra o chão. A própria inércia o catapultou para a frente, direto na direção de Laura. No ar, ele preparou um soco, mas Laura apenas se agachou. Marcos passou por cima dela, rolou no chão com agilidade e já se colocou de pé, intacto.
— Bons reflexos, garota — elogiou ele.
— Obrigada. Mas fim de jogo pra você.
Mantendo-se abaixada, Laura lançou uma chicotada rasteira direto no rosto dele. Marcos agiu por instinto: levantou as mãos nuas e permitiu que o chicote se enrolasse em seus braços antes de atingir a cara.
— Nossa, e depois fala de mim usando a tática mais óbvia de todas — riu ele, puxando o chicote para trazê-la para perto.
Mas Laura continuou estática. Ela não resistiu ao puxão, nem foi arrastada. Marcos tentou colocar mais força, mas seus músculos simplesmente não responderam. O sorriso dele sumiu. Ele ficou pálido e desabou de joelhos na terra.
— D-Droga… você vai usar esse truque sujo contra mim…? — Marcos com a visão turvando.
— Claro.
Ela deu um puxão leve no chicote, e Marcos, sem força nos dedos, soltou a arma. O metal caiu no chão.
— Pensei que você me daria mais desafio.
— Usar veneno não é justo… — resmungou ele, a língua começando a adormecer.
Laura caminhou até ele, a voz ganhando um tom de superioridade afetuosa.
— Vale tudo no amor e na guerra. Meu pai me ensinou isso, e você, como Capitão, deveria saber melhor do que eu. Só não usei veneno no nosso exame porque era proibido pelas regras. Caso contrário, eu seria a Capitã agora. Mas sabe? Não me arrependo.
Ela se abaixou, segurando o queixo de Marcos e sussurrando perto do ouvido dele, com um sorriso doce:
— Não me arrependo nem um pouco de ter conhecido você. Muito menos ter perdido naquele dia, meu amor…
Com um empurrãozinho leve, ela o jogou de costas no chão. O veneno paralisante fez efeito total, apagando Marcos.
As Valquírias ao redor bateram palmas e assobiaram, maravilhadas com a vitória tática feminina. Os Juggernauts, por outro lado, balançaram a cabeça, suspirando pela ingenuidade do Capitão, mas também aplaudiram de forma contida.
Laura guardou o chicote na cintura, sacudiu a poeira das mãos e falou para a plateia:
— Teria algum cavalheiro disponível para levar o Capitão de volta para a enfermaria?
Antes que qualquer soldado pudesse se mover, duas sombras se projetaram na entrada do pátio. Alexandre e Sanstone haviam acabado de virar o corredor. Eles olharam para o corpo de Marcos no chão e depois para Laura, que congelou com um sorriso culpado.
As duas vozes ecoaram pelo pátio com fúria militar:
— LAURA!
Após uma bronca colossal — que pouparemos de detalhes verbais —, Laura encontrava-se sentada no chão na clássica posição de seiza e cabeça baixa, pedindo perdão aos superiores.
Alexandre massageou as têmporas.
— Olha, vamos encerrar essa bronca por aqui porque temos um assunto muito mais sério para tratar.
Sanstone, com os braços cruzados e a face tempestuosa, concordou:
— De fato. Temos um inimigo muito maior para combater do que a falta de noção da Sargenta.
Laura ergueu a cabeça, a curiosidade vencendo a culpa.
— Como assim, Sans?
O tom grave dos oficiais fez os soldados próximos prenderem a respiração. Alexandre assumiu a palavra, projetando a voz.
— Fomos desafiados a lutar contra um outro reino.
Murmúrios aterrorizados correram pelas fileiras.
— Mas, senhor… o que significa isso? É uma declaração de guerra?! — perguntou um recruta, trêmulo.
Até Laura empalideceu. Porém, Alexandre ergueu a mão, exigindo silêncio.
— Não. É um duelo no Coliseu. Se vencermos, garantimos a paz. Mas se perdermos, estaremos a um passo de uma guerra em escala total. E o pior: o motivo para isso estar acontecendo não veio do inimigo, mas do nosso próprio lado.
Sanstone olhou para o lado, estalando a língua num misto de raiva e ciúmes mal disfarçado.
— A Primeira-Ministra, para ser mais específica.
Laura notou o olhar da amiga e teve que cobrir a boca com as duas mãos para não rir alto. A tensão desapareceu quando Marcos contrariando toda a lógica médica sentou-se no chão. Ele esticou os braços, bocejou e se levantou, espantando os recrutas, Laura e Alexandre.
— Cara, aquele veneno é fortinho, hein! O que eu perdi? Tá todo mundo com cara de velório.
Sanstone fuzilou Marcos com os olhos, depois voltou sua atenção para a Sargenta, que engoliu o riso na hora.
— Laura. Mais tarde quero conversar com você na minha sala. A sós.
Laura ficou pálida novamente. Marcos piscou, confuso com a dinâmica, até que Alexandre explicou a situação do torneio mais uma vez. O Capitão bateu o punho na palma da mão, os olhos brilhando.
— Nossa! Então vamos ter um torneio até a morte contra outros cinco? Que legal!
Alexandre balançou a cabeça, desistindo de tentar colocar juízo.
— Escutem bem. Precisamos formular estratégias impecáveis. Este torneio é um combate mortal e exige preparação absoluta. Todos os oficiais, venham comigo. O restante da tropa, voltem para as suas posições e mantenham uma vigia perfeita. Teremos convidados muito especiais em breve, então precisamos mostrar o nosso valor e organização.
Os soldados bateram continência com energia renovada marcharam para seus postos. O quarteto caminhou pelos corredores até chegar a uma bifurcação.
— Onde as duas belas damas vão? — perguntou Alexandre, notando que as garotas tomariam outro caminho.
Sanstone parou e virou-se, sempre de braços cruzados.
— Eu preciso de um descanso mental. Vou conversar com a Laura na minha sala. Seria uma ótima ideia você aproveitar o tempo para fortalecer os laços e o treinamento tático com seu guarda-costas também.
Sem esperar resposta, ela virou as costas e fez um aceno de despedida por cima do ombro.
Alexandre e Marcos se entreolharam. O pensamento fluiu de forma perfeitamente sincronizada na mente de ambos:
Mulheres.
Quando Laura cruzou a porta da sala da Vice-Comandante, arregalou os olhos. Embora a estrutura fosse a mesma do escritório de Alexandre, o local era infinitamente mais luxuoso. Móveis de madeira nobre, estofados de veludo e até um suporte polido para a armadura decoravam o ambiente.
— Pelo jeito, meu pai entregou algumas coisas aqui — comentou Sanstone, fechando a porta.
— Mas como ele passou com toda essa mobília sem ninguém ver? Estamos em um quartel subterrâneo! — espantou-se Laura.
— O Clã Stone tem seus métodos. É exatamente por isso que precisamos ficar mais fortes e atentos.
Laura acomodou-se em uma poltrona macia, enquanto Sanstone tomava o assento imponente atrás da mesa.
— Bem, Laura. A primeira coisa que quero deixar clara: você está terminantemente proibida de ter qualquer relação afetuosa com Marcos durante o período de preparação para o torneio.
Laura deu um pulo na poltrona.
— M-Mas a gente pode faze-
— Não me interrompa, senão esse seu sorriso vai virar um buraco. Fui clara? — cortou Sanstone, a voz perigosamente baixa.
— Sim, senhora… — murmurou Laura, acuada.
— Não estou fazendo isso porque você aprontou no pátio. Estou fazendo isso porque teremos uma presença extremamente complicada caminhando por este castelo, além dos nossos convidados.
A Sargenta deixou a tristeza de lado, a mente analítica assumindo o controle.
— Espera. Uma presença?
Sanstone assentiu, o olhar sombrio.
— O Comandante me relatou algo intrigante. Quando os nossos soldados revistaram o líder dos bandidos morto, notaram que ele não tinha calos de atirador, mas empunhava uma besta. E mais: a arma estava banhada em veneno. Recrutas ou ladrões de rua comuns teriam acesso a toxinas arcanas e táticas de cerco daquelas?
Laura arregalou os olhos, lembrando-se do sangue que havia purificado na enfermaria.
— Era veneno de cobra!
— Exatamente — confirmou Sanstone, cruzando as pernas elegantemente. — E adivinha? Após a morte daquele "líder" dos bandidos, as rebeliões das Valquírias não apenas diminuíram, como o crime na cidade inteira despencou magicamente.
— Então… quem era o homem por trás da máscara?
— Era uma serpente. Um fantoche em forma de besta. E essa serpente não foi morta por nenhum dos nossos soldados na invasão.
O quebra-cabeça se montou na cabeça de Laura.
— Espera, quer dizer que…
— Sim, Laura. Eu e o Alexandre temos certeza absoluta de que existe um espião de alto nível infiltrado no exército. E se ele consegue se disfarçar e manipular eventos com tamanha perfeição, é muito mais perigoso do que qualquer ladrão. Um erro nosso e isso escalona para uma guerra civil.
Laura levantou-se num salto, alarmada, mas Sanstone fez um gesto autoritário com a mão.
— Sente-se, Sargenta!
Laura obedeceu na hora, murmurando um pedido de desculpas.
— O motivo pelo qual eu e Alexandre nos separamos daquela forma no corredor é tático — explicou Sanstone em voz baixa. — O espião não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. E, logicamente, ele vai preferir seguir os passos do Comandante Supremo, que possui muito mais informações vitais do que eu. Por isso, quero confiar a você os resultados da investigação secreta que o Alexandre fez.
— O Comandante fez uma investigação sozinho?!
Para responder, Sanstone levou a mão ao peitoral de sua roupa. Ela abriu levemente a fresta do decote de metal, o que fez o rosto de Laura pegar fogo de vergonha. Com naturalidade, Sanstone puxou dois papéis dobrados dali de dentro e fechou a roupa. Um sorriso de canto surgiu em seus lábios.
— Laura, você precisa parar de pensar besteiras. Enfim, o Comandante me repassou esses documentos de forma furtiva.
— Furtiva? Como?!
Sanstone desviou o olhar, as bochechas ganhando um tom rosado.
— Segredo de estado. Mas foi hoje e bem discreto.
Laura piscou, processando a informação do "segredo de estado", mas decidiu focar na missão.
— E do que se trata a investigação?
— Eu ainda não sei. Ele não me disse o conteúdo, apenas me entregou.
Sanstone desdobrou o papel. Era uma das folhas do relatório de armazém que Alexandre fora obrigado a preencher, mas o verso continha uma caligrafia apressada. Ela começou a ler em voz alta:
"Em minhas investigações, após terminar a enorme papelada da qual fui encarregado, saí disfarçado da minha sala vestindo uma armadura de soldado comum, que escondi secretamente debaixo da mesa. Ironicamente, ninguém nunca olha para lá."
As duas trocaram um olhar cômico, reconhecendo a genialidade simples do truque. Sanstone continuou:
"Fingi ser um recruta de patrulha e me juntei a uma garota do esquadrão. Ela passou o tempo todo conversando comigo, o que foi um disfarce perfeito. Foi então que avistei a Laura sendo sequestrada. Consegui pegá-la antes que caísse no chão. A Valquíria que me acompanhava tentou ajudar sacando a arma lutando contra alguns homens, mas os bandidos não pareciam a fim de lutar. Quando nos cercaram, exigiram que eu entregasse a Laura em troca de poupar nossas vidas. Para manter meu disfarce e rastreá-los, eu entreguei a Laura. Minha companheira de patrulha me xingou de todos os nomes possíveis por isso."
Sanstone interrompeu a leitura, impressionada.
— Como ele conseguiu desaparecer da vista dela tão fácil depois? Eu sei que tinha um soldado junto daquela garota o tempo todo e não percebi que era ele!
Ela pegou a segunda folha e retomou a leitura, mas o tom foi ficando mais sombrio a cada linha:
"Os bandidos foram embora com a Laura. Eu avisei a vocês sobre o ocorrido como um soldado faria e depois voltei a segui-los furtivamente sem nenhum de vocês se importarem. Vi quando os encapuzados entraram nas docas e embarcaram em um navio rumo ao oceano. Enquanto algumas Valquírias rebeldes pegavam as roupas que eles deixaram para trás, percebi que os encapuzados originais tinham feições estranhas, semelhantes a animais. E liderando tudo isso, dando ordens às Valquírias, havia um homem forte e enorme."
A voz de Sanstone falhou. Ela parou de ler e apertou a borda do papel com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Pai… — sussurrou para si mesma. — Por quê? Você… não faria isso… Já não basta os abusos contra a minha mãe, agora vai me dizer que é um traidor da nação que você tanto defendeu?
Laura olhou para a amiga, o coração apertado pela dor evidente na voz dela. Sanstone respirou fundo, controlando o tremor nas mãos, e leu o parágrafo final:
"Eu não tenho dúvidas de que era o líder do Clã Stone. Já o vi o suficiente para reconhecer sua presença. Só não sabia como te dizer isso pessoalmente, Sans. Mas quero que saiba de algo: ele não exalava uma aura humana. Quando olhei para ele, foi como ver um monstro vestindo a pele de um homem. Além disso, ele conversava nas sombras com outra pessoa que não consegui identificar. Tome cuidado. Abraços, Alexandre."
Assim que terminou, Sanstone esmagou o papel na mão e rasgou-o ao meio, deixando os pedaços caírem no tapete luxuoso.
Laura, com o rosto banhado em preocupação, tentou confortá-la.
— Sans… tá tudo bem chorar. Não precisa se reprimir na minha frente.
Os olhos vermelhos de Sanstone brilharam com um ódio glacial. Sua voz saiu fria como inverno.
— Eu não vou chorar, Laura. Na verdade, isso é apenas mais um motivo para este homem morrer. Antes, eu queria apenas derrotá-lo em um duelo para libertar minha mãe. Mas agora… tenho um excelente motivo para assinar a ordem de execução dele.
Laura a observava com atenção. Sabia que, por trás daquela fachada nebulosa de sede de sangue, o coração de sua superiora estava em pedaços. Decidida a não deixar a amiga afundar na escuridão, Laura resolveu usar uma tatica.
Imitando a pose heróica e o tom bobo de Marcos, ela bateu no peito e sorriu grande:
— Entendido, General! E se precisar de qualquer coisa para retalhar esse traidor, saiba que sua parceira e amiga favorita está bem aqui pra isso!
O esforço desajeitado funcionou lembrando um certo alguem Sanstone piscou, surpresa, e um sorriso genuíno quebrou o gelo de seu rosto por um breve instante. Logo, a expressão tática e inabalável retornou, mas o ar da sala estava visivelmente menos sufocante.
— Agradeço, Laura.
Ela se recostou na cadeira, entrelaçando os dedos sobre a mesa.
— Bem, para encerrar os preparativos de hoje. O convidado de honra que teremos caminhando por este castelo e assistindo à nossa batalha no coliseu… será o próprio Lorde do Submundo. O Rei Demônio Salocin.