
Jacó ainda processava, incrédulo, as palavras que acabara de ouvir. Leonardo virou as costas e caminhou em direção à saída, lançando uma última ordem por cima do ombro:
— Bem, você está perdoado por poupar aquele verme no coliseu. Agradeça a seus irmãos por terem morrido, senão eu teria punido você. Delegue alguém para o cargo de Vice-Comandante. Você não pode fazer tudo sozinho.
A pesada porta de ferro se fechou com um estrondo, deixando Jacó envolto no silêncio do calabouço. O crocodilo levantou-se devagar, sacudindo a poeira das escamas. Logo, a porta se abriu novamente. O garoto lobo e Jade entram apressados.
O pequeno lobo correu e abraçou a cintura de Jacó.
— Você está bem, senhor? Está machucado?
Jade, com as orelhas levemente baixas, comentou com pesar:
— Eu acho que ele pegou pesado com você.
Jacó apenas suspirou, recolhendo sua camisa jogada no chão.
— Não importa. Já me acostumei com esse tipo de tratamento. Ele é o retrato cuspido do pai. Mas essa informação nova me faz querer conversar com o Alexandre novamente... Falando nisso, Jade, encontrou algo durante sua última varredura no QG inimigo?
A camaleoa endireitou a postura, animando-se.
— S-sim! Encontrei algo interessante que talvez o senhor vá gostar.
Ela puxou debaixo do manto um caderno de capa grossa e ornamentada.
— Eu resolvi dar uma olhada nos aposentos da Vice-Comandante deles. Parece que esse é o diário dela.
Jacó pegou o livro, pesando-o na mão.
— A diferença de peso para o caderno do Comandante é bem...
— Gritante — completou o garotinho lobo.
Antes de abrir o fecho do diário, Jacó afagou a cabeça do garoto.
— Garoto, volte para o seu posto lá fora. Quero falar com a nova Vice-Comandante em particular.
Jade piscou, confusa, apontando para si mesma.
— Vice? Eu?
— Conor morreu — explicou Jacó, a voz isenta de emoção. — Eu não posso delegar tudo sozinho. Você vai ficar com a burocracia do exército e as papeladas. Vai me ajudar bastante.
O rosto de Jade murchou numa careta de puro cansaço.
— Queee?! Está jogando o trabalho chato pra mim, mano? Isso é maldade!
O garoto lobo saiu e fechou a porta, deixando os dois a sós. Jacó cruzou os braços, oferecendo um acordo impossível.
— Se quiser, podemos trocar. Eu fico com a burocracia e você enfrenta a linha de frente. Qual prefere?
Ela abaixou a cabeça.
— Assim você joga sujo. Não tem como eu recusar ficar aqui, então... Mano, você vai ficar bem?
— Sim, eu vou. Agora, algo que está me intrigando é este diário.
— Por quê? O que tem de errado com ele? — indagou ela.
— Informações demais — cravou Jacó, os olhos amarelos faiscando com dedução. — Aquele Comandante é muito mais esperto do que aparenta. Ele está tentando me enganar, fingindo que é um tolo ingênuo e que nós somos superiores. O que ele fez no coliseu, com poucos recursos, já me deu essa pista.
Jade balançou as mãos, tentando se defender.
— Mas, mano, eu entrei sorrateiramente! A única que me viu foi aquela sargentinha, e ela até levou bronca depois!
Jacó interrompeu, a voz assumindo um tom perigoso.
— Sabe o que eu acredito que aconteceu naquele reino? Fomos feitos de palhaços.
Jade ficou pasma. Jacó começou a andar ao redor de Jade.
— Eu fui um tolo em não ter visto isso antes. Meu foco estava tão fixo em verificar a força do inimigo que deixei passar esse detalhe do excesso de informações. Eu me diverti muito e baixei a guarda.
Ele abriu o diário de Sanstone aleatoriamente e leu um trecho em voz alta:
— "Estou apaixonada pelo Comandante Alexandre, ele é um idiota às vezes tentando mandar em mim, enquanto isso meu pai sempre tenta me colocar na linha e isso acaba ofuscando minha vida, isso é um saco."
Jacó soltou o livro, deixando-o cair no chão.
— Queime isso. É uma perda de tempo. Até parece que oficiais daquele calibre teriam relacionamentos conjugais bobos registrados assim. Eu vi naqueles dois uma determinação férrea, além de serem extremos opostos no campo de batalha.
Jade agachou-se para pegar o caderno, ainda tentando justificar sua missão.
— Mas, mano, eu entrei escondida. A sargentinha correu atrás de mim com vontade de matar! Eu tive que levá-la até os telhados para você me dar cobertura!
Jacó parou perto da porta e olhou por cima do ombro.
— E se a sargentinha não sabia?
A camaleoa congelou, incrédula.
— Como assim? Se um oficial de alto escalão não sabia, isso só pode ser...
— Uma armadilha — completou Jacó. — É um ditado antigo, inclusive: "Quanto menos souberem, menos a informação vaza". Você, como especialista em espionagem, devia saber disso tanto quanto eu, Jade.
Assustada, ela abaixou a cabeça, pronta para pedir perdão, mas Jacó suspirou, suavizando o olhar.
— Relaxa. Não estou aqui para ser a mãe, mana. Todos erram às vezes. Só espero coisas melhores de você daqui para frente.
Jacó saiu da sala. Jade observou a porta se fechar, apertando o diário contra o peito.
"O mano é legal demais. Ele tem razão, eu preciso melhorar."
Naquela mesma noite, no Império dos Humanos, Alexandre aguardava nos corredores escuros e isolados do Coliseu. Ele e Las Platas haviam combinado o acerto de contas lá.
Enquanto ele observava as sombras, uma silhueta materializou-se no ar. Valentina surgiu, desfazendo sua invisibilidade, caindo de pé graciosamente.
— Você demorou, hein? Pensei que ia me dar bolo — brincou Alexandre.
— Claro que não — rebateu ela, erguendo o queixo. — Eu nunca recuaria de um duelo. Além do mais, o resultado já está decidido.
Ela apontou sua longa espada diretamente para ele, assumindo uma base segura. Alexandre apenas sorriu.
— O que é tão engraçado? Está me subestimando? — indagou Valentina, franzindo o cenho.
Alexandre parou de rir e, com uma velocidade que os olhos dela mal puderam acompanhar, sacou sua espada curta.
— Não. Na verdade, quem está subestimando o oponente é você.
A expressão de surpresa de Las Platas rapidamente se transformou em irritação.
— Não vem com essa, seu plebeu!
Ela avançou como um raio.
"Que rápida!" pensou Alexandre, esquivando-se por um triz.
Valentina recuperou o balanço da espada longa num piscar de olhos e desferiu outro corte. Alexandre ergueu a lâmina para defender.
"Imaginei que ela não teria problemas de manuseio com a arma, mas essa espada longa ainda é mais lenta que o próprio corpo dela.”
Quando as lâminas travaram, Las Platas aproveitou a proximidade e desferiu um chute forte na perna de Alexandre. Ele grunhiu de dor, mas usou o mesmo pé atingido para retribuir com um chute certeiro na canela dela. Ambos recuaram, massageando os locais dos impactos com sorrisos de canto.
— Bom, você realmente é um guerreiro digno — elogiou ela.
Alexandre voltou a circular, mantendo a guarda alta.
— Você também. Sua força e velocidade são impecáveis.
— Agradeço o elogio!
Ela avançou novamente com fúria. Quando desceu a espada longa num arco mortal, Alexandre plantou os pés no chão e gritou colocando a mão na frente:
— Te peguei! Aparar!
A magia irrompeu da lâmina de Alexandre, rebatendo o golpe de Las Platas com tanta força que abriu completamente a guarda dela, cegando-a momentaneamente com o clarão de energia. Ele avançou, preparando-se para colocar a lâmina no pescoço dela e encerrar a luta.
Porém, Valentina fingiu perder o equilíbrio. Ao cair para trás, apoiou as mãos na terra e usou as pernas como uma mola. Com um chute acrobático, ela desarmou Alexandre, jogando a espada dele para longe e, de brinde, acertou o queixo do Comandante com a ponta do salto de aço, lançando-o para trás.
Ela recuperou a visão e a postura, sorrindo vitoriosa, enquanto Alexandre pegava sua espada do chão e esfregava o queixo dolorido.
— Belo truque — provocou ela. — Não sabia que conseguia usar feitiços. Me disseram que você não tinha magia.
— Essa doeu. Você sabe mesmo como chutar — resmungou ele, voltando à base.
Las Platas deslizou a mão pela lâmina de sua espada, fechando os olhos.
— Pelos meus ancestrais, eu—
Antes que ela pudesse terminar o feitiço de fortalecimento, Alexandre disparou, forçando-a a interromper a conjuração para cruzar espadas com a rapieira dele.
— Nananinanão. Eu sei muito bem o que acontece quando você faz isso.
— Então você tem medo da minha transformação? Que interessante, isso só prova o quanto sou superior a você.
Com as lâminas ainda travadas, ela tentou outro chute. Alexandre esquivou e aproveitou a distração para deslizar sua lâmina, mirando a mão que ela usava para segurar a arma.
Surpreendentemente, Las Platas soltou a espada no ar, pegou-a com a mão esquerda e girou o corpo para atacar pelo flanco. Vendo o erro iminente, Alexandre fez uma manobra defensiva fluida para não expor fraqueza. Ela recuou com um salto para trás.
— Você é bom, Alexandre — admitiu ela. — Mas eu treinei muito em batalhas reais e conheço muito bem esse truque.
Ela trocou a arma de volta para a mão direita. Ambos se focaram ao máximo. Las Platas murmurou o final de seu feitiço, a lâmina brilhando, e avançou para o ataque decisivo. Alexandre firmou a postura. Ele posicionou a espada curta à frente, segurando o meio da própria lâmina com a mão livre, concentrando.
Quando a guerreira atacou, Alexandre percebeu a movimentação dos lábios dela e antecipou o impacto.
— Aparar!
O impacto foi poderoso. A energia transferida por Alexandre tornou sua espada uma parede de aparar. O choque repeliu a arma de Las Platas, deixando-a totalmente vulnerável. Desta vez, sem acrobacias para salvá-la, ela congelou ao sentir o aço frio da rapieira de Alexandre repousar suavemente em seu pescoço.
— Você acreditou tão fielmente que eu não sabia usar feitiços, que achou que eu ficaria apenas com truques — disse Alexandre, ofegante. — Estava quase certa.
Valentina processou o que acabara de acontecer. Ele havia transferido a energia para a lâmina, tornando-a "inaparável" e desarmando quem a tocasse com força excessiva. Ela suspirou, guardando a própria espada na bainha com um clique resignado.
— Trato é trato. Você é o vencedor... Mestre.
Ouvir aquela palavra sair dos lábios dela fez Alexandre ficar vermelho como um tomate. Ele embainhou a espada rapidamente, pigarreando.
— N-não precisa me chamar assim…
Las Platas cruzou os braços, assumindo uma expressão séria.
— Na minha família isso é normal. Além disso, como combinamos, eu virei sua subordinada. Então, acostume-se com isso.
Alexandre notou o sorriso irônico e quase imperceptível brotando no canto da boca dela.
— Você está fazendo isso apenas pra mexer comigo, né?
— Por que eu faria isso? — respondeu ela com inocência cínica.
Percebendo que ela era uma péssima perdedora, mas incrivelmente provocadora, ele decidiu ir direto ao ponto.
— Bem, parando com as gracinhas. Eu quero te ajudar também. Então, se precisar de algo, é só me falar.
Ela franziu o cenho, confusa.
— Ué, pensei que você só ia me usar. Eu sou a perdedora, faço o que você pedir. Além disso, sua aposta foi mais alta que a minha...
— Como eu disse, Valentina — interrompeu ele, a voz ganhando a gravidade de um líder —, meu compromisso é com o povo e nada mais. Quero apenas ajudar a consertar esse império.
Valentina começou a perceber que aquele garoto era diferente de tudo que já conhecera. Mas, para não tirar conclusões precipitadas, ela curvou-se levemente, o tom sarcástico retornando.
— Sei. Então, quais são suas ordens... M-e-s-t-r-e?
O rosto dele queimou de novo.
— Quero que você me conte o que aconteceu na família Stone. Tudo!
Las Platas olhou para os lados, verificando o perímetro, e puxou Alexandre pelo braço até a antiga sala de preparação do coliseu — ironicamente, o mesmo lugar onde ele e Sanstone haviam esperado durante os exames. Ela trancou a pesada porta de madeira.
— Acho que aqui estamos mais seguros. Bem, pegue uma cadeira, porque essa história é longa.
Os dois se sentaram, o som da respiração ecoando na sala vazia. Ela começou:
— Tudo começou quando os Stones eram uma família só. O Imperador fundou nosso clã junto com os Longinus e os Poisons. Esses foram os três principais pilares criados para proteger o império. Teve também os Divinos, mas eles são outra história.
— Divinos? Está falando da Guarda Real? — indagou ele.
— Sim. Eles são os guarda-costas pessoais do Imperador, o que hoje vocês chamam de Guarda Real. Apesar de não serem numerosos, já vi um único Divino lutar por vinte homens. Além disso, conseguem usar magias complexas e manusear qualquer arma, desde lanças e arcos até espadas pesadas.
— Eu fiquei sabendo da força deles, só não sabia dessa maestria total em armamentos. Eles são tão bons assim?
— O próprio Imperador os treinou pessoalmente. O armamento deles é um segredo guardado a sete chaves, não é o tipo de coisa que você lê em livros de história de ninar.
Acredito que o Imperador não os treina mais, mas reza a lenda que a lealdade deles é tão poderosa que conseguem ser possuídos pelo próprio. Até hoje são os únicos que montam guarda na torre, embora nenhum jamais chegue a ver o rosto do Imperador.
— Entendo. Mas estamos desviando do assunto. Fale sobre os Stones.
— Ah, sim. Desculpe minha empolgação... M-e-s-t-r-e.
Ele esfregou a testa, percebendo que ela estava adorando deixá-lo corado. Deu certo. Ela retomou o monólogo:
— Enfim, como éramos um dos três clãs, as funções foram divididas. Os Stones ficaram com a Proteção, os Longinus com a Investida e os Poisons com a Inteligência. Trabalhávamos juntos e vencíamos incontáveis batalhas. Porém, numa certa época, um humano encapuzado começou a difamar o rei, espalhando que ele enviava os plebeus para o abatedouro. Isso gerou as famosas 'Rebeliões'. Para lidar com esses rebeldes sem manchar a imagem dos heróis, o Imperador e o senhor Stone dividiram a família. Criaram o Clã Las Platas. E assim, nós nos tornamos os carrascos oficiais do império.
Alexandre apertou os punhos.
— Que coisa horrível. Precisavam de um bode expiatório para manter a imagem limpa. E onde a Sanstone entra nisso?
— A Sanstone era como uma princesa enjaulada. Sendo a filha única do grande General Stone, o 'herói de guerra', ela recebia os maiores cuidados e regalias. O 'problema' é que a Sans era uma garota incrivelmente boa e feliz.
— Feliz? Ela sorria? — Alexandre não conseguiu esconder o choque.
— Claro! Eu vivia brincando na casa dela. Uma das minhas tarefas era diverti-la e protegê-la. A Sans sempre me vencia nas lutinhas que fazíamos. Como eu não tinha chance contra aquela força avassaladora dela, foquei em velocidade e técnica ofensiva. Enfim, nossas vidas eram boas, até que chegou o dia.
O rosto de Valentina escureceu, a dor transbordando em seus olhos.
— O que aconteceu? Se for muito pesado pra você, não precisa...
— Não. Eu preciso superar isso, mas até hoje me consome — ela o cortou, respirando fundo. — Fui enviada para uma missão praticamente suicida. O Reino das Bestas havia lançado um ataque massivo contra uma localização crítica: a Ponte do Abismo. Fui informada por um mensageiro de que o exército principal estava a caminho e que meu clã precisava manter a posição a todo custo. Se perdêssemos aquela ponte, ficaríamos sem acesso aos minérios e rotas de comida.
Ela olhou para as próprias mãos trêmulas.
— Nós chegamos primeiro e nos preparamos. Mas, antes que a batalha começasse, eu fui desacordada por um dos meus parentes. Quando acordei, estava dentro de uma tenda. O combate tinha acabado. Meu clã inteiro havia sido massacrado... Só tinha um jacaré feito refém, e o Leônidas... ele simplesmente o perdoou e o deixou ir.
— Espere, um jacaré? Não vai me dizer que é…
— Sim. Jacó. Na época ele era mais novo, trabalhava como um soldado comum. Foi o único sobrevivente inimigo do massacre que o Leônidas liderou na ponte.
— Aquela foi uma das batalhas mais sangrentas da nossa história — murmurou Alexandre.
— E eu estava lá. Mas sabe qual foi a pior parte? — Uma lágrima solitária escorreu pelo rosto dela. — Além de ficar completamente sozinha no enterro da minha família, a Sans nem apareceu. Quando fui procurá-la na casa dela, fui tratada como lixo. Ela lutou contra mim lá dentro. Eu dei tudo de mim, mas ela não estava normal. A força dela estava absurda e ela não queria me ouvir. Seus olhos eram vazios. Depois de ser chutada de lá à força, eu fui embora. Peguei a espada que sobrou como herança e jurei que o Clã Las Platas viveria em mim.
— Hmm. Sua história é trágica, mas muito honrada — ponderou ele. — por que a Sans estaria daquele jeito? O que o pai dela fez para quebrá-la assim?
— Provavelmente um relacionamento abusivo? Violência psicológica? Eu não sei.
— Talvez... mas com qual finalidade? E onde a Rebelião entra nisso hoje?
Las Platas encostou as costas na cadeira, a voz assumindo um tom analítico.
— A Rebelião renasceu justamente porque o reino continua ditatorial e as pessoas estão fartas. Ela ganhou força após eu ter desertado e Lilith ter ascendido ao cargo de Primeira-Ministra, declarando o Clã Las Platas como extinto. É uma ironia cruel: o grupo contra quem lutamos a vida toda é o único que ainda lembra de nós.
Alexandre conectou os pontos rapidamente.
— Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda. Mas por que ninguém nunca me falou sobre os líderes atuais dessa rebelião?
— Porque quem está cuidando de suprimir essa informação é o próprio Leônidas. Não acha que ele tem andado muito suspeito o tempo todo?
A mente do Comandante se iluminou.
— Pelo jeito as peças do tabuleiro estão se encaixando. Por isso Leônidas estava nas docas! Eu nunca consegui investigar por lá corretamente porque sou muito requisitado pelo QG.
Las Platas abriu um sorriso irônico.
— É tão requisitado que teve até tempo para um duelo secreto comigo, sem ninguém vir atrás.
Alexandre fez uma careta.
— Isso é porque eu estou às escondidas aqui com você. Seu humor é bem sarcástico, Valentina.
— Não gostou? Poxa, essa sou eu.
Ambos riram, a tensão do ambiente finalmente se dissipando.
— Na verdade, você parece a união bizarra de dois indivíduos bem problemáticos que conheço. Mas você é divertida — admitiu ele.
— Você também. É o retrato oposto de um certo alguém — provocou ela.
Alexandre levantou-se, assumindo a liderança da operação.
— Valentina, quero que você vá às docas investigar. Não seja vista por ninguém. Acredito que pode haver uma prova cabal lá. Não entre em confronto e acima de tudo, evite a linha de visão da Primeira-Ministra. Como maga suprema, ela consegue ver o fluxo de mana da sua invisibilidade.
Valentina bateu continência, a brincadeira dando lugar ao respeito militar.
— Com prazer, Mestre.
Antes que ela pudesse conjurar o feitiço, Alexandre jogou um pequeno objeto metálico. Ela o pegou no ar.
— O que é isso?
— É a chave da minha casa. Entre lá para descansar e usar como base segura. Ninguém patrulha a área porque todos sabem que é minha residência, então não há risco de invasores. Só não acenda as luzes. Será nosso ponto de encontro.
— Obrigada.
Las Platas desapareceu nas sombras da sala.
Alexandre saiu do Coliseu e caminhou em direção ao QG. Enquanto andava pelas ruas silenciosas, percebeu o som de passos ritmados atrás de si. Um grupo de Valquírias o seguia de perto, as mãos descansando nos pomos das espadas.
— Comandante, a General nos ordenou que o levássemos para o QG — disse a líder do esquadrão, com voz dura.
— Isso mesmo. Trate de cooperar ou você será deposto por insubordinação — ameaçou outra.
Alexandre continuou caminhando, sem sequer olhar por cima do ombro.
— Eu já estou indo para o QG. Então, apenas me escoltem até lá em silêncio.
— Não, você não entendeu. Não é um pedido— retrucou a Valquíria, apressando o passo.
Alexandre a interrompeu, a voz ecoando com autoridade.
— Não, é você que não entendeu. Eu ainda sou o Comandante Supremo deste exército. Sabem o que acontece com quem levanta a mão contra um oficial de alta patente?
A Valquíria, movida por uma lealdade cega, correu para agarrá-lo. Antes que pudesse tocá-lo, uma pesada lança cravou-se no chão de pedra, exatamente entre ela e Alexandre, parando seu avanço.
Alexandre continuou de costas, um sorriso aliviado surgindo.
— Está atrasado.
Marcos pulou do telhado mais próximo, aterrissando com uma pose heróica exagerada, levantando poeira.
— Desculpe, Comandante! Eu estava vendo até onde elas iriam com essa audácia.
As Valquírias recuaram, intimidadas pela presença do brutamontes.
— C-Capitão Marcos! O que faz aqui?!
— O que eu faço aqui? O meu trabalho, lógico! — Ele caminhou sem medo até a lança. A Valquíria claramente pensou em atacá-lo, mas a postura confiante do Capitão a fez hesitar.
Marcos puxou a arma do chão e a apoiou no ombro. — Boa escolha. Se você me atacasse agora, teria problemas bem maiores mais tarde. Agora me diga: quem mandou vocês fazerem essa palhaçada?
A Valquíria engoliu em seco.
— F-foi a Vice-Comandante. Ela pediu para trazê-lo por bem ou por mal...
Alexandre suspirou pesadamente.
— Ela está completamente descontrolada. Preciso impedir que essa loucura continue destruindo nossa equipe. Laura, sei que está aí. Me leve até a Vice-Comandante. Preciso ter uma conversa séria com ela.
Surgindo das trevas de um beco, Laura caminhou até a luz dos postes, estalando o chicote no chão com um sorriso letal.
— Com toda certeza, Comandante. Por favor, me acompanhe.
Escondida no alto de uma torre próxima, Las Platas assistia a toda a cena invisível.
"Ele de fato está se arriscando e me dando cobertura contra o próprio exército. Mas por que ele faria isso? Ele quer tanto acabar com esse sistema corrupto assim como eu? Ou está apenas cego de paixão pela Sans? Não, Valentina. Está na hora de focar na missão."
Ela saltou pelos telhados rumo à casa de Alexandre, na outra extremidade da cidade.
"Vou explorar a casa que ele me deu para ver se acho algo útil ou um disfarce de plebeia para não dar bandeira. Ficar andando invisível o tempo todo vai esgotar minha mana."
Chegando à residência humilde do Comandante, ela destrancou a porta e entrou, desfazendo a invisibilidade. O breu era absoluto. Valentina fez um símbolo de pinça com os dedos e murmurou:
— Visão.
Seus olhos brilharam levemente com energia arcana, permitindo que enxergasse no escuro com perfeição. Caminhando pela sala modesta, notou um pequeno retrato sobre a mesa. Era a família de Alexandre.
Ela tocou a moldura, um sorriso triste curvando seus lábios.
— Entendo... Nós somos bem mais parecidos do que eu imaginava, Mes... ou melhor, Alexandre.
Ela deixou o retrato no lugar e entrou no quarto dele. Imediatamente, algo chamou sua atenção tática: o armário estava levemente entreaberto e havia lençóis dispostos no chão em um padrão circular, indicando que haviam sido movidos propositalmente para cobrir as frestas de luz.
Ao abrir a porta do armário, Valentina riu baixo. Havia um caderno bem escondido sob uma tábua falsa.
— Você realmente pensou em tudo, hein? Já sabia que eu provavelmente viria pra cá e deixou a dica preparada.
Ao folhear o caderno, os olhos de Las Platas se arregalaram. Eram as anotações minuciosas de Alexandre sobre o dia em que ele havia seguido os falsos bandidos até as docas, contendo rotas de patrulha e os horários de encontro de Leônidas com o inimigo. O jogo estava apenas começando.