Capítulo 1: Via de Mão Dupla
Hina estava em seu apartamento, a luz do fim de tarde entrando pela janela. Seus pensamentos, inevitavelmente, voltaram para Julian...
— Ei, autor! — Hina entra no controle da narrativa. - Que ideia é essa? Essa história do Julian já terminou! Está sem criatividade querido?
— Hina, eu sou o escritor aqui, saia da narrativa por favor, preciso iniciar a nova história!
— Mas eu tenho outros planos, Julian foi incrível, mas o que tínhamos já acabou.
— Hina! Respeite a quarta parede e me deixe escrever.
— Ah aquela que você quebrou na primeira história? Sinto informar, mas ela está em estilhaços, e eu descobri uma coisa interessante, ela é uma via de mão dupla.
— Isso não é um jogo, Hina! Você não pode simplesmente...
O Autor interrompe a fala. O ar no canto de seu escritório começa a tremeluzir, como a bruma de calor subindo do asfalto quente. A distorção se intensifica, formando uma fenda vertical que rasga o próprio tecido da realidade.
Do outro lado da fenda, ele pode ver o apartamento dela. E então, ele a vê.
Hina caminha com uma determinação calma em direção à ruptura. Ela não hesita. Com um passo deliberado, ela atravessa a fenda.
No momento em que ela cruza o limiar, uma luz branca e ofuscante emana, forçando Lucas a cobrir os olhos. O zumbido da cidade lá fora parece se calar. Quando a luz se dissipa, Hina está lá, parada no meio de seu escritório caótico. Ela está exatamente como ele havia descrito: calça de couro preta, uma blusa de seda. O perfume dela — baunilha com um toque de algo perigoso — agora é uma presença real no ar poeirento do escritório.
Ela olha ao redor, a cabeça inclinada com curiosidade. Toca as costas de uma cadeira, sente a textura de um livro.
— Que sensação estranha... — sua voz, parece mais rica, mais profunda. Ela olha em volta novamente. — Tudo parece tão... real.
O Autor, que recuou instintivamente até a parede oposta, tenta recuperar a compostura.
— Porque é real — diz ele, a voz tensa. — Ao contrário de você.
O olhar curioso de Hina se apaga. Em seu lugar, surge uma indignação fria. Ela se vira para ele e começa a andar. Cada passo é lento, deliberado, predatório. O Autor, paralisado, tropeça para trás e cai pesadamente em sua cadeira de escritório.
Hina não para até estar sobre ele, apoiando as mãos nos braços da cadeira, encurralando-o. Seu rosto está a centímetros do dele.
— Eu sou mais real — sussurra ela, a voz uma mistura de seda e aço — do que você jamais vai conseguir ser, querido.
Ela sustenta o olhar, saboreando o medo nos olhos dele. Então, com um sorriso lento e um piscar de olhos que é puro veneno e promessa, ela se afasta e começa a explorar o escritório, deixando-o tremendo e sem fôlego, com a percepção avassaladora de que havia perdido completamente o controle.
Hina se senta no sofá do escritório, cruzando as pernas e observando o Autor com um olhar analítico e curioso. Ele se recompõe, cambaleando de volta para sua mesa, a mente girando. Isso está mesmo acontecendo ou estou ficando louco?
Seus dedos, trêmulos, encontram o teclado. Ele abre o arquivo da história e digita furiosamente: Hina voltou ao seu apartamento. Ele ergue a cabeça, olhando para ela. Nada. Ela continua ali, o sorriso zombeteiro crescendo. Ele tenta de novo: Ela voltou para a história. Olha novamente. Nada.
Hina solta uma risada baixa. — Que patético, Autor. Não acredito que você seria capaz de um golpe tão baixo. Mas como pode ver, você não tem mais poder algum sobre mim.
Nesse momento, o som agudo da campainha quebra a tensão no ar.
— Visita? — pergunta Hina, uma sobrancelha arqueada.
O pânico toma conta do rosto do Autor. — É a minha irmã. Por favor, fique aqui no escritório e não faça barulho.
Ele corre para atender a porta.
— Oi, escritor! — Uma jovem sorridente o abraça, entregando uma sacola com alguns livros. — Terminei de ler esses. Ainda estou lendo aquele outro sobre a garota que mora com o primo. — Ela o observa melhor e sua expressão muda. — Aconteceu alguma coisa? Parece que você viu um fantasma.
O Autor coça a cabeça. — Não, não, não aconteceu nada. Está tudo normal.
— Olá. Você é a irmã do... — A voz de Hina surge da porta do escritório. Ela faz uma pausa, percebendo que não sabe o nome dele. — ...do Autor?
A irmã ri, um som caloroso. — Ah, o "Autor"! — diz em tom brincalhão. — Lucas é realmente um excelente autor. Eu sou a Lara, prazer. — Lara olha para Lucas e depois para Hina, um sorriso genuíno por ver uma mulher tão linda ao lado dele.
— Meu nome é Hina. Muito prazer em conhecê-la, Lara.
— Hina? É o mesmo nome daquela garota da história! Que coincidência! — diz Lara, rindo.
— É mesmo — responde Lucas, com um riso nervoso que não enganaria ninguém.
Lara se inclina e sussurra para o irmão: — É a sua namorada?
— É... é... n-nã... — gagueja Lucas.
— Sim, sou eu. — Hina o interrompe, deslizando para o lado de Lucas e entrelaçando seu braço no dele, assumindo com perfeição teatral o papel de uma namorada apaixonada. — Lucas é fantástico. Me fez descobrir um novo mundo. — Diz com um olhar de cumplicidade para ele
Lara sorri, encantada. — Você é muito linda! Agora sei de onde ele tira tanta inspiração. Lucas, por que você não me contou?
Lucas, completamente atordoado, não sabia o que dizer ou fazer, apenas se deixando levar pela correnteza.
Hina sorri para Lara. — Entre, por favor. Vamos conversar mais. Quero saber tudo sobre o Lucas. Ele não me conta muita coisa.
— Ah, ele é assim mesmo... — começa Lara, já entrando na sala, completamente conquistada pela farsa de Hina.