Capítulo 4: A Musa e a Ferramenta
O som da porta se fechando atrás do editor ecoou na sala tensa. Lucas virou-se para Hina, os olhos arregalados, a mente tentando processar a cena que acabara de testemunhar.
— Hina... o que foi aquilo? — Sua voz era um misto de gratidão e puro espanto. — Por que você fez isso?
Hina, que já havia voltado para a cozinha para pegar um copo d'água, deu de ombros com uma calma desconcertante. — Eu só fiz o que precisava ser feito. Ele estava te pressionando, e você não pode criar sob pressão. Simples.
Ela não mencionou o sentimento possessivo, a fúria que sentiu ao ouvir alguém ameaçar o seu autor. Isso era uma fraqueza que ela não precisava revelar.
— Agora — continuou ela, o tom mudando de protetor para o de uma gerente de projetos implacável. — Você tem uma semana para escrever a melhor história da sua vida. E eu vou garantir que você consiga.
Lucas passou as mãos pelo cabelo, a exaustão tomando conta dele. — Eu não consigo, Hina. Estou com um bloqueio criativo total. Não consigo pensar em nada. Minha cabeça está um caos.
— Claro que está. Foi um dia emocionante — disse Hina, sua voz suavizando um pouco. — Você só precisa relaxar. Deixar a poeira assentar.
Mais tarde, Lucas arrumou a cama no quarto para ela, colocando lençóis limpos. — Você pode ficar aqui. Eu durmo no sofá.
Hina observou-o da porta, um sorriso divertido nos lábios. — Que cavalheiro da sua parte, Lucas.
Ele sentiu o rosto esquentar e tentou disfarçar, virando-se para arrumar um travesseiro que não precisava de ajuste. A timidez dele era um contraste gritante com a audácia dela, e Hina achava isso fascinante.
Na manhã seguinte, Lucas acordou com um cheiro que não sentia há muito tempo em seu apartamento: café fresco, forte e bem-feito. Ele se arrastou até a cozinha e encontrou Hina já vestida, encostada na bancada, segurando duas xícaras.
— Bom dia, escritor — disse ela, estendendo uma das xícaras. — Dormiu bem? Beba. Você tem muito trabalho pela frente.
Após o café e uma ducha que ajudou a clarear sua mente, Lucas se sentou em frente à tela em branco do computador. Encarou o cursor piscando. Nada. A tela era um reflexo de sua mente: vazia.
Hina surgiu silenciosamente atrás dele. — Precisando de um pouco de inspiração?
Ele se virou na cadeira e a viu com um sorriso provocador. Ela se inclinou sobre a mesa, apoiando os cotovelos, o movimento calculado para dar a ele uma visão perfeita de seu decote.
— O que acha? — perguntou ela, a voz um sussurro. — Isso ajuda a destravar a mente?
O rosto de Lucas ficou vermelho como um pimentão. Ele gaguejou, desviando o olhar para o teto, para o chão, para qualquer lugar que não fosse ela. — N-não! Isso... isso definitivamente não está ajudando! Hina, por favor!
Ela riu, satisfeita com a reação, e se endireitou. Foi então que uma ideia, um plano de jogo real, se formou em sua mente. — Tá bom, tá bom. Sem distrações. Mas tive uma ideia melhor. Me empresta seu celular.
Relutante, ele pegou o aparelho da mesa. — Por quê? O que você vai fazer?
— Segredo — respondeu ela, pegando o celular com um gesto rápido e piscando para ele antes de desaparecer no quarto e fechar a porta.
Hina sentou-se na cama, discando o número que havia memorizado sutilmente do identificador de chamadas na noite anterior. Após alguns toques, uma voz tímida atendeu.
— Alô?
— Sara? Oi! Aqui é a Hina.
Houve um silêncio do outro lado da linha. Hina podia quase sentir a confusão e a dor na pausa.
— Escuta — continuou Hina, modulando sua voz para um tom incrivelmente apologético e amigável. — Eu preciso te pedir mil desculpas por ontem à noite. Eu sou a prima do Lucas, e às vezes pego um pouco pesado nas brincadeiras. Aquela história de ser namorada dele... foi uma piada horrível, de péssimo gosto. Ele ficou furioso comigo. Por favor, me desculpe se te magoei.
Outra pausa. Então, a voz de Sara, hesitante. — Prima?
— Sim! — disse Hina, com um entusiasmo convincente. — Acabei de chegar na cidade, vou passar um tempo aqui. Mas olha, eu liguei porque o Lucas... bem, ele ficou muito chateado que você foi embora tão rápido. Ele gosta muito de você, sabe? E eu sinto que estraguei tudo com a minha brincadeira idiota.
— E-ele ficou? — A esperança na voz de Sara era palpável.
— Com certeza! Por isso pensei... o que você acha de encontrar com ele hoje à noite? Um jantar, talvez? Só vocês dois. Seria minha forma de tentar consertar a bagunça que eu fiz.
A hesitação de Sara era quase audível, uma batalha interna entre o coração partido e a nova esperança. Finalmente, ela cedeu.
— T-tudo bem. Eu adoraria.
— Perfeito! — disse Hina, a satisfação evidente em sua voz. — Vou falar com ele. Te mando uma mensagem com os detalhes. E, Sara? De novo, me desculpe.
Após desligar, Hina sorriu. A peça estava de volta ao tabuleiro. Ela saiu do quarto e encontrou Lucas ainda encarando a tela em branco.
— Boas notícias, escritor — disse ela, jogando o celular para ele. — Sua inspiração tem um encontro com você hoje à noite.
Lucas a olhou, completamente perdido. — Minha inspiração? Do que você está falando?
— Sua amiga, Sara — respondeu Hina, cruzando os braços, o sorriso triunfante. — Vocês dois têm um jantar marcado para as oito. E é melhor você não estragar tudo.