Capítulo 6: A Paixão na Calmaria
O quarto estava mergulhado na penumbra, o único som sendo o zumbido distante da cidade lá fora. Hina abriu os olhos lentamente, a visão embaçada, o mundo parecendo um borrão de sombras. Uma silhueta estava sentada na beirada da cama, uma presença quieta e vigilante. Ela piscou, tentando focar.
— Hina? Você está bem?
A voz era suave, carregada de uma preocupação que a envolveu como um cobertor. A silhueta se inclinou para mais perto.
— Kai...? — sussurrou ela, o nome de seu mundo escapando por hábito. A visão começou a clarear, e o rosto ansioso de Lucas tomou forma. A expressão dele se desfez em puro alívio.
— Sou eu, Hina. Que bom que você acordou. — Ele suspirou, passando a mão pelo rosto. — Eu não sabia mais o que fazer.
— O que aconteceu? — perguntou ela, a voz ainda fraca. Ela tentou se sentar, a cabeça latejando. — Deu certo? Você está bem? Estou um pouco tonta...
— Calma, calma — disse ele, colocando uma mão gentil em seu ombro para apoiá-la. — Você desmaiou assim que chegamos ontem. Já é noite de novo. Você dormiu o dia todo. Precisa se alimentar.
Hina tentou organizar as memórias fragmentadas. O beco, o medo, a voz narrativa... — Eu só lembro que tentei reescrever o que estava acontecendo. Depois... uma dor e tudo ficou escuro. — Ela olhou em volta, sentindo uma necessidade urgente. — Agora preciso ir ao banheiro.
— Vem, eu te ajudo a levantar.
Lucas a apoiou com cuidado, o braço dele firme ao redor de sua cintura. Caminharam lentamente até a porta do banheiro, cada passo uma reafirmação de que estavam seguros.
Sob o fluxo constante da ducha, Hina deixou a água quente escorrer por seu corpo. Fechou os olhos, mas as imagens da noite anterior voltaram com força. O medo em seu peito não era apenas pela sua própria vulnerabilidade, mas pela visão de Lucas, tão frágil e tão absurdamente corajoso, correndo em sua direção. Uma apreensão tomou conta dela, um sentimento novo e desconcertante. Era a possibilidade de ele ter se ferido, por causa dela.
E ao pensar em Lucas — correndo risco, cuidando dela enquanto dormia, sua presença constante ao seu lado —, um outro sentimento começou a se misturar à apreensão. Algo que ela não sentia há muito, muito tempo. Uma onda de calor que não vinha da água, mas de dentro. Era um sentimento nostálgico, quase doloroso em sua doçura. Era agradável. Era aterrorizante.
Ao sair do banho, enrolada em uma toalha, ela foi até a cozinha. O aroma de comida caseira enchia o ar. Lucas estava terminando de colocar dois pratos de macarrão fumegante na mesa.
Durante o jantar, um silêncio diferente se instalou entre eles. Não era tenso ou constrangedor, mas introspectivo. Lucas percebeu que Hina estava diferente. Quieta, pensativa, o olhar distante, como se estivesse processando um universo de informações novas. Ela comia devagar, o garfo girando no prato, a mente claramente em outro lugar.
Quando terminaram, Lucas recolheu os pratos. Após lavá-los, secou as mãos e se virou para ela. — Vou... vou tentar escrever um pouco. Aproveitar que as ideias estão... frescas.
Ele começou a caminhar em direção ao escritório, mas ao passar por Hina, que ainda estava sentada à mesa, ela se moveu. Sua mão segurou o braço dele, um toque firme que o fez parar. Ela se levantou, os olhos fixos nos dele, a profundidade neles o deixando hipnotizado. E então, sem aviso, ela o beijou.
As mãos dela seguraram seu rosto, puxando-o para um beijo que não tinha nada de provocação ou jogo. Era intenso, profundo, uma liberação de toda a tensão, medo e gratidão da noite anterior. Lucas foi pego de surpresa, seu corpo congelado por um instante antes de responder, o coração martelando contra as costelas. Ele a envolveu pela cintura, puxando-a para mais perto, o beijo se tornando uma conversa silenciosa e desesperada.
Quando finalmente se afastaram, ofegantes, Hina o olhou nos olhos, a vulnerabilidade exposta em seu rosto pela primeira vez.
— Eu te amo, Lucas — disse ela, a voz um pouco trêmula, como se as palavras fossem estrangeiras em sua boca. — Eu não... não esperava sentir isso de novo.
Lucas, cujo mundo havia virado de cabeça para baixo naquela semana, encontrou em seus olhos a única verdade que importava.
— Eu também te amo, Hina — respondeu ele, a voz firme com uma certeza que ele nunca sentira antes. — E eu vou sempre proteger você.
Aquelas palavras foram a faísca final. Eles voltaram a se beijar, mas agora com um fogo ardente, uma paixão descontrolada que tomou conta deles. Hina o puxou pela mão em direção ao quarto, a toalha caindo no chão, a camisa dele sendo desabotoada pelo caminho. Peças de roupa foram deixadas para trás como marcadores de uma jornada urgente da sala para a cama.
Naquela noite, eles se entregaram a uma paixão que era mais do que desejo. Era uma colisão de dois mundos, uma celebração da sobrevivência e a descoberta de um sentimento que nenhum dos dois achava ser possível. Hina se entregou como nunca havia feito antes, não como uma sedutora no controle, mas como uma mulher apaixonada. E Lucas, o tímido escritor, tentou desesperadamente corresponder à intensidade da musa que havia salvado sua vida e roubado seu coração.