Capítulo 7: Fissuras na Realidade
Na quietude que se seguiu à paixão, Hina repousava nos braços de Lucas, a cabeça em seu peito, ouvindo o ritmo constante de seu coração. O mundo, pela primeira vez, parecia simples.
— Hina... — sussurrou Lucas, a voz rouca, acariciando os cabelos dela. — Aquilo no beco... o poder que você usou. Como?
Ela suspirou, o som abafado contra a pele dele. — Foi uma aposta. Um ato de desespero. Eu não sabia se funcionaria aqui. Mas senti... uma ligação. Uma conexão com meu mundo, com a minha essência de narradora. Usei isso. Forcei a história a mudar.
Enquanto falava, Hina tentou sentir aquilo de novo. A sensação sutil, mas sempre presente, da quarta parede — aquela camada semitransparente que separava os mundos, que ela sempre pôde perceber. E, pela primeira vez, não sentiu nada. Havia apenas... realidade. Sólida, opaca. Um arrepio de incerteza a percorreu, mas o calor do abraço de Lucas a acalmou, e ela afastou o pensamento.
Mais tarde, o som suave do teclado preenchia o apartamento. Lucas, com uma energia criativa que não sentia há anos, estava imerso em sua história. Hina se aproximou por trás, curiosa, e leu por cima de seu ombro. Ele escrevia sobre Sakura e a outra Hina (a duplicata que passou a se chamar Hana), construindo uma nova jornada para elas. Uma pontada, irracional e inesperada, atingiu Hina. Ciúme.
— Por que está escrevendo sobre a cópia? — perguntou ela, a voz um misto de brincadeira e uma pitada de posse. — Você agora tem a original.
Lucas parou de digitar e se virou na cadeira, um sorriso terno no rosto. Ele a puxou pela mão, fazendo-a se sentar em seu colo. — Exatamente por isso. — Ele a beijou suavemente, um beijo que era pura afirmação. — A original agora é somente minha. A história delas é ficção. Você é a minha realidade.
Hina sentiu o rosto esquentar, pega de surpresa pela doçura da resposta. Ela o abraçou pelo pescoço. — Tá bom, autor. Dê o seu melhor. Faça a minha cópia brilhar nessa história.
Ele riu e voltou a escrever. Hina se levantou, mas uma dor aguda e súbita latejou em sua têmpora. Ela levou a mão à cabeça, fechando os olhos. — Ai... estou com uma dor de cabeça forte.
No mesmo instante, Lucas congelou. Seus dedos pairavam sobre o teclado, os olhos fixos na tela. Ele havia acabado de escrever, de forma quase involuntária, a frase: "Hina sentiu uma dor de cabeça forte, uma pontada que a fez parar." Uma coincidência perturbadora.
— O que foi? — perguntou Hina.
Antes que ele pudesse responder, o chão tremeu. Um abalo sísmico leve, mas inconfundível, sacudiu o apartamento por alguns segundos e depois parou.
Lucas olhou para a tela, depois para Hina, o pânico começando a brotar em seus olhos. Suas mãos tremeram enquanto ele digitava uma nova frase: "O abalo passou, deixando um silêncio tenso." Ele olhou em volta. O apartamento estava quieto. Era ele. Era a escrita dele.
— Hina... — começou ele, a voz tensa. — É você que está fazendo isso?
— Fazendo o quê? — Ela ainda massageava a têmpora. — Eu não estou fazendo nada. E não sinto mais aquela... ruptura. Desde que acordei, a conexão sumiu.
Lucas respirou fundo, tentando se acalmar. Talvez fosse só uma coincidência bizarra. Ele voltou ao teclado, hesitante, e continuou a história. As palavras fluíam, a criatividade estava a todo vapor. Parecia que tudo havia voltado ao normal.
— AAAAAH!
O grito de Hina rasgou o ar. Ela caiu de joelhos, o corpo se contorcendo, as mãos agarrando a cabeça como se fosse explodir. Uma dor alucinante, visível em cada músculo tenso de seu corpo.
— HINA! — Lucas pulou da cadeira, correndo até ela e a segurando nos braços. O corpo dela tremia incontrolavelmente. — Meu Deus, o que está acontecendo?! Temos que procurar um médico!
— Não... não precisa! — ofegou ela, a voz embargada pela dor. — É... é uma dor alucinante, mas... já vai passar...
Ele a ajudou a se deitar no sofá e correu de volta para o computador, o coração martelando. Precisava testar. Com as mãos trêmulas, ele começou a digitar, descrevendo a cena com uma precisão aterrorizante: "Sakura correu para Hana, que se contorcia no chão, e a segurou em seus braços, sem saber o que fazer diante daquela dor alucinante."
Assim que a frase terminou, um novo tremor começou. Mais forte. O prédio inteiro rangeu, livros caíram da estante. Lucas olhou para a tela com os olhos arregalados de horror. A conexão era real.
Hina, ofegante no sofá enquanto a dor começava a diminuir, olhou para ele, o rosto pálido e suado. O entendimento a atingiu com a força do terremoto.
— Lucas... — sussurrou ela, a voz fraca. — Isso tudo... está acontecendo por minha causa.
Ele se virou para ela, incrédulo. — O quê? Como?
— O tecido da realidade... — disse ela, os olhos distantes, como se visse algo que ele não podia. — Antes, eu o via como um véu, um pano de seda semitransparente. Depois... depois que usei o poder, ele desapareceu. Mas agora... durante as dores de cabeça, eu vejo um flash. Um flash do meu mundo. O poder não consertou a ruptura, ele a rasgou ainda mais. Os mundos estão entrando em colapso. É por minha causa. É a minha presença aqui.
Lucas balançou a cabeça, a negação lutando contra a evidência aterrorizante. — Não... não pode ser isso. Deve haver outra explicação. Deve haver...