Capítulo 1: Ouvidos Curiosos de Mio
Seis meses haviam se dissolvido na rotina peculiar do apartamento, e a convivência entre Hina, Kaito e Mio já tinha seus próprios e bem estabelecidos códigos de normalidade – ou a versão deles para isso. Numa manhã ensolarada de uma terça-feira que prometia pouco além do calor habitual, Mio, ainda com os olhos semicerrados de sono, arrastava-se pelo corredor. Seu destino: a cozinha, onde a promessa de café forte era a única coisa capaz de iniciar seu dia. A porta da cozinha estava apenas encostada, e foi dela que escaparam os primeiros sons que fizeram Mio despertar de vez.
Primeiro, a voz de Kaito, um pouco mais alta que o usual, com um timbre que denunciava esforço.
— Hina!
E então a de Hina, enérgica como sempre.
— Kaito, mais pra dentro! Empurra com mais força! Assim não vai encaixar nunca!
Kaito respondeu, a voz claramente tensa, entremeada por grunhidos que fizeram os olhos de Mio se arregalarem instantaneamente.
— Calma, Hina! Tá duro... não tá entrando! Eu tô tentando, mas... ugh... essa posição é horrível!
Mio parou como se tivesse levado um choque elétrico. A sonolência sumiu, substituída por uma incredulidade que lhe esquentou o rosto. Não pode ser... Será que eles...? Mas... logo de manhã? E com a porta assim? Que falta de discrição! Ela levou a mão à boca, um misto de espanto e uma curiosidade quase culpada começando a borbulhar.
— Anda, Kaito! — A voz de Hina voltou, mais insistente. — Com mais jeitinho... Isso, mais pro fundo! Tá quase!
Um arquejo mais pronunciado de Kaito, um som abafado de algo sendo forçado, e então...
— Tá... entrando... só mais um... um pouco... UFA! Consegui!
A voz de Hina veio em seguida, carregada de um alívio que fez a imaginação de Mio pintar quadros vívidos e um tanto constrangedores.
— Finalmente! Achei que não ia dar certo! Nossa, você tá todo suado, priminho. Mas valeu o esforço, ficou perfeito!
— Perfeito?! — O coração de Mio batia acelerado. Ela precisava ver. Não por maldade, mas a cena que sua mente criara era simplesmente... inacreditável demais para não ser confirmada. Com o máximo de cuidado, inclinou-se e espiou pela fresta da porta, os olhos preparados para o que quer que fosse encontrar.
A realidade, no entanto, era hilariantemente prosaica. Kaito, de fato com o rosto vermelho e a testa úmida de suor, estava em cima de uma cadeira, esticado ao limite, acabando de enfiar uma caixa teimosamente grande no compartimento mais alto do armário da cozinha. Hina, logo abaixo, inspecionava o resultado com as mãos na cintura e um sorriso de pura satisfação.
Kaito desceu da cadeira, abanando o rosto.
— Satisfeita, Hina? Da próxima vez, mede o armário antes de comprar o trambolho, ou pelo menos me acorda mais cedo pra fazer mudança.
Hina deu uma risadinha, já se virando para pegar uma xícara.
— Ah, para de drama, Kai. Ficou ótimo lá em cima. E você sabe que adoro ver seus músculos trabalhando logo cedo. Valeu, priminho!
No corredor, Mio soltou o ar num silvo longo e aliviado, sentindo o calor da vergonha subir-lhe pelas bochechas por ter pensado... bem, o que pensou. Um sorriso travesso escapou de seus lábios.
— Uma caixa... — disse para si mesma, balançando a cabeça. — Era só uma bendita caixa. Definitivamente, preciso arranjar um hobby mais interessante ou um namorado. Minha imaginação anda fértil demais.
A noite caía sobre a cidade, e no apartamento, a expectativa de uma saída noturna já eletrificava o ar. Hina, como um cometa prestes a cruzar o céu, finalizava seus preparativos no quarto. Foi então que a campainha tocou, quebrando o silêncio da sala onde Mio lia distraidamente um livro.
Mio levantou-se para atender. Do outro lado, as amigas de Hina aguardavam.
— Oi Mio! Como você tá? A Hina já tá pronta? — Yumi, um dínamo de energia loira e sorrisos, praticamente saltitou para dentro antes mesmo de uma resposta, envolvendo Mio num abraço apertado que quase a tirou do chão. Sua alegria era contagiante, quase palpável.
Naomi, mais contida, entrou logo atrás com um aceno amigável e um sorriso educado. — Olá, Mio. Tudo bem?
— Oi, meninas! Entrem. Acho que ela já está vindo — respondeu Mio, fechando a porta e guiando-as para a sala. Yumi já inspecionava o ambiente com sua curiosidade efervescente, enquanto Naomi, mais discreta, sentou-se na beirada do sofá.
— O Kaito está por aí? — perguntou Naomi, o tom casual tentando, sem muito sucesso, disfarçar um interesse que não passou despercebido.
Antes que Mio pudesse responder, a própria Hina surgiu no corredor, uma visão. Usava um vestido preto curto, justo o suficiente para delinear cada curva com e o perfume que a precedia era uma promessa de mistério e diversão. Um sorriso felino, daqueles que pareciam guardar segredos, brincava em seus lábios ao ouvir a pergunta de Naomi. — Pode tirar o olho do Kai, Naomi. Ele não faz o seu tipo, querida — disparou Hina, a voz rouca e carregada de uma diversão maliciosa, enquanto pegava uma pequena bolsa de grife sobre a mesinha de centro.
Naomi corou instantaneamente, fuzilando Hina com o olhar, mas havia um brilho divertido em seus olhos também. — Hina! Eu só perguntei por educação! Não seja ridícula.
Mio interveio, tentando, como sempre, apaziguar os ânimos e proteger a amiga do constrangimento. — Ele ainda não chegou do trabalho.
Os olhos de Yumi brilharam com súbito interesse, a cabeça pendendo para o lado como um cachorrinho curioso. — O Kai tá solteiro? Ai, gente, porque ele é um gatinho, né?
Hina soltou uma gargalhada sonora, jogando a cabeça para trás de uma forma que fez seus cabelos loiros cascatearem. — Meninas. Ele até que é bonitinho, sim, mas é um bobão completo. Deixem ele em paz, pelo amor de Deus. Agora, vamos?
Ela deu uma piscadela cúmplice para as amigas, já se encaminhando decididamente para a porta. — Tchauzinho, maninha! — disse para Mio. — Não espere acordada e, por favor, tente não colocar fogo no apartamento nem dar uma festa rave enquanto estivermos fora. Juízo!
— Tchau, Hina! Tchau, meninas! Divirtam-se! — respondeu Mio, acenando da soleira da porta enquanto o trio desaparecia pelo corredor do prédio. Mio suspirou, um pequeno sorriso nos lábios. Pelo menos a noite dela seria tranquila.