Capítulo 5: A Rainha e a Torre
Retornando de uma reunião no departamento de finanças, Hina caminhava em direção ao seu escritório, a mente já processando os dados que extraíra. A porta de vidro fosco estava entreaberta. Ela a empurrou, pronta para mergulhar no trabalho, mas parou na soleira.
Alguém estava sentado em sua cadeira.
Não de qualquer jeito. A mulher estava perfeitamente postada, as costas retas, uma perna elegantemente cruzada sobre a outra, observando a vista panorâmica da cidade como se o escritório, e talvez o prédio inteiro, lhe pertencesse. Usava um vestido de um branco imaculado que parecia brilhar contra o couro preto da cadeira de Hina. Seus cabelos castanhos estavam presos em um coque clássico, e um único colar de pérolas adornava seu pescoço. Era a imagem da elegância atemporal e do poder herdado.
A mulher se virou lentamente, e um sorriso educado, quase de porcelana, surgiu em seus lábios. Seus olhos, de um verde profundo, avaliaram Hina sem pressa.
— Você deve ser Hina Takahashi — disse ela, a voz suave e melodiosa, mas com um fio de aço por baixo. — Você certamente causou uma forte impressão.
Hina entrou, fechando a porta atrás de si com um clique suave. Ela não demonstrou surpresa ou irritação. Apoiou-se na beirada de sua própria mesa, cruzando os braços, assumindo uma postura de poder casual que contrastava com a formalidade da outra.
— E você invadiu meu escritório. Acho que não fomos apresentadas.
A mulher se levantou da cadeira, não com pressa, mas com a graça de quem cede o espaço por pura cortesia. Ela estendeu uma mão com unhas impecavelmente cuidadas.
— Perdoe minha indelicadeza. Sophia Tower. Noiva do Julian.
As palavras pairaram no ar, cada uma delas uma peça sendo colocada no tabuleiro. Noiva. A declaração de posse. Do Julian. A reivindicação de intimidade e prioridade. Hina apertou a mão dela, o toque breve e frio.
— Hina Takahashi. A nova Consultora Estratégica Especial — retrucou Hina, devolvendo o jogo de títulos. A sua posição social não me intimida. A minha é baseada em mérito e poder direto.
Sophia sorriu, o olhar percorrendo o escritório minimalista. — Um cargo criado especialmente para você, pelo que ouvi. Julian sempre foi impulsivo quando algo... ou alguém... chama sua atenção.
Era a primeira farpa, disfarçada de elogio. "Impulsivo" significava "irracional". "Chama sua atenção" significava "um capricho passageiro".
— Ele valoriza a eficiência e resultados rápidos — respondeu Hina, neutra. — Fico feliz em poder oferecer ambos.
— Ah, sim. Resultados — disse Sophia, caminhando lentamente em direção à janela. — Fiquei sabendo do seu... diálogo com o Sr. Thompson. Foi bastante... dramático. Os olhos e ouvidos nestas paredes são surpreendentemente eficientes.
Hina sentiu um calafrio. Sophia não estava apenas bem-informada; ela tinha uma rede.
— Às vezes, a clareza exige um pouco de drama — disse Hina.
Sophia se virou, o sorriso ainda no lugar, mas os olhos verdes agora continham um brilho cortante. — Julian tem um gosto por clássicos. Coisas que são confiáveis, elegantes e que resistem ao teste do tempo. Como um bom whisky Old Fashioned. — A menção específica fez o coração de Hina dar um único e quase imperceptível salto. Ela sabia. — Mas até o homem mais exigente pode se distrair momentaneamente com... novidades passageiras. Sabe como é. Brilhantes, excitantes por um instante, mas que perdem o sabor rapidamente.
O ataque foi cirúrgico. Em uma única frase, Sophia a rebaixou de uma estrategista para um drink da moda, uma distração barata destinada a ser esquecida.
Uma onda de raiva quente subiu por Hina, mas ela a esmagou antes que chegasse à superfície. Defensiva era derrota. Ela sorriu, um sorriso genuíno de quem aprecia uma jogada bem-feita.
— Claro — concordou Hina, a voz um veludo suave. — As novidades são sempre mais... estimulantes, não acha? Elas nos lembram do que o clássico nos faz esquecer: a emoção da descoberta. Elas desafiam o paladar. Alguns homens têm medo disso. Fico feliz em saber que Julian não é um deles.
O sorriso de Sophia vacilou por uma fração de segundo. Hina não apenas defendeu, ela contra-atacou, redefinindo-se como "estimulante" e "desafiadora", enquanto sutilmente chamava a "clássica" Sophia de previsível e sem emoção. Xeque.
Sophia recompôs a máscara de porcelana. Ela caminhou de volta em direção à porta, a missão cumprida.
— Foi um prazer finalmente conhecê-la, Hina. Tenho certeza de que nos veremos novamente. Aproveite seu tempo aqui. Enquanto ele durar.
A porta se fechou, deixando Hina sozinha no silêncio de seu escritório. Ela soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo. Caminhou até a cadeira que Sophia havia profanado e sentou-se, olhando para a cidade lá fora.
Ela havia enfrentado executivos intimidores, homens arrogantes e burocratas teimosos. Todos eles eram peões ou torres, fáceis de manobrar ou derrubar. Mas Sophia... Sophia era diferente.
Ela não era apenas uma rival ciumenta. Era inteligente, conectada e absolutamente implacável. Ela não jogava para intimidar; jogava para vencer.
Hina percebeu, com uma clareza arrepiante, que Sophia Tower não era apenas uma peça no jogo.
Ela era a Rainha do outro lado do tabuleiro.