Capítulo 6: Armadura e Rachaduras
O ar da academia ainda estava quente em suas peles quando Hina, Naomi e Yumi saíram para o corredor refrigerado do shopping, as risadas ecoando em meio ao murmúrio dos compradores.
— Sério, se aquele instrutor me mandar fazer mais um agachamento, eu vou registrar uma queixa formal por tentativa de homicídio — reclamou Yumi, abanando o rosto com a mão.
— Ah, para de drama, Yumi. Você adorou — retrucou Hina, sentindo a adrenalina do treino se transformar em uma satisfação relaxada. — Vamos para o meu apartamento. Tenho cerveja gelada, e francamente, depois dessa semana, nós merecemos.
Mais tarde, no apartamento de Hina, a atmosfera era de uma descontração merecida. Latas de cerveja suavam sobre a mesinha no canto da varanda, uma playlist de música pop tocava baixo ao fundo, e a vista da cidade piscando lá fora era o cenário perfeito.
— ...e então o Mark me olha com aquela cara de peixe morto e diz “os números são delirantes” — contava Hina, imitando a voz do executivo, fazendo Naomi e Yumi gargalharem. — Eu juro, a única coisa delirante naquele escritório é o ego dele.
— Você deveria demiti-lo — sugeriu Yumi, tomando um gole de sua cerveja.
— Eu queria amiga, mas infelizmente só posso recomendar, quem decide é o Julian, — disse Hina. — Mas eu fiz um relatório bem incisivo. — Completou com um leve sorriso.
Naomi mudou o rumo da conversa ao ouvir o nome de Julian. Ela se recostou no sofá, o olhar analítico. — Falando em egos gigantes... como é trabalhar tão perto do Julian Knight? Ele é tão intimidador quanto parece?
A menção do nome dele fez algo mudar. Hina tomou um gole de sua lata, o sorriso desaparecendo lentamente. A leveza da conversa se dissipou, substituída por uma intensidade silenciosa. Ela não respondeu de imediato, o olhar perdido nas luzes da cidade.
— Ele é... um desafio — disse Hina, finalmente, a voz mais baixa. — Ele joga no mesmo nível. É estimulante. E perigoso.
Yumi se inclinou para a frente, os olhos brilhando de curiosidade. — Perigoso tipo "sexy e misterioso" ou perigoso tipo "vai te demitir se você respirar errado"?
— Os dois — respondeu Hina, sem hesitar.
Naomi a observava com atenção. Ela conhecia Hina há anos e sabia ler as microexpressões por trás da máscara de femme fatale da amiga. Havia algo na forma como Hina falava de Julian, uma mistura de admiração e cautela, que a preocupava.
— Hina... — começou Naomi, a voz suave, mas firme. — Só... toma cuidado, ok? Esse tipo de intensidade, essa coisa de "desafio"... me lembra de outra época.
Hina enrijeceu, a mão apertando a lata de cerveja. Ela sabia exatamente do que Naomi estava falando.
— Não é a mesma coisa — disse Hina, a voz cortante.
— Não? — insistiu Naomi, gentilmente. — Você se entrega de cabeça quando encontra algo que vale a pena. E às vezes, você se esquece de que nem todo mundo joga limpo.
O silêncio caiu por um momento, pesado com memórias não ditas. Yumi, percebendo o clima, tentou ajudar do seu jeito.
— Ah, qual é, Naomi! Deixa ela se divertir! Traição é um saco, mas a gente supera. Eu mesma nem lembro da última vez que fui traída.
Naomi fuzilou Yumi com o olhar. — É porque você é uma cabeça de vento sem noção. Tente levar algo a sério uma vez na vida.
O diálogo entre as duas, tão típica e absurda, quebrou a tensão. Hina olhou de uma para a outra e uma risada cansada escapou de seus lábios. Mas não foi a risada genuína de antes. Havia uma amargura nela.
— Naomi tem razão, Yumi. Algumas cicatrizes usamos para fortalecer nossa armadura. Especialmente quando é causada pela sua melhor amiga e do primeiro idiota que você achou que amava.
Hina balançou a cabeça, como se espantasse um fantasma. Ela se levantou e pegou mais três cervejas na geladeira, a fachada de controle voltando ao lugar.
— Chega de drama. Estou sendo patética. — Ela jogou uma lata para cada uma. — Julian Knight não é um adolescente idiota. Ele sabe exatamente o que está fazendo. E eu também.
Ela abriu sua cerveja com um estalo seco, o som finalizando o assunto. A Hina que todos conheciam estava de volta. Mas a rachadura em sua armadura havia sido exposta, e a lembrança do fogo que a forjou agora pairava no ar, tão real quanto o gosto amargo da cerveja em seus lábios.