Capítulo 7: Jantar de Negócios e Confissões na Madrugada
— Temos uma viagem, Hina.
A voz de Julian cortou o silêncio do final de tarde em seu escritório. Ele estava de pé, perto da janela, o sol poente projetando sua silhueta contra o céu laranja. Hina, que ele havia convocado minutos antes, parou no centro da sala, cruzando os braços.
— "Nós"? Achei que meu trabalho era balançar o barco aqui, não em outras cidades.
— O alvo é o Sr. Sato — disse Julian, a voz séria. — Um investidor da velha guarda que poderia dobrar nosso valor de mercado. Ele é conhecido por ser impenetrável, por valorizar a intuição tanto quanto os números. E, neste momento, não há ninguém em quem eu confie mais do que você para esta tarefa.
A franqueza dele a pegou de surpresa. Não era um desafio, era uma confissão de necessidade.
— Certo — disse ela, o tom casual disfarçando a onda de adrenalina. — Mas se a noite for um tédio, a conta do bar é sua.
Julian riu, um som baixo e genuíno. — É um risco que estou disposto a correr.
O restaurante escolhido por Julian era um santuário de poder silencioso. Aninhado no topo de um arranha-céu, suas janelas do chão ao teto transformavam a cidade em um tapete de luzes distantes.
O jantar começou como um jogo de xadrez. Julian, com sua precisão habitual, apresentava os dados, a lógica, a força inegável da Knight Enterprises. O Sr. Sato ouvia com uma polidez que era uma muralha, seus acenos de cabeça não revelando nada. Hina, em silêncio, observava. Não os números, mas os homens. Ela notou a forma como os olhos de Sato se desviavam periodicamente para uma pintura abstrata e minimalista na parede, um redemoinho de preto sobre um fundo branco.
Enquanto Julian detalhava as projeções de lucro para o próximo quinquênio, Hina interveio, a voz suave, mas cortando a conversa com a precisão de um bisturi.
— Sr. Sato, perdoe-me. Aquela pintura... ela me lembra as histórias que meu avô contava sobre a arte do sumi-ê. Ele dizia que o verdadeiro poder não está no que é pintado, mas no espaço vazio que o define. No que é deixado de fora.
O Sr. Sato parou, os hashis suspensos. Ele olhou da pintura para Hina, e pela primeira vez naquela noite, a muralha em seu rosto rachou, revelando um brilho de genuíno interesse. — Uma observação muito perspicaz, Takahashi-san. Poucos ocidentais compreendem o conceito de ma.
— Talvez o seu receio sobre este investimento não esteja nos números que o Sr. Knight apresentou — continuou Hina, sentindo a abertura —, mas no que eles não dizem. No espaço vazio. Na incerteza do futuro.
A conversa mudou. Deixou de ser sobre números e se tornou sobre confiança, sobre visão, sobre a coragem de apostar no espaço vazio. No final da noite, a promessa de negócios foi selada com um aperto de mão firme e um raro sorriso do Sr. Sato. Julian olhou para Hina por cima da mesa, um olhar de pura admiração.
O caminho de volta para o hotel foi preenchido por um silêncio carregado. A adrenalina do sucesso nos negócios deu lugar a uma tensão de outra natureza.
No elevador, a proximidade deles em um espaço tão pequeno era quase insuportável. Os espelhos refletiam seus olhares se cruzando, cada um testando os limites do outro em silêncio.
— Meu andar — disse Julian, quando as portas se abriram. Não foi uma pergunta. Foi uma declaração.
Hina não respondeu. Apenas saiu do elevador atrás dele, como se a decisão já tivesse sido tomada por ambos muito antes daquele instante.
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Atrás da porta fechada da suíte, a formalidade se desfez. O que começou como um beijo exploratório, quase um teste final, rapidamente se tornou uma colisão inevitável.
Mãos que antes gesticulavam sobre contratos agora desfaziam botões e zíperes com uma urgência febril. A respiração se misturava, o calor entre eles aumentando como se cada segundo de contenção tivesse sido apenas prelúdio.
Para Hina, o controle sempre fora um instinto. Ela iniciou, guiou, manteve o ritmo. Mas então, algo mudou.
A forma como Julian a tocava, a maneira como seus olhos a procuravam na penumbra, não era de um homem tomando posse de uma conquista, mas de alguém tentando decifrar um segredo. Ele beijava cada centímetro de sua pele como se estivesse lendo uma história que nunca tinha sido contada.
E, lentamente, a necessidade de Hina de liderar a dança começou a se dissolver. Pela primeira vez em anos, ela não estava jogando. Não havia estratégia, não havia próximo movimento.
Havia apenas a sensação avassaladora de ser vista.
E, em um suspiro que foi metade rendição e metade libertação, ela se entregou — permitindo-se, por um instante, apenas seguir.
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Horas depois, na quietude da madrugada, ela sentia o ritmo calmo da respiração dele contra suas costas. A armadura, peça por peça, havia sido posta de lado.
— Por que você tem tanto medo de perder o controle? — a voz dele veio da escuridão, suave, mas inquiridora.
Hina ficou em silêncio. A pergunta era a chave que ameaçava abrir a única porta que ela mantinha trancada.
— Porque eu já perdi o controle uma vez — disse ela, a voz um fio, desprovida de emoção. — Apenas uma vez. E foi o suficiente.
Ela se virou para encará-lo. — A história que todos sabem é a da traição. A humilhação pública, orquestrada pela minha melhor amiga e pelo primeiro garoto que eu amei. Eles me transformaram em uma piada. Mas essa não é a parte que me assombra.
Ela respirou fundo, mergulhando na escuridão de sua memória. — O que me assombra é o que eu fiz depois. Mais tarde naquela noite, eu a encontrei no estacionamento. Sozinha. Eu estava... vazia. E então ela riu de mim. Disse que eu merecia. E foi aí que a pior parte de mim veio a tona.
O olhar dela se tornou opaco. — A próxima coisa de que me lembro com clareza é do som das sirenes se aproximando. Ela foi hospitalizada. Eu não me orgulho disso, Julian. Eu me envergonho. Eu me assustei com o que eu era capaz de fazer quando levada ao limite.
Um silêncio pesado caiu sobre o quarto.
— Foi ali — continuou Hina, a voz agora um sussurro frágil — que a 'Hina' que você vê hoje nasceu. Porque eu percebi que a pessoa mais perigosa para mim era eu mesma, sem minhas defesas. A minha fúria. A armadura que eu uso não é só para manter as pessoas afastadas. É para manter aquela parte de mim trancada.
Ela terminou, o segredo finalmente exposto, esperando por julgamento, por repulsa.
Julian a ouvia, o queixo cerrado. Ele não disse "sinto muito". Não disse "você não deveria ter feito isso". Ele disse a única coisa que ela precisava ouvir.
Ele a puxou para perto, envolvendo-a em seus braços. Não foi um gesto de paixão, mas de proteção absoluta.
— Eles a empurraram para a beira de um penhasco — disse ele, a voz firme contra o cabelo dela. — Não podem culpá-la por você lutar para não cair.
Hina não respondeu. Ela apenas fechou os olhos, permitindo-se, por um único e aterrorizante instante na escuridão, não estar no controle. E naquela vulnerabilidade compartilhada, algo novo e muito mais complexo do que atração ou negócios nasceu entre eles. Uma intimidade forjada não apenas em uma cicatriz, mas no segredo sombrio de como ela foi feita.