Capítulo 8: O Preço da Intimidade
A volta da viagem de negócios marcou uma transformação sísmica na Knight Enterprises. A mudança não estava nos relatórios ou nas planilhas.
Estava na tensão silenciosa que agora existia entre o último andar e o escritório de Hina. Havia um código próprio entre eles, incompreensível para os outros.
O burburinho no escritório mudou de tom. A especulação não era mais sobre a competência dela, mas sobre a natureza de sua relação com o CEO. Hina era indiferente aos sussurros.
Pela primeira vez, o jogo que ela jogava não era para uma plateia, mas para um único adversário e parceiro que a entendia. A confissão na madrugada não a enfraqueceu; pelo contrário, criou um laço de cumplicidade que a tornava mais focada, mais perigosa. Ela não estava mais apenas provando seu valor, estava protegendo um território que agora incluía ele.
Essa nova proximidade, no entanto, não passou despercebida. E a Rainha do outro lado do tabuleiro, sentindo seu Rei se afastar, decidiu que era hora de mover uma peça diretamente para o coração do território inimigo.
A campainha tocou no final da tarde. Hina, recém-chegada em casa, vestindo uma calça confortável e uma regata simples, abriu a porta esperando uma entrega. Mas parada no corredor de seu prédio, impecavelmente vestida em um tailleur de grife, estava Sophia Tower. O contraste entre as duas era gritante: a rainha em visita oficial e a guerreira em seus aposentos.
— Sophia — disse Hina, a surpresa rapidamente substituída por uma calma gélida. Ela se recostou no batente da porta, bloqueando a entrada. — Perdeu o caminho para o clube de campo?
Sophia sorriu, um sorriso de porcelana que não tocava seus olhos verdes. — Não seja hostil, Hina. Pensei em passar para conversarmos. De mulher para mulher. Não vai me convidar para entrar?
Era um desafio. Recusar seria um sinal de medo. Hina deu um passo para o lado, abrindo o caminho. — Claro. Só não repare na ausência dos mordomos.
O apartamento de Hina era moderno e funcional, com toques de uma personalidade forte, mas sem o luxo ostensivo ao qual Sophia estava acostumada. Sophia não se sentou. Passeou pela sala, tocando um livro de capa dura sobre a mesa de centro.
— Julian me contou tudo sobre o sucesso com o Sr. Sato. Ele ficou muito... impressionado com suas habilidades — disse Sophia, a palavra "habilidades" carregada de veneno. — Ele tem esse jeito, sabe? Fica tão empolgado com novos projetos. É uma de suas qualidades mais charmosas... e previsíveis.
— A diferença é que este "projeto" entregou o maior investimento da história da empresa — retrucou Hina, pegando um copo d'água na cozinha. — Talvez ele devesse se empolgar com mais frequência.
— Talvez — concordou Sophia, virando-se para encará-la. — Mas a empolgação passa. Julian já teve muitas "consultoras especiais" ao longo dos anos, Hina. Elas vêm e vão. No final, ele sempre volta para o que é sólido. Para o que é permanente.
Era um ataque direto, uma tentativa de colocá-la na categoria de "aventura passageira".
Hina deu um gole d'água, o olhar calmo sobre a borda do copo. — E o que é permanente, Sophia? Um contrato de interesses entre duas famílias? Parece terrivelmente... tedioso.
O sorriso de Sophia vacilou. A fachada de polidez caiu, revelando a implacabilidade por baixo. Ela parou de andar e foi direto ao ponto.
— O que você quer, Hina? Dinheiro? Ações? Um cargo de diretoria?
Hina riu, um som genuíno de escárnio. — Eu quero o que eu já tenho: um trabalho interessante e acesso irrestrito para fazê-lo bem.
Sophia balançou a cabeça, como se falasse com uma criança teimosa. Ela abriu sua bolsa de grife e tirou um talão de cheques e uma caneta dourada. O gesto era tão calculado, tão teatralmente condescendente, que Hina quase a aplaudiu.
— Não seja ingênua. Você está jogando um jogo que não entende. Você é um risco, Hina. Para os negócios, para a nossa aliança. E riscos são eliminados.
Ela preencheu um cheque com uma caligrafia elegante e o estendeu para Hina. O número era obsceno. Milhões.
— Toda pessoa tem um preço, querida. Esse está bom para você?.
Hina olhou para o cheque, depois para o rosto de Sophia. E então ela riu. Um som baixo, genuíno e mortalmente insultuoso. Ela não pegou o cheque. Em vez disso, caminhou até a porta e a abriu.
— A conversa acabou — disse Hina, a voz firme, cortante.
A recusa silenciosa era um insulto maior do que qualquer palavra. Sophia caminhou em direção à saída, o orgulho ferido irradiando dela.
— Você vai se arrepender disso, Hina. Você não tem ideia com quem está mexendo.
— Pelo contrário, querida — respondeu Hina, o sorriso afiado como uma lâmina. — Eu acho que é você quem não entendeu: eu não estou à venda.
Sophia, parou na porta aberta. Mas antes que pudesse sair, uma voz confusa veio do corredor.
— Ei, eu moro aqui! Quem são vocês?
Dois homens de terno, claramente seguranças de Sophia, bloqueavam o caminho de Kaito. Um deles se aproximou da porta para se reportar.
— Srta. Sophia...
Kaito apareceu na porta, sendo segurado pelo outro segurança. — O que está acontecendo aqui?!
Sophia, recompondo sua polidez em um instante, fez um sinal para que o segurança o soltasse. O homem obedeceu imediatamente.
— Você deve ser Kaito Takahashi — disse Sophia, a voz novamente calma e controlada, um leve sorriso surgindo. — Sua prima é uma pessoa... difícil.
— É, eu sei... — ele respondeu.
— Você é gerente na livraria do centro, correto? — Seu tom agora quase simpático mas que soou com uma nuance de ameaça aos ouvidos de Hina.
— Sim, mas... o que...? — Kaito ainda confuso com a situação.
— Desculpe o incômodo, espero que meus homens não o tenham machucado. — Disse a elegante mulher enquanto atravessava a porta indo embora.
— Hina! Você está bem? Quem é ela?
— Ninguem — respondeu com um olhar frio e sério, — Mas muito perigosa. — Completou Hina com um sorriso se formando em seu rosto.