Capítulo 1: Calor de Verão e Provocações
Sábado, o ventilador girava preguiçosamente no canto da sala, espalhando um sopro morno que mal aliviava o calor pegajoso da tarde de verão. Kaito, 24 anos, estava esparramado no sofá, uma lata de refrigerante gelada na mão, enquanto a televisão exibia um jogo de beisebol que ele fingia assistir. Seu cabelo castanho, levemente bagunçado, caía sobre a testa, e sua camiseta cinza grudava no corpo atlético, traído pelo suor. Ele tentava se concentrar no placar, mas sua mente vagava — qualquer coisa para ignorar o fato de que dividia o apartamento com ela.
Hina, sua prima de 23 anos, tinha um dom natural para transformar qualquer momento tranquilo em um teste de paciência. Alta, esbelta, com cabelos loiros que cascateavam até a cintura como se fossem feitos de luz solar, ela era o tipo de pessoa que chamava atenção sem esforço. Mas não era só a beleza estonteante que fazia Kaito cerrar os dentes. Era o jeito dela — aquele ar sedutor, o sorriso malicioso que parecia sempre esconder uma carta na manga. E, claro, sua mania irritante de provocá-lo até ele não saber onde enfiar a cara.
A porta do quarto dela se abriu com um rangido, e Kaito, por instinto, endireitou a postura. “Lá vem”, ele murmurou para si mesmo, já prevendo o caos. Hina apareceu no corredor, vestindo um short jeans minúsculo e uma regata solta que deixava um ombro à mostra. Ela segurava um picolé de morango, lambendo-o com uma lentidão que parecia calculada. Seus olhos azuis brilharam com um misto de inocência fingida e pura provocação.
— Nossa, Kai, tá quente hoje, né? — disse ela, a voz melíflua, enquanto se jogava no sofá ao lado dele, perigosamente perto. O perfume doce de baunilha que ela usava invadiu o ar, e Kaito sentiu o pescoço esquentar. — Tô quase derretendo aqui.
— Então vai tomar um banho frio — resmungou ele, mantendo os olhos fixos na TV, embora já tivesse esquecido o placar. — E, tipo, coloca uma roupa decente, Hina. A gente divide esse apê, não é um desfile de moda.
Hina riu, um som leve e provocador que fez Kaito cerrar o punho em torno da lata de refrigerante. Ela se inclinou na direção dele, apoiando o queixo na mão, o picolé perigosamente próximo de pingar no sofá.
— Decente? Ai, Kai, você é tão careta. — Ela deu outra lambida no picolé, exageradamente lenta, e ergueu uma sobrancelha. — Além do mais, eu sei que você não se importa tanto assim. Ou se importa? — O tom dela era puro veneno açucarado, e o sorriso que acompanhava a frase era uma armadilha.
Kaito engoliu em seco, sentindo o calor subir do pescoço para o rosto. Ele não era idiota. Sabia exatamente o que ela estava fazendo. Hina adorava esse jogo: jogar frases de duplo sentido, se aproximar demais, só para vê-lo gaguejar e tentar manter a compostura. E o pior? Ele sabia que não podia ceder. Não só porque eram primos, mas porque Hina era como uma tempestade: linda, imprevisível e capaz de deixar tudo em pedaços.
— Hina, para com isso — disse ele, a voz mais firme do que ele sentia. — Vai provocar outra pessoa. Tipo, sei lá, aquele cara da cafeteria que fica te encarando.
— O barista? — Ela riu, jogando a cabeça para trás, o cabelo loiro espalhando-se pelo encosto do sofá. — Ele é bonitinho, mas não é tão… divertido de provocar quanto você. — Ela se aproximou um pouco mais, a perna roçando de leve contra a dele. — Você fica tão vermelho, Kai. É quase fofo.
— Fofo? — Kaito bufou, virando o rosto para encará-la, o que foi um erro. Os olhos dela estavam a centímetros dos dele, brilhando com aquele ar de quem sabia exatamente o quanto estava mexendo com ele. Ele desviou o olhar rápido, pigarreando. — Vai fazer alguma coisa útil, tipo lavar a louça. Tô cansado de ser o único que limpa esse apê.
Hina fingiu um beicinho, cruzando os braços de forma que a regata subiu um pouco, revelando a curva da cintura.
— Nossa, que chato. Tô só tentando animar sua tarde boring, primo. — Ela se levantou do sofá com um movimento fluido, quase dançante, e caminhou até a cozinha, parando na porta para lançar um último golpe. — Mas, se quiser, posso te ajudar a… esfriar essa cabeça quente. Só me chamar.
Kaito jogou a cabeça para trás contra o encosto do sofá, soltando um suspiro longo e sofrido. “Essa menina vai acabar comigo”, pensou, enquanto tentava ignorar o calor que ainda queimava suas bochechas. Ele pegou o controle remoto e aumentou o volume da TV, como se o som do jogo pudesse abafar a risada de Hina ecoando da cozinha.
Enquanto isso, ali perto, Sakura, 21 anos, caminhava pela calçada com um livro abraçado contra o peito. Seus longos cabelos negros e os óculos de armação vermelha que escorregavam levemente pelo nariz definiam seu rosto. Ela era o oposto de Hina em quase tudo: delicada, tímida, com uma suavidade que fazia as pessoas quererem protegê-la. Mas, por dentro, Sakura carregava um segredo que pesava mais do que ela admitia: estava apaixonada por Kaito desde os tempos de escola.
Ela parou em frente ao prédio onde Hina e Kaito moravam, hesitando. Hina a tinha convidado para passar a tarde com eles, mas a ideia de ver Kaito — e, pior, de ver Hina sendo Hina — fazia seu coração disparar de um jeito que era ao mesmo tempo doce e doloroso.
— Só uma tarde normal — disse Sakura para si mesma, ajustando os óculos e respirando fundo. — Só amigos saindo. Nada demais.
Mas, enquanto subia as escadas, ela não podia evitar a sensação de que algo estava prestes a mudar. E, no fundo, temia que seu coração não estivesse pronto para isso.