Capítulo 17: Pétalas, Páginas e Lágrimas
O sol da manhã de sábado entrava preguiçosamente pelas frestas da cortina, iluminando partículas de poeira dançando no ar silencioso do apartamento. O aroma de café fresco pairava na cozinha, onde Kaito e Sakura dividiam uma caneca, encostados no balcão. Seus ombros se tocavam, um conforto fácil estabelecido entre eles. Falavam baixo, o som suave de suas vozes pontuado por risadas ocasionais.
Mio estava na sala, encolhida na poltrona mais afastada, com as pernas dobradas sob o corpo. Estava completamente absorta em um livro de capa escura e título em letras prateadas e elegantes: Pétalas de um Tempo Perdido, da renomada escritora Kaori Yamada. Seus dedos traçavam as linhas enquanto lia, os olhos azuis fixos na página, alheia ao mundo ao redor.
Sakura, deixando sua caneca na pia, passou pela sala e seus olhos pousaram na capa do livro nas mãos de Mio. Ela parou, um brilho de reconhecimento e empolgação surgindo em seu rosto.
— Mio! — Sua voz saiu animada, mas contida para não quebrar totalmente a calma da manhã. — Você está lendo Kaori Yamada? Eu amo os livros dela!
Mio ergueu os olhos do livro, surpresa pela interrupção. Um sorriso genuíno e feliz iluminou seu rosto ao saber que Sakura também era fã da autora.
— Sim! Saki, você também gosta? Que incrível! Acabei de descobrir ela há alguns meses e estou obcecada!
Sakura se aproximou, sentando-se na beirada do sofá próximo à poltrona de Mio, a timidez esquecida pela paixão literária compartilhada. — A história é tão envolvente, não é? O que você está achando?
— Estou adorando! — Mio concordou, os olhos brilhando. — A forma como ela descreve os sentimentos dos personagens é única. Estou quase no final, naquela parte tensa depois que encontraram o diário na gruta!
Elas mergulharam em uma conversa animada sobre a trama de Pétalas de um Tempo Perdido, relembrando passagens favoritas e discutindo as motivações dos personagens. Mencionaram brevemente outras obras da autora que já haviam lido, e Sakura, muito feliz por encontrar alguém com o mesmo gosto, rapidamente se ofereceu para emprestar alguns de seus próprios volumes de Kaori Yamada.
Nesse momento, a porta do quarto de Hina rangeu ao se abrir. Ela surgiu na soleira, coçando os olhos, os cabelos loiros caóticos e vestindo apenas uma camiseta larga que mal cobria o essencial. Ela observou as duas garotas sentadas próximas, conversando animadamente sobre o livro. Um sorriso lento e malicioso se formou em seus lábios enquanto se espreguiçava longamente, a camiseta subindo um pouco mais, antes de se aproximar delas.
— Bom dia, ratinhas de biblioteca — arrastou as palavras, a voz rouca de sono, parando diante delas com as mãos na cintura. — Sobre o que estão conversando tão animadas? É algum romance erótico?
Sakura ficou imediatamente corada, as bochechas queimando. Ela ajeitou os óculos no nariz, desviando o olhar. — H-Hina! N-não é nada disso! É só... uma autora que nós duas gostamos!
Mio, ao contrário de Sakura, soltou uma risada baixa e divertida diante da provocação da irmã. — É Kaori Yamada, literatura, Hina.
Hina deu de ombros, a expressão de tédio afetado voltando ao rosto. — Ah! Então é chato — decretou, já se virando em direção à cozinha. — Alguém passou o café? Preciso de cafeína pra tirar esse tédio.
E, com a mesma facilidade com que havia chegado, Hina as deixou, sua pergunta sobre o café ecoando enquanto Sakura ainda tentava acalmar o rubor em seu rosto e Mio balançava a cabeça, um sorriso divertido ainda nos lábios pela reação exagerada da amiga e pela previsibilidade da irmã.
A tarde chegou trazendo uma quietude diferente ao apartamento. O sol já não entrava com a mesma intensidade, e uma brisa mais fresca soprava pela janela aberta da sala. Sakura havia saído para encontrar uma colega da faculdade, e Kaito aproveitava o silêncio para tentar estudar um pouco em seu quarto.
Passando pelo corredor para pegar um copo d'água na cozinha, Kaito parou. Um som baixo, quase imperceptível, chegou aos seus ouvidos. Parecia... um choro abafado, vindo do quarto que Hina e Mio dividiam. Ele franziu a testa, preocupado. Hina tinha mencionado mais cedo que iria à academia naquela tarde.
Ele se aproximou devagar da porta entreaberta. Espiou pela fresta e seu coração apertou. Mio estava encolhida no chão, aos pés da cama de Hina, os ombros tremendo levemente. O rosto estava escondido entre os joelhos, mas os soluços contidos eram inconfundíveis.
Kaito empurrou a porta delicadamente. — Mio? — chamou baixo.
Ela se assustou, levantando a cabeça rapidamente. O rosto estava vermelho e inchado, os olhos marejados. Tentou secar as lágrimas às pressas com as costas das mãos. — K-Kai... Oi.
Ele entrou no quarto, fechando a porta atrás de si para dar privacidade. Agachou-se na frente dela, a preocupação evidente em seu olhar. — O que aconteceu? Você está bem? A Hina saiu?
Mio fungou, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — S-sim, a Hina foi pra academia. Não... não aconteceu nada demais, Kai. Sério. Só... um pouco de saudade de casa, acho.
Mas as lágrimas que voltavam a brotar desmentiam suas palavras. Kaito suspirou, a voz suave. — Mio, não precisa fingir comigo. Pode falar. O que houve?
A gentileza na voz dele pareceu quebrar a última barreira de Mio. Os soluços vieram mais fortes, e ela levou as mãos ao rosto novamente, a voz embargada. Após um momento, hesitando, ela finalmente conseguiu falar entre as lágrimas.
— O Makoto... ele... ele terminou comigo.
Kaito ficou em silêncio por um instante, processando. — O quê? Seu namorado?
Mio assentiu, as lágrimas escorrendo sem parar. — Makoto... nem teve coragem de falar pessoalmente, esperou eu viajar pra mandar uma... uma mensagem. Uma mensagem estúpida, Kai! Dizendo que... que a distância... que ele conheceu outra pessoa...
A dor e a humilhação na voz dela eram palpáveis. Kaito sentiu uma pontada de raiva pelo rapaz desconhecido e uma imensa compaixão por sua prima. Sem pensar muito, ele se sentou ao lado dela no chão e a puxou para um abraço.
Mio hesitou por um segundo, surpresa, mas depois se agarrou a ele, enterrando o rosto em seu ombro e chorando abertamente, os soluços agora audíveis e dolorosos. Kaito a apertou em seus braços, afagando seus cabelos de leve, deixando-a chorar.
— Shhh... calma... — sussurrou ele perto do ouvido dela. Quando os soluços começaram a diminuir um pouco, ele a afastou gentilmente o suficiente para olhar em seus olhos marejados. — Ele não te merece, Mio. Escuta o que eu estou dizendo. Qualquer cara que faz isso, desse jeito covarde... não te merece.
Ele segurou o rosto dela com as mãos, secando uma lágrima com o polegar. — Você é uma garota incrível. Você é divertida, gentil, inteligente... Não deixe ele fazer você pensar o contrário. Você vai superar isso, e vai encontrar alguém muito melhor. Alguém que te valorize de verdade.
Enquanto Kaito falava, com uma sinceridade e um calor que a envolviam, Mio o encarava, os olhos ainda brilhando de lágrimas, mas agora com uma outra emoção começando a surgir por baixo da dor.
Kai... pensou ela, sentindo o coração bater um pouco mais rápido apesar da tristeza. Ele realmente se importa. Não riu, não julgou... só ficou aqui. Tão diferente do Makoto. Ele me ouviu... Ele é tão... bom.
Aquele abraço, aquelas palavras ditas com tanta convicção, fincaram-se fundo no coração de Mio. A dor da perda ainda estava lá, mas agora misturada a uma crescente e confusa onda de gratidão e admiração por Kaito, uma admiração que começava a parecer perigosamente com algo mais profundo. Kaito, alheio à tempestade de sentimentos que suas palavras gentis haviam intensificado em sua prima, apenas continuou a segurá-la, oferecendo o conforto silencioso de sua presença.