Capítulo 18: Águas Calmas, Correnteza Oculta
A manhã de domingo nasceu cinzenta e silenciosa no apartamento, um contraste com o sol do dia anterior. Kaito encontrou Sakura já na cozinha, preparando café, os cabelos presos num coque desleixado, o rosto ainda marcado pelo sono. Trocaram um beijo suave e algumas palavras sonolentas. A cama de Hina no quarto ao lado estava vazia e arrumada – ela havia mandado uma mensagem na noite anterior dizendo que ia dormir na casa de uma amiga depois de uma festa e provavelmente só voltaria tarde. A ausência da energia caótica de Hina deixava um vácuo peculiar no ambiente.
Mio apareceu pouco depois, os olhos ligeiramente inchados, vestindo um moletom largo que a fazia parecer ainda menor. Ela parou na soleira da cozinha, um pouco hesitante.
— Bom dia — disse ela, a voz baixa.
— Bom dia, Mio — respondeu Sakura, oferecendo um sorriso gentil e solidário. — Dormiu bem?
Mio deu um aceno evasivo. Seus olhos encontraram os de Kaito por um instante antes de desviarem rapidamente para a cafeteira. Kaito sentiu uma pontada de preocupação.
— E aí, Mio? Tudo bem? — perguntou ele, tentando manter a voz casual, mas com uma nota de genuína solicitude.
— T-tudo bem, Kai. Obrigada — respondeu ela, focando em pegar uma caneca no armário. O coração dela deu um salto com a simples pergunta dele. Ele ainda está preocupado comigo..., pensou, uma onda de calor misturada à culpa subindo pelo peito.
Sakura, percebendo o desconforto de Mio, interveio suavemente. — Mio, sinto muito mesmo pelo que aconteceu ontem com... você sabe. Fiquei pensando... não se sinta pressionada a nada, mas se precisar conversar, ou só de companhia, estou aqui, tá?
A sinceridade na voz de Sakura tocou Mio. Ela conseguiu encontrar o olhar da outra garota e oferecer um pequeno sorriso agradecido. — Obrigada, Saki. De verdade. Você é muito gentil.
O café da manhã transcorreu em uma quietude pontuada por conversas triviais, principalmente entre Kaito e Sakura. Mio participava pouco, perdida em seus pensamentos, observando Kaito discretamente quando achava que ninguém estava olhando, sentindo o peso da gentileza dele e de Sakura como uma âncora e, ao mesmo tempo, como uma acusação silenciosa aos seus próprios sentimentos confusos.
Mais tarde, enquanto Kaito se trancou no quarto para adiantar alguns trabalhos da faculdade, Sakura encontrou Mio sentada no sofá da sala, folheando distraidamente o livro de Kaori Yamada que começara no dia anterior.
— Oi — disse Sakura, sentando-se ao lado dela, mas mantendo uma distância respeitosa. — Sabe, eu estava pensando... já que a Hina não está e o dia está meio... assim — ela gesticulou para a janela onde uma garoa fina começava a cair —, talvez a gente pudesse assistir aquele filme que te falei? Baseado no outro livro da Yamada? Ou podemos só ficar por aqui mesmo, tomar um chá... O que você preferir.
Mio olhou para Sakura, para o rosto aberto e simpático, e sentiu um nó na garganta. Sakura estava sendo tão incrivelmente legal, tentando incluí-la, ser amiga. E tudo que Mio conseguia sentir era uma admiração crescente pelo namorado dela. Eu sou uma pessoa horrível, pensou, a culpa revirando seu estômago.
— O filme... O filme parece ótimo, Saki — respondeu Mio, forçando um entusiasmo que não sentia completamente. — Obrigada por pensar nisso.
Elas passaram a tarde no sofá, sob o som da chuva e a luz suave da TV. Kaito juntou-se a elas depois de um tempo, sentando-se ao lado de Sakura e passando um braço casualmente pelos ombros dela. Mio tentou se concentrar no filme, mas sua atenção desviava constantemente para o casal ao seu lado. Observava a forma como a mão de Kaito repousava no ombro de Sakura, como eles trocavam um comentário baixo sobre uma cena, a familiaridade confortável entre eles. Cada gesto era uma pequena facada em seu peito já dolorido.
Em certo momento, Kaito se levantou para buscar mais chá na cozinha. Ao voltar, ofereceu uma xícara para Mio. — Quer mais, Mio? Ainda está quentinho.
— Ah... obrigada, Kai — disse ela, pegando a xícara. Seus dedos roçaram os dele por um instante fugaz. Para Kaito, foi um toque acidental e sem importância. Para Mio, foi uma corrente elétrica que a deixou com a respiração suspensa por um segundo, o rosto esquentando. Ela desviou o olhar rapidamente, focando na tela da TV, o coração martelando contra as costelas. É só gentileza, repreendeu-se mentalmente. Ele está sendo legal porque sou prima dele e porque terminei um namoro. Só isso. Mas uma parte dela, teimosa e esperançosa, se agarrava à sensação daquele toque.
A noite chegou trazendo consigo o barulho da chave na porta. Hina entrou como um pequeno furacão, sacudindo o guarda-chuva molhado, os cabelos úmidos e um sorriso cansado, mas energizado, no rosto.
— Cheguei, família! — anunciou ela, jogando a bolsa no sofá. — Nossa, que clima de velório aqui. Ficaram mofando em casa o domingo inteiro? Que tédio! A noite ontem foi incrível, vocês não têm noção!
A presença vibrante dela imediatamente preencheu o apartamento, quebrando a atmosfera introspectiva que havia reinado durante o dia. Ela tagarelou sobre a festa, as amigas, reclamou da chuva, e mal pareceu notar o silêncio de Mio ou a gentileza extra de Sakura.
Mio sentiu-se subitamente exausta. A montanha-russa emocional do fim de semana – a alegria da conexão com Sakura, a dor do término, a confusão causada pela gentileza de Kaito, a culpa avassaladora e agora o retorno da energia inescapável de Hina – era demais.
Com uma desculpa sobre estar cansada, Mio se retirou para o quarto. Deitou-se na cama que não era sua, no quarto que dividia com a prima barulhenta, e encarou o teto. A imagem do rosto gentil de Kaito ao consolá-la se misturava com a imagem dele rindo com Sakura no sofá. A gentileza de Sakura parecia um peso em sua consciência. E a única certeza que tinha era que seus sentimentos estavam terrivelmente, perigosamente confusos. O domingo seguinte havia chegado e passado, mas a tempestade dentro dela estava apenas começando.