Capítulo 19: Corações Partidos na Madrugada
Dois dias depois, na terça-feira, o dia havia transcorrido com uma calma enganadora. O início da noite encontrava Hina e Sakura na cozinha, o ar carregado com o aroma de chá de camomila que fervia no fogão. Sakura, com os óculos embaçados pelo vapor, contava animada sobre os planos que ela e Kaito estavam fazendo para uma viagem no próximo fim de semana, uma escapada para uma cidade costeira. Hina, cortando algumas frutas com uma faca que reluzia sob a luz, ouvia com um meio sorriso, já preparando sua intervenção característica.
— Uma viagem romântica, hein, Saki? — disse Hina, o tom carregado de malícia enquanto jogava uma fatia de maçã na boca. — Quer uma dica pra apimentar? Leva uma lingerie nova, algo bem ousado. O Kai vai perder a cabeça no quarto do hotel. — Ela piscou, o sorriso travesso iluminando o rosto.
Sakura corou, mexendo nos óculos. — H-Hina, para! Não é… não é esse tipo de viagem! — gaguejou, mas um risinho escapou, traído pela imagem que as palavras de Hina plantaram.
Enquanto isso, a porta do apartamento se abriu, e Kaito entrou, os ombros cansados do trabalho, a mochila pendendo de uma mão. Mio, que estava na sala folheando Pétalas de um Tempo Perdido, levantou-se com um salto, os olhos azuis brilhando. — Oi, Kai — disse, a voz doce, quase melódica. — Como foi seu dia?
Kaito sorriu, deixando a mochila no canto. — Normal, só o de sempre. Valeu por perguntar, Mio — respondeu, a voz quente, mas exausta. Antes que pudesse dizer mais, Sakura apareceu da cozinha, o rosto iluminado ao vê-lo. Ela correu até ele, envolvendo-o em um abraço e puxando-o para um beijo longo, cheio de uma ternura que fez o coração de Kaito acelerar.
Mio baixou o olhar, o livro esquecido nas mãos. O desconforto apertou seu peito, e ela se afastou silenciosamente, voltando para seu cantinho no sofá, onde abriu o livro sem realmente ler, os olhos fixos nas palavras, mas a mente em outro lugar.
A noite avançou, e o apartamento caiu em um silêncio profundo. Todos já haviam se recolhido para seus quartos, o único som sendo o tique-taque distante de um relógio na sala. Na madrugada, Kaito, com a garganta seca, levantou-se para pegar um copo d’água. Ao entrar na cozinha, a luz fraca da geladeira iluminava Mio, parada perto da bancada, vestindo uma camisola simples de algodão que caía suavemente sobre suas curvas. Seus olhos estavam marejados, a voz embargada quando ela o viu.
— Mio? — chamou Kaito, a preocupação imediata. — Tá tudo bem? Ainda tá pensando no término?
Ela balançou a cabeça, os cabelos soltos roçando os ombros. — Não… não é isso, Kai — disse, a voz tremendo. — É… outra coisa. Algo que tá preso aqui. — Ela tocou o peito, os olhos brilhando com uma intensidade que o fez parar.
Mio se aproximou, os passos hesitantes, até estarem encostados na bancada. Suas mãos se tocaram, um roçar leve que pareceu incendiar o ar. Seus olhares se cruzaram, magnéticos, a respiração dela pesada, o rosto tão perto que Kaito podia sentir o calor da pele dela. Num impulso, Mio encostou o rosto contra o peito dele, o perfume suave de lavanda envolvendo-o. A atração era inegável, um fio esticado a ponto de romper.
— Kai… — sussurrou ela, a voz carregada de desejo e vulnerabilidade.
Kaito engoliu em seco, a mente gritando para recuar. — Mio, a gente… não pode. Não deve — disse, mas as palavras soaram frágeis, traídas pelo calor que crescia dentro dele.
Mio ergueu o rosto, os lábios roçando o pescoço dele antes de encontrarem os dele em um beijo apaixonado, cheio de urgência. Kaito, envolto pelo perfume dela e pela intensidade do momento, cedeu, correspondendo com uma fome que o surpreendeu. Suas mãos passearam pelo corpo delicado dela, traçando as curvas sob a camisola. O beijo se intensificou, e ele a segurou pela cintura, erguendo-a com facilidade para sentá-la na bancada. Suas mãos desceram, encontrando as laterais da calcinha sob o tecido, começando a puxar.
Mio interrompeu o beijo, ofegante, os olhos arregalados. — Kai… eu… sou virgem — confessou, a voz tremendo. — Ainda não… não tô pronta.
Kaito parou, a respiração pesada, o desejo lutando contra a razão. Antes que pudesse responder, Mio desceu da bancada, os olhos ainda fixos nos dele. Num movimento lento, ela se abaixou, ajoelhando-se diante dele. As mãos dela tremiam, mas havia uma determinação em seu olhar. Kaito, perdido na névoa do momento, deixou as mãos caírem sobre a cabeça dela, o corpo respondendo antes que a mente pudesse intervir.
No corredor, uma figura paralisada observava, as mãos cobrindo a boca em choque. Sakura, que havia se levantado para pegar um copo d’água, estava congelada, os olhos arregalados enquanto via Kaito com Mio, o movimento intenso entre eles. O mundo pareceu desabar. Quando Kaito soltou um gemido baixo, algo dentro de Sakura quebrou. — KAITO, SEU IDIOTA! — gritou, a voz misturada com choro, as lágrimas escorrendo. — IDIOTA, idiota…
Kaito se virou, o rosto pálido, os olhos arregalados. — Sakura, espera… — começou, mas ela já corria pelo corredor, os soluços ecoando.
Sakura invadiu o quarto de Hina, não como uma pessoa, mas como a personificação da dor. O som que saiu dela não era um choro comum, era um soluço rasgado, quase animalesco, que cortou o silêncio da noite. Hina acordou num sobressalto, o coração disparado, sentando-se na cama enquanto tentava focar a visão na figura trêmula e escura que tropeçava em sua direção.
— Saki! O que aconteceu?! — Hina perguntou, a voz ainda grogue de sono, mas o tom subindo em alarme genuíno ao perceber a magnitude do colapso da amiga.
Sakura caiu de joelhos ao lado da cama, agarrando-se a Hina como se sua vida dependesse disso, o corpo sacudido por espasmos violentos que iam muito além das lágrimas. O ar lutava para entrar em seus pulmões, cada inspiração um arquejo doloroso. Tentou falar, mas as palavras eram estilhaços: — Kaito… Mio… na cozinha… ele… ele tava… — A voz quebrou, afogada em mais um soluço que a curvou sobre si mesma. Ela apertou a mão contra o esterno, uma dor física real emanando do epicentro de sua traição. — Por quê, Hina? Por quê? Dói… aqui… dói tanto… — O sussurro era um fio de voz, carregado de uma agonia crua que fez Hina sentir um calafrio. E então, quase inaudível, veio a frase que gelou o sangue de Hina: — Eu quero morrer…
Hina a puxou para um abraço apertado, sentindo a amiga tremer incontrolavelmente contra seu corpo. O cheiro salgado das lágrimas misturava-se a uma aura de puro desespero. — Calma, Saki… respira fundo… Shhh… eu tô aqui com você, tá? Eu tô aqui… — sussurou Hina contra os cabelos dela, as palavras de consolo soando terrivelmente inadequadas diante daquela devastação. Hina olhou para o rosto de Sakura, levantado em sua direção por um instante – um rosto desfigurado pela dor, os olhos inchados e perdidos num abismo de sofrimento. Lembrou-se da confissão de Sakura semanas atrás, do olhar esperançoso dela, e de como ela, Hina, havia cuidadosamente desviado, falando em confusão, porque sabia que não sentia o mesmo. Vê-la agora, quebrada por Kaito, repetindo que queria morrer… um pânico tomou conta de Hina. Preciso fazer alguma coisa. Qualquer coisa pra tirar ela desse estado, nem que seja por um minuto. O pensamento racional evaporou, substituído por uma ideia desesperada, quase um ato de sacrifício emocional: usar a única vulnerabilidade que talvez pudesse distraí-la, mesmo sabendo o quão errado e perigoso era. Um sacrifício momentâneo para tentar salvar a amiga do abismo.
Agindo nesse impulso torto, Hina segurou o rosto molhado de Sakura entre as mãos, forçando-a gentilmente a olhá-la nos olhos. Houve uma fração de segundo de silêncio carregado, os olhares presos – um suplicante e quebrado, o outro tenso pela decisão que estava tomando. Hina viu um lampejo de reconhecimento confuso nos olhos de Sakura antes de se inclinar e pressionar seus lábios contra os dela. O beijo foi intenso, firme, uma tentativa calculada, ainda que desesperada, de criar um curto-circuito naquela dor excruciante.
Sakura arregalou os olhos, o choque percorrendo-a. Não era o beijo em si que a surpreendia – a memória de seus próprios sentimentos confessados ainda estava viva –, mas sim a iniciativa vinda de Hina. Hina, que tinha dito que era confusão. Hina, que nunca havia dado qualquer sinal de reciprocidade. Por quê? Por que agora? A pergunta pairou em sua mente atordoada, mas foi rapidamente soterrada pela maré de dor e pela necessidade avassaladora de alívio. O beijo era uma distração potente, um calor familiar no meio do frio devastador. Cansada demais para decifrar as intenções de Hina, exausta demais para lutar contra o que quer que estivesse acontecendo, ela apenas se agarrou à sensação, à presença de Hina, a única constante em seu mundo que acabara de ruir. Fechou os olhos, rendendo-se não a um sentimento novo, mas à ação inesperada da amiga, deixando que aquilo a afastasse, por um instante, da imagem insuportável na cozinha.
Quando Hina finalmente quebrou o beijo, afastando-se apenas o suficiente para respirar, elas permaneceram abraçadas, testas coladas. O quarto estava imerso num silêncio pesado, quase sufocante. Foi então que Sakura sussurrou, a voz embargada, não como uma nova descoberta, mas como a reafirmação de uma verdade antiga, agora talvez perigosamente validada pelo ato de Hina: — Eu te amo, Hina… muito.
Hina fechou os olhos por um breve momento, processando as palavras de Sakura – a reafirmação daquele amor que ela sabia que não podia corresponder, agora dita após seu beijo impulsivo. Ok, isso definitivamente complica as coisas, pensou, uma ponta de pragmatismo cortando a névoa emocional do momento. Acariciou a bochecha de Sakura com uma ternura protetora. — Eu sei, Saki — respondeu, a voz baixa, mas firme, escondendo a súbita complexidade da situação. — Vai ficar tudo bem. A gente vai dar um jeito nisso, juntas. — Por dentro, a mente de Hina já trabalhava. O beijo tinha sido uma medida extrema, talvez imprudente, para tirar Sakura da beira do abismo. Tinha funcionado... por agora. A consequência era essa declaração, carregada de uma esperança que ela não podia alimentar. Usei um método drástico, e agora preciso gerenciar as consequências, admitiu para si mesma, sem pânico, mas com clareza. A culpa era um luxo que não ajudaria em nada agora. O que importava era a situação: Sakura estava quebrada, Kaito a traiu, e ela, Hina, havia acabado de adicionar uma camada explosiva à mistura. Seria delicado. Seria difícil explicar a verdade sem machucar Sakura novamente. Mas Hina sentiu o peso da responsabilidade se assentar em seus ombros não como um fardo esmagador, mas como um desafio a ser enfrentado. Vou ter que pensar com cuidado nos próximos passos, decidiu, o olhar ganhando uma centelha de sua determinação habitual enquanto continuava a segurar a amiga. Mas eu vou consertar isso. Eu dou um jeito. Sempre dou. O conforto que oferecia era agora uma promessa cheia de complexidades não ditas, mas ela estava pronta para gerenciá-las.