Capítulo 20: Estilhaços ao Amanhecer
A primeira luz da quarta-feira infiltrou-se pelas frestas da cortina do quarto de Hina, encontrando Sakura encolhida na cama. A noite anterior era um borrão de dor excruciante, culminando em um beijo confuso e uma confissão que agora parecia flutuar em algum lugar distante de sua consciência imediata. A dor principal, a da traição de Kaito e Mio, era uma presença física e opressora. Ela piscou, os olhos ardendo e inchados. Estava sozinha na cama; Hina já devia ter levantado.
Um novo medo surgiu: o medo de sair daquele refúgio precário. O medo de encontrar Kaito. Ou Mio. Cada centímetro do apartamento parecia contaminado pela noite anterior. Com um esforço tremendo, Sakura se levantou, sentindo o corpo pesado e dolorido, como se tivesse sido espancada. Abriu a porta do quarto de Hina com um cuidado infinito, espiando o corredor silencioso. O apartamento parecia adormecido, mas para Sakura, ele estava carregado de ameaças invisíveis.
Seus pés descalços a levaram, quase por conta própria, até a porta fechada do quarto de Kaito. Ela parou ali, a mão pairando a centímetros da madeira. Uma onda de náusea a atingiu. Lembrou-se do rosto dele na cozinha, da voz dele... da mão dele na cabeça de Mio. A imagem a fez recuar como se a porta estivesse em chamas. Respirou fundo uma, duas vezes, lutando contra as lágrimas que ameaçavam voltar. Não podia encará-lo agora. Talvez nunca mais. Com o coração martelando dolorosamente contra as costelas, ela forçou os pés a continuarem, afastando-se daquela porta, em direção à sala.
E então a viu. Enrolada em um cobertor fino no sofá, Mio dormia. O rosto dela, geralmente suave, parecia tenso mesmo no sono. Por um momento, Sakura sentiu apenas um vazio gelado. Depois, uma onda quente de repulsa e raiva subiu por sua garganta. Aquela era a garota com quem tinha compartilhado livros e risadas dias antes. Aquela era a prima do seu... do seu ex-namorado. Aquela era a garota que ela tinha visto ajoelhada na frente dele. A imagem queimou em sua mente. Sakura apertou os punhos, o olhar fixo na figura adormecida, um desprezo profundo endurecendo suas feições. Ela abriu a boca, talvez para chamá-la pelo nome. Mas o que saiu foi algo áspero e venenoso, nascido da ferida aberta que pulsava no peito.
— Vadia...
Virando-se abruptamente, ela seguiu para a cozinha, a última esperança de encontrar um porto seguro em Hina. E lá estava ela, de costas, preparando café, a postura firme e controlada de sempre. O cheiro familiar do café coando quase fez Sakura desabar ali mesmo.
— Hina... — chamou, a voz embargada.
Hina se virou, o rosto sério, mas os olhos suavizando ao ver o estado de Sakura. Ela largou o que estava fazendo e foi até a mesa, puxando uma cadeira. — Senta aqui, Saki.
Sakura obedeceu, mas assim que se sentou, a comporta se rompeu novamente. A visão de Hina, a normalidade da cena da cozinha, contrastando com o horror que sentia, era demais. As lágrimas vieram, silenciosas e pesadas no início, depois se transformando em soluços que sacudiam seus ombros. — E-eu vi ela... na sala... — conseguiu dizer entre os soluços. — No sofá... Hina, eu achei... achei que a gente era amiga... como ela pôde...?
Hina a envolveu em um abraço firme, apoiando a cabeça de Sakura em seu ombro. — Shhh... Eu sei, Saki. Eu sei. Mas não pensa nisso agora, tá? Não adianta remoer isso nesse momento. Respira.
Ela se afastou um pouco, serviu uma xícara de café fumegante e a colocou na frente de Sakura. — Bebe um pouco disso. Fica aqui quietinha, só por um instante. Eu já volto.
Com uma determinação silenciosa, Hina caminhou até a sala. Parou ao lado do sofá e tocou o ombro de Mio com firmeza. — Mio. Acorda.
Mio despertou com um sobressalto, os olhos arregalados e assustados ao ver Hina parada ali, a expressão indecifrável. O reconhecimento do que havia acontecido na noite anterior pareceu atingi-la em cheio. Ela se encolheu, a voz saindo embargada de remorso. — Hina... me desculpa... eu... eu sei que fiz uma besteira enorme... eu sinto muito...
Hina suspirou, um suspiro que carregava o peso da situação. — Eu sei, maninha. Você fez um belo estrago. — O tom era de constatação, não de acusação naquele momento. — Mas não se preocupa com isso agora. Eu vou tentar consertar as coisas, do meu jeito. Por enquanto, levanta daí, vai pro quarto que você estava dividindo comigo e fica lá um tempinho, tá? Não sai de lá por enquanto.
Mio assentiu rapidamente, os olhos marejados, parecendo aliviada e culpada ao mesmo tempo. Levantou-se e correu para o quarto sem olhar para trás.
Hina observou-a ir, então foi até a porta do quarto de Kaito e a abriu uma fresta. Vazio. A cama desarrumada, mas ele não estava lá. Covarde, pensou Hina. Já foi trabalhar como se nada tivesse acontecido. Melhor assim, por agora. Ela entrou rapidamente, pegou as roupas de Sakura que estavam ali e levou para a cozinha.
Em seguida, foi até seu próprio quarto e, com movimentos rápidos e eficientes, pegou uma mochila e começou a jogar algumas de suas roupas dentro. Voltou para a cozinha onde Sakura bebericava o café, o olhar perdido no vazio.
— Saki, vamos sair daqui um pouco — disse Hina, a voz calma, mas decidida. — Você vai pra sua casa, e eu vou com você. Ficar uns dias lá, tá?
Antes de sair, Hina parou na porta do quarto onde Mio estava escondida. Bateu levemente. — Mio? Tá me ouvindo?
Uma voz abafada respondeu: — Tô...
— Ótimo. Presta atenção: estou levando a Sakura pra casa dela. Vamos passar alguns dias lá. Quando o Kaito chegar, ou se ele ligar, avisa isso a ele. Diz que eu volto depois pra conversar, mas que agora preciso... preciso tentar remendar um coração despedaçado. Entendeu?
— Entendi, Hina... — veio a resposta fraca.
Hina assentiu para a porta fechada. Voltou para a cozinha, pegou a mochila e estendeu a mão para Sakura. — Vamos, Saki. Um passo de cada vez. Vamos sair daqui.
Sakura olhou para a mão estendida de Hina, depois para o rosto determinado da amiga. Assentiu, as lágrimas ainda presentes, mas com uma minúscula centelha de esperança em meio à devastação. Segurou a mão de Hina como se fosse sua única tábua de salvação e, juntas, saíram do apartamento, deixando para trás os estilhaços da noite anterior.