Capítulo 21: Fios Expostos
Os dias que se seguiram à partida de Hina e Sakura se arrastaram no apartamento com a lentidão de uma ferida infeccionada. O silêncio, antes raro, agora era a norma, um manto pesado que sufocava qualquer tentativa de normalidade. Kaito mergulhou no trabalho com uma fúria que beirava o desespero, esticando as horas no escritório, chegando tarde, saindo cedo – qualquer coisa para evitar as paredes que pareciam ecoar sua própria culpa e a ausência gritante de Sakura. Nas poucas horas em casa, pegava o celular, o impulso de ligar para ela quase incontrolável. Discou o número diversas vezes, apenas para cair na caixa postal ou ouvir o tom de chamada que nunca era atendido. Provavelmente bloqueado. O pensamento era como sal na ferida aberta.
Mio, por sua vez, vagava pelos cômodos como um fantasma. O remorso era um companheiro constante, sussurrando acusações em cada canto silencioso. A culpa a corroía, tornando difícil até mesmo comer ou se concentrar em qualquer coisa. Trocava mensagens esporádicas com Hina, relatos curtos e cuidadosos do não-acontecer no apartamento. A ideia de simplesmente fazer as malas e voltar para a casa dos pais no interior era tentadora, um escape fácil daquele clima irrespirável. Mas o pensamento seguinte era sempre o mesmo: seria fugir, deixar a bagunça que ajudara a criar para os outros limparem. Não podia fazer isso. Tentou, algumas vezes, iniciar uma conversa com Kaito. Um "oi" tímido na cozinha, um comentário sobre o tempo. Mas ele sempre respondia com monossílabos, os olhos focados em qualquer ponto que não fosse ela, e logo encontrava uma desculpa para se retirar. Mio percebia que não era raiva que o afastava, mas a mesma culpa que a consumia, refletida de volta para ela. No fundo, ela sentia que ele também queria quebrar aquele gelo, mas nenhum dos dois sabia como.
Enquanto isso, no pequeno e acolhedor apartamento de Sakura, um tipo diferente de silêncio prevalecia, pontuado por conversas tranquilas e o som da TV ligada baixa. Hina havia se instalado como uma cuidadora dedicada e eficiente. Monitorava Sakura, preparava refeições, garantia que ela descansasse, mas também a incentivava a levantar, a tomar um banho, a tentar ler um pouco. A ferida no coração de Sakura ainda estava ali, dolorosa e profunda, mas sob os cuidados de Hina, começava a dar os primeiros sinais de cicatrização. A vermelhidão diminuía, a dor aguda dava lugar a uma dor mais surda.
— Saki, como está se sentindo hoje? — perguntou Hina numa manhã, enquanto tomavam café na pequena mesa da cozinha, a luz do sol entrando pela janela.
Sakura desviou o olhar da xícara, um pequeno sorriso tocando seus lábios pela primeira vez em dias. — Estou... melhor, Hina. De verdade. Ter você aqui... é tudo pra mim agora. — Seus olhos encontraram os de Hina, carregados de uma intensidade que fez Hina suspirar internamente.
Com cuidado, Hina pousou sua xícara. — Saki, nós já conversamos sobre isso, lembra? Eu adoro você, mais do que imagina, mas... como amiga. Eu me importo demais com você pra te dar esperanças erradas. Não posso corresponder ao que você sente daquela forma.
Sakura baixou o olhar por um instante, a sombra da dor passando por seu rosto, mas rapidamente a afastou. — Eu sei, Hina. E tudo bem. — Ela forçou um sorriso mais convincente. — Sério. Só... só de ter você por perto, cuidando de mim, já é o suficiente. É mais do que eu mereço agora.
Hina estudou o rosto da amiga. A aceitação parecia um pouco fácil demais, mas Sakura parecia mais estável, mais presente. Talvez estivesse mesmo começando a processar tudo, inclusive a complexidade da relação delas. Hina sentiu que, talvez, já fosse seguro deixá-la sozinha por algumas horas sem o receio constante de que fizesse alguma besteira em um momento de desespero.
Naquela tarde, Hina pegou o celular, relendo as mensagens curtas de Mio. “Tudo quieto por aqui. Kai quase não fica em casa. Tô pensando em voltar pro interior.” O peso daquelas palavras a fez franzir a testa. Ela precisava voltar ao apartamento, nem que fosse por algumas horas, para avaliar o estrago e garantir que Mio não fugisse sem ao menos tentar enfrentar o que havia feito. Além disso, suas roupas estavam acabando, e ela precisava de mais algumas coisas para continuar com Sakura. Olhou para Sakura, que folheava um livro na sala, e tomou uma decisão.
— Saki, preciso sair um pouco — anunciou, a voz calma, mas firme. — Tenho que resolver alguns problemas pendentes.
A ansiedade voltou imediatamente aos olhos de Sakura. — Problemas? Você... você vai lá? No apartamento?
Hina assentiu, mantendo o tom tranquilizador. — Sim. Preciso pegar mais algumas coisas minhas e... verificar como estão as coisas por lá. Ver a Mio.
Sakura colocou a mão sobre o peito, a respiração ficando irregular. — Você... você vai voltar, né? Logo? Me promete, Hina. Promete que volta.
Hina se aproximou e abraçou Sakura com força. — Ei, calma. É claro que eu vou voltar, sua boba. Eu prometo. Só preciso colocar algumas coisas em ordem. Fica tranquila, tenta assistir um filme, tá? Eu volto antes que perceba.
Quando Hina abriu a porta do seu apartamento, foi recebida pelo silêncio pesado que Mio descrevera nas mensagens. A tensão era quase palpável no ar. Encontrou a irmã sentada no sofá da sala, o olhar perdido.
— Hina? — Mio levantou a cabeça, os olhos se arregalando e se enchendo de lágrimas ao ver a irmã ali. Ela se levantou num salto e correu, lançando-se nos braços de Hina em um abraço apertado, desesperado, cheio de saudade e culpa não dita. Hina a abraçou de volta, sentindo o quão tensa e frágil a irmã estava. Ficaram assim por um momento, em silêncio.
Afastando-se um pouco, Hina perguntou, a voz calma: — O Kaito já chegou?
Antes que Mio pudesse responder, a chave girou na fechadura e a porta se abriu. Kaito entrou, parecendo exausto, e parou abruptamente ao ver Hina ali. Seus olhos se arregalaram ligeiramente.
— Hina?
Hina virou-se para encará-lo, um sorriso irônico surgindo em seus lábios. — Olá, Kai. Como está meu priminho covarde favorito?
A acusação direta o atingiu. O rosto de Kaito se contraiu em dor e defensiva. — Hina, para! Não faz isso. Eu também estou sofrendo com tudo isso! Você veio aqui só pra me pisotear?
— Não exatamente. — Hina respondeu, o tom ainda cortante, e então seu olhar se suavizou um pouco ao se voltar para Mio. — Na verdade, vim principalmente me despedir da maninha. Ela me disse que vai voltar pra casa dos nossos pais amanhã.
Hina pegou a mão de Mio. — Vem, maninha, vamos conversar um pouco no quarto.
Começou a puxar Mio na direção do corredor, mas parou e olhou para trás, por cima do ombro, diretamente para Kaito. Seus olhos, antes irônicos, agora eram frios e duros como aço.
— Kai, eu não sei e não quero saber como as coisas estão entre você e a Mio agora. — Sua voz era baixa, mas carregada de uma intensidade que fez Kaito prender a respiração. — Mas eu vou te dizer uma coisa, e é bom você ouvir bem. — Ela fez uma pausa, o olhar fixo no dele. — Se algum dia, qualquer dia, você fizer essa maninha aqui chorar... por qualquer motivo que seja... eu juro por tudo que é mais sagrado que eu arranco suas bolas com minhas próprias mãos. Estamos entendidos?
Kaito congelou no lugar, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Era medo. Medo genuíno. Ele nunca tinha visto Hina falar tão sério, nunca tinha visto aquela promessa letal em seus olhos antes. Ele apenas conseguiu assentir levemente, incapaz de formar palavras.
Hina sustentou o olhar por mais um segundo, depois se virou e continuou a puxar Mio para o quarto, deixando Kaito paralisado e tremendo na sala.