Capítulo 22: A Quarta Parede
O tempo, desde a confrontação de Hina no apartamento, parecia ter se distorcido. Os dias e noites não seguiam mais uma lógica clara, e os limites entre os apartamentos e os pensamentos pareciam estranhamente permeáveis. Foi nesse estado de fluidez que uma nova presença começou a se manifestar, uma figura que parecia ao mesmo tempo familiar e externa: o Autor. Ninguém questionava sua aparição súbita nos cantos dos cômodos ou ao lado deles durante momentos de introspecção; era como num sonho, onde o absurdo se veste de normalidade. E naquela normalidade distorcida, ele era alguém importante, alguém cujas perguntas pareciam ter o poder de desvelar verdades.
(Cena: Hina está em seu quarto no apartamento, organizando algumas coisas que pegou. O Autor surge, recostado casualmente no batente da porta.)
Autor: Olá, Hina. Como está a nossa femme fatale?
Hina se vira, um sorriso lento e calculado nos lábios. Ela avalia o Autor de cima a baixo, sem pressa, um brilho divertido e desafiador nos olhos.
Hina: Ora, ora... O grande criador em pessoa. — Ela se aproxima, parando a uma distância que é ao mesmo tempo íntima e controlada. — Estou como sempre estive: no controle. E você, cansado de apenas observar?
Autor: Digamos que estou curioso. Você se considera a protagonista desta... confusão toda?
Hina: (Solta uma risada baixa e rouca) Protagonista? Que palavra limitadora. Digamos que sou uma força catalisadora. As coisas acontecem ao meu redor e, muitas vezes, por minha causa. Se isso me faz protagonista aos seus olhos... quem sou eu para discordar? — Ela pisca um olho, um gesto deliberadamente charmoso.
Autor: Entendo. E o que realmente você sente sobre Sakura e Kaito? Sentimentos genuínos ou peças em seu tabuleiro?
Hina: (Inclina a cabeça, fingindo ponderar) Sakura... é a minha Saki. Meu ponto fraco, talvez? Eu a protegeria com unhas e dentes, mesmo que ela me tire do sério às vezes. O que sinto é... complicado. Intenso. Protetor. Kaito? — Ela dá de ombros com uma elegância estudada. — Kaito é o Kaito. Um primo. Um garoto que cometeu um erro estúpido e previsível. Sinto pena? Talvez um pouco. Raiva pela dor que causou à Saki? Com certeza. Mas ele não ocupa muito espaço na minha mente, honestamente.
Autor: Fascinante. E você, Hina? Já se apaixonou de verdade alguma vez na vida? Aquele tipo de amor que te tira o controle?
Hina sorri novamente, um sorriso que não alcança totalmente os olhos. Ela passa a mão pelo cabelo, um gesto sensual e evasivo.
Hina: Controle é tudo, querido Autor. E o amor... bem, o amor verdadeiro é para os protagonistas das histórias românticas, não acha? Eu prefiro histórias mais... interessantes. Agora, se me dá licença, tenho coisas mais importantes para fazer do que satisfazer sua curiosidade. A menos que você tenha algo muito interessante para me oferecer em troca...
Ela lhe lança um último olhar carregado de subentendidos antes de se virar e voltar a arrumar suas coisas, dispensando-o com a mesma facilidade com que o havia acolhido.
(Cena: Kaito está na sala do apartamento, olhando para o nada. O Autor senta-se na poltrona ao lado, como um velho conhecido.)
Autor: E aí, Kaito. Noite longa?
Kaito suspira, passando a mão pelo rosto. Ele parece cansado, abatido.
Kaito: Você nem imagina, cara. Parece que tudo desmoronou de uma vez.
Autor: Como você se sente no meio de tudo isso? Perdido? Culpado?
Kaito: Tudo isso e mais um pouco. Culpado pra caramba, óbvio. Perdido, sem saber como consertar... se é que tem conserto. É um peso enorme, sabe? Ver o estrago que eu causei...
Autor: Você amava Sakura? De verdade?
Kaito: (A voz embarga um pouco) Amava. Ainda amo, eu acho. Mas do meu jeito torto, né? Olhando agora, vejo o quanto fui egoísta, o quanto não dei valor... Ela era incrível. E eu joguei tudo fora.
Autor: Então, por que cedeu para a ternura gentil de Mio? Foi só impulso?
Kaito: Foi... foi um momento de fraqueza total. Mio estava ali, tão frágil, precisando de alguém... e eu estava me sentindo sozinho também, mesmo com a Sakura ali. A gente tava meio distante... Não justifica, eu sei. Foi uma merda o que eu fiz. Ela tem essa doçura, essa... inocência que me pegou de guarda baixa. Mas foi errado. Tão errado.
Autor: E o que você acha de Hina?
Kaito estremece visivelmente, lembrando-se da ameaça.
Kaito: Hina? Hina é... intensa. Assustadora quando quer. Protetora com quem ela ama, acho. Mas ela me dá medo, cara. Principalmente agora. Acho melhor manter distância. Ela deixou bem claro o recado.
(Cena: Sakura está em seu quarto, lendo um livro. O Autor aparece sentado na beirada da cama, com um sorriso gentil.)
Autor: Olá, Sakura. Posso me sentar um pouco?
Sakura se assusta levemente, mas ao reconhecer a figura importante, seus olhos se arregalam um pouco e ela assente rapidamente, ajeitando-se.
Sakura: C-claro! O senhor... aqui? Que honra.
Autor: Como você está se sentindo? De verdade?
Sakura: (Respira fundo) Estou... melhorando. Um dia de cada vez. Ainda dói muito pensar... naquilo. Mas estou tentando. Hina tem me ajudado demais.
Autor: Está gostando de morar com Hina? Apesar de tudo?
Sakura: Sim! Quer dizer... é complicado, né? Mas ter ela aqui, cuidando de mim... me sinto segura. Ela é incrível. Mesmo que... — A voz dela falha um pouco.
Autor: Mesmo sabendo que ela não te ama da mesma forma que você a ama? Como você realmente se sente sobre isso?
Sakura morde o lábio inferior, os olhos marejando levemente.
Sakura: Dói. Claro que dói. Ouvir ela dizer... foi difícil. Mas... eu entendo. Não posso forçar ninguém a sentir nada. E a amizade dela, o cuidado dela... isso já é tanto. Eu sou grata por ter pelo menos isso. Tento focar nisso. É melhor do que ficar sozinha.
Autor: Entendo. E sobre o que aconteceu... sobre Kaito... você ainda sente algo por ele? Amor, raiva, mágoa?
Sakura: (Desvia o olhar, a dor visível em seu rosto) Sinto... muita mágoa. Raiva também. Decepção. Amor? Acho que... acho que o amor está sendo soterrado por tudo isso. Não sei se sobrou alguma coisa. Talvez só a lembrança do que achei que a gente tinha. Agora... só quero que a dor pare.
(Cena: Mio está terminando de arrumar uma pequena mala no quarto de Hina. O Autor encosta na parede próxima.)
Autor: Preparando a partida, Mio?
Mio se sobressalta, corando violentamente ao ver o Autor ali, observando-a. Ela murmura um "sim" quase inaudível.
Autor: Tudo bem com você? Você já vai voltar para casa, né?
Mio: S-sim, amanhã cedo. E... não, não está tudo bem. Mas acho que voltar pra casa é o melhor agora. Preciso... pensar. Ficar longe daqui.
Autor: Como você se sente no meio disso tudo? Culpada? Arrependida?
Mio: (Lágrimas brotam em seus olhos) Muito. Culpada, arrependida, envergonhada... Eu estraguei tudo. Magoei a Sakura, que era minha amiga... Magoei o Kaito, mesmo que ele também tenha errado... Decepcionei a Hina... Eu fui tão idiota, tão egoísta... Eu só queria... não sei o que eu queria. Atenção? Carinho? Acabei causando tanta dor.
Autor: E o que você sente por Kaito? Foi só um erro ou havia algo mais?
Mio: Eu... eu não sei. Eu me senti atraída, sim. Ele foi gentil comigo num momento em que eu estava me sentindo muito sozinha aqui. Mas... amor? Acho que não. Foi mais uma carência, uma confusão. Agora, olhando pra trás, vejo que foi um erro terrível. Não valeu a pena.
Autor: E sobre o futuro, Mio? O que você espera ou planeja?
Mio: (Enxuga as lágrimas com as costas da mão) Futuro? Agora? Só quero ir pra casa. Ficar quieta. Tentar entender como fui capaz de fazer isso. Depois... não sei. Talvez pedir perdão pra Sakura um dia, mesmo sabendo que ela talvez nunca me perdoe. Tentar ser uma pessoa melhor. Só isso. Não tenho direito de esperar muito mais agora.
Ela fecha a mala com um clique suave, o som ecoando no silêncio carregado de culpa do quarto. O Autor observa, silencioso, enquanto mais uma peça se move no tabuleiro complexo daquela história.