Capítulo 25: Encontros e Disfarces
Abrir a porta do apartamento que dividia com Kaito trouxe uma onda inesperada de sensações para Hina. Havia uma pitada de nostalgia pelo espaço familiar, mas principalmente uma sensação revigorante de liberdade, de voltar ao seu território após dias focada em Sakura. O silêncio tenso que a recebeu, ainda mais após a partida de Mio, no entanto, era um lembrete imediato de que as coisas estavam longe do normal. Kaito estava esparramado no sofá, os olhos fixos em um jogo qualquer que passava na TV, a postura defensiva mesmo de costas.
Hina sorriu para si mesma. Alguns hábitos nunca mudavam. Ela caminhou silenciosamente por trás do sofá, apoiando os antebraços nos ombros largos dele e cruzando as mãos na frente, o rosto descendo até ficar bem próximo ao ouvido dele.
— Como está meu priminho favorito? — sussurrou, a voz deliberadamente rouca e sensual.
Kaito deu um pulo, claramente surpreso e desconfortável com a proximidade súbita. Ele rapidamente removeu os braços dela de seus ombros, afastando-se um pouco. — Hina! Não precisa ficar tão perto assim.
Ela riu, um som leve e divertido. — Ah, qual é, Kai? Só estava querendo te animar um pouco. Você parece tenso.
— Não preciso que me anime — retrucou ele, virando-se no sofá para encará-la, a expressão cansada e irritada. — Como... como está a Sakura? E a... a outra? — Ele hesitou, a pergunta pairando no ar antes de explodir com mais exaltação: — Aliás, por que diabos tem duas de você agora, Hina?! — Então, baixou a voz, quase para si mesmo, num murmúrio exasperado: — Como se uma já não fosse o suficiente...
Hina apenas sorriu, um sorriso enigmático. — Ah, priminho... Não seja bobo. Não existe ninguém como eu. — Ela deu uma piscadinha lenta. — E algumas coisas na vida simplesmente não têm explicação. A gente só aceita.
Ela se afastou, começando a caminhar em direção ao corredor do banheiro, já puxando a barra da blusa que usava. — Vou tomar uma ducha quente pra relaxar da viagem... Quer dizer, da estadia na casa da Saki.
Na porta do banheiro, ela parou. Havia tirado a blusa, segurando-a casualmente sobre o peito nu, o sutiã provavelmente descartado em algum lugar pelo caminho. Todo o seu charme e sensualidade estavam concentrados naquele gesto, naquele olhar convidativo que lançou por cima do ombro. — A propósito... vou deixar a porta destrancada. Caso queira me fazer companhia... sabe, pra conversar.
Kaito apenas desviou o olhar de volta para a TV, o rosto vermelho de irritação e talvez algo mais. Ele se jogou para trás no sofá com um baque. — Você não muda nunca, Hina... — resmungou, apertando o controle remoto e aumentando o volume do jogo, numa tentativa fútil de ignorar a imagem dela e o convite implícito.
Alguns dias se passaram. A rotina no apartamento de Kaito continuava tensa, enquanto Hina parecia navegar pela situação com sua habitual (e talvez forçada) despreocupação. Naquela tarde ensolarada, ela e uma amiga, Naomi, saíam da academia do shopping, rindo e conversando sobre o treino pesado.
— Sério, aquele instrutor novo pega pesado demais! Mal consigo andar — reclamava Naomi, secando o suor da testa.
— Frescura sua, Naomi. Foi ótimo! — retrucou Hina, sentindo a adrenalina boa do exercício.
Enquanto caminhavam em direção à praça de alimentação, Naomi parou de repente, apontando discretamente para a vitrine de uma loja um pouco mais adiante. — Hina... olha ali. Aquela mulher de cabelo loiro... nossa, é muito parecida com você! Tipo, muito mesmo.
Hina seguiu o olhar da amiga e seu sorriso congelou por um instante. Lá estavam elas. Sakura, com uma postura visivelmente mais ereta e um ar mais sereno do que Hina se lembrava, conversava com a outra Hina em frente a uma loja de cosméticos. E a outra Hina... ela também parecia diferente. Menos encolhida, gesticulando enquanto falava com Sakura. A curiosidade picou Hina.
— Vamos lá ver de perto — disse ela, já caminhando na direção delas, deixando Naomi para trás por um momento.
— Olá, Saki! — cumprimentou Hina ao se aproximar, o tom casual escondendo a análise rápida que fazia. — Você está diferente... Parece bem.
Sakura se virou, surpresa, mas ofereceu um sorriso genuíno. — Hina! Oi! Estamos só dando uma olhada...
Hina então voltou seu olhar para a sua cópia. — E você também — disse, erguendo uma sobrancelha. — Parece menos tímida. O que andaram aprontando?
A outra Hina endireitou os ombros, um brilho de confiança em seus olhos azuis que Hina Original não via desde... bem, desde nunca naquela versão. — É claro — respondeu a outra Hina, a voz suave, mas firme. — Acha que eu ia ficar daquele jeito encolhido pra sempre? Afinal, você se conhece muito bem. Tive que superar minha insegurança e meu medo para poder retribuir todo o cuidado e carinho que a Saki teve por mim nesses dias.
Sakura puxando o braço da nova Hina e envolvendo com um abraço — Sabe, Hina, eu finalmente encontrei alguém que retribui o que sinto — disse Sakura olhando com ternura para Hina ao seu lado.
Hina Original soltou uma risadinha baixa, quase um deboche. — Que lindo vocês duas. Tocante.
Naomi finalmente as alcançou, olhando de uma Hina para a outra com espanto. — Meu Deus, Hina! Vocês são... idênticas! Vocês já se conhecem?
Hina Original riu alto, passando um braço pelos ombros de Naomi como se compartilhasse uma grande piada. — Conhecer? Naomi, essa aqui é minha irmã gêmea!
A amiga franziu a testa, totalmente confusa. — Irmã gêmea? Hina, você nunca me disse que tinha uma gêmea! Só tinha me falado da Mio, sua irmã mais nova!
— Ah, pois é! — Hina improvisou rapidamente, com um sorriso charmoso. — É uma longa história, sabe? Houve um acontecimento há muito tempo que separou a gente, uma coisa meio dramática... mas nos reencontramos agora, né, maninha? — Ela deu uma piscadinha quase imperceptível para a outra Hina, que apenas sustentou o olhar, sem confirmar nem negar.
Naomi então se virou diretamente para a outra Hina, que a observava com uma calma recém-adquirida. Naomi ofereceu um sorriso educado e estendeu a mão. — Nossa, que loucura! Desculpa a minha cara de surpresa. Eu sou a Naomi, muito amiga da Hina. Prazer em te conhecer! E seu nome é...?
A outra Hina retribuiu o sorriso, parecendo genuinamente natural e reconhecendo Naomi sem hesitar. — Oi Naomi, prazer te rever também. Sou eu, Hina.
O sorriso de Naomi sumindo enquanto a confusão tomava conta. Ela olhou da segunda Hina para a primeira, totalmente perdida. — Hina?! Espera... Hina também? Como assim? Vocês duas se chamam Hina? Que pais fazem isso com gêmeas?! Que estranho!
— Coisas de família excêntrica! Acontece! — Hina cortou, já querendo encerrar o assunto. Deu um tapinha no ombro da amiga. — Enfim, vamos indo, Naomi? Não queremos atrapalhar o passeio delas. A gente se fala depois, meninas!
E, antes que Naomi pudesse fazer mais perguntas, Hina a puxou pela mão, afastando-se rapidamente e deixando para trás Sakura e a outra Hina, que trocaram um olhar silencioso e talvez um pouco cúmplice diante daquela desculpa esfarrapada.
Lágrima Indesejada
O caminho de volta para o apartamento foi mais silencioso do que o habitual. Hina dispensou Naomi com uma desculpa qualquer e seguiu sozinha, a mente repassando a cena no shopping. Ao abrir a porta de casa, a atmosfera pesada e familiar a cumprimentou. Kaito perdido em frente à TV.
Desta vez, porém, Hina não sentiu vontade de provocá-lo. Havia uma estranha quietude dentro dela. Ela passou pela sala sem dizer uma palavra, ignorando a presença dele, e seguiu direto para o corredor, em direção ao seu quarto.
Kaito, percebendo o movimento periférico, virou a cabeça a tempo de vê-la desaparecer pelo corredor. Franziu a testa. Aquilo era estranho. Hina voltar e não fazer nenhum comentário, nenhuma provocação? O silêncio dela era quase mais perturbador do que suas farpas habituais. Ele deu de ombros, voltando a atenção para a tela, mas uma sensação de desconforto permaneceu.
Hina entrou em seu quarto, fechando a porta atrás de si com um clique suave que pareceu ressoar no silêncio do apartamento e dentro dela mesma. Recostou-se na madeira fria, fechando os olhos por um instante, buscando seu centro, seu controle habitual. Foi então que sentiu. Uma umidade quente e inesperada descendo por uma de suas bochechas.
Levou os dedos ao rosto, quase incrédula. Uma lágrima. Depois outra. Estava chorando? Eu? Chorando? Mas que porcaria é essa? A sensação era tão estranha, tão... errada. Forçou a mente a buscar a causa, a imagem que surgiu foi instantânea: Sakura, no shopping, o sorriso suave, o olhar cheio de uma ternura genuína direcionado... à outra. À cópia. À Hina que não era ela, mas que recebia aquele cuidado, aquela conexão.
Ridículo, pensou, a irritação começando a borbulhar por baixo daquela emoção indesejada. Sentimentalismo barato. Fraqueza. A lembrança de uma promessa antiga, feita a si mesma em algum momento difícil do passado, veio com força. Eu prometi. Nunca mais ser fraca. Nunca mais permitir que me afetassem assim. Vulnerabilidade era um veneno.
Com um gesto brusco, quase raivoso, Hina enxugou as lágrimas com as costas da mão. Respirou fundo, uma, duas vezes, recompondo a postura. Endireitou os ombros, ergueu o queixo. A máscara estava de volta no lugar, talvez um pouco mais rápido do que o normal, mas estava lá. Firme. Inabalável. Abriu os olhos, e o brilho neles era novamente o de Hina. A Hina no controle. Aquele breve lapso não podia ter acontecido.