Capítulo 26: Aniversário e Recomeços
Um ano se passou. O calendário marcava novamente o aniversário de Kaito, agora completando 26 anos. A comemoração, assim como a do ano anterior que antecedera a tempestade, era simples: alguns amigos próximos viriam mais tarde, mas por enquanto, o clima no apartamento era de uma normalidade reconquistada, ainda que peculiar. Mio agora morava ali, dividindo o espaço com Hina; ela havia se mudado do interior há cerca de um mês, buscando novos rumos na cidade grande sob o olhar (às vezes protetor, às vezes irritante) da irmã. A convivência entre Mio e Kaito era um exercício diário de diplomacia. Tentavam manter uma relação natural de primos, uma cordialidade cautelosa que pairava sobre a memória do que aconteceu, frequentemente temperada pelas provocações que Hina não resistia em fazer.
Kaito estava na sala, um olho no jogo na TV, outro no relógio, esperando a pizza que havia pedido. A campainha tocou. "Finalmente!", pensou ele, levantando-se. Abriu a porta, pronto para pagar o entregador, mas congelou.
Não era a pizza. Era Sakura. E ela não estava sozinha. Ao seu lado, sorrindo timidamente, estava a outra Hina. Sakura estava... diferente. Os óculos haviam sumido, revelando olhos castanhos que pareciam maiores, mais brilhantes. Havia uma confiança em sua postura que Kaito nunca tinha visto.
— O-oi, Saki... — gaguejou Kaito, surpreso. — Quanto tempo. Você... você está diferente.
Sakura sorriu, um sorriso genuíno e leve. — Oi, Kai. Feliz aniversário. Sim, eu mudei um pouco. — Ela levou a mão ao rosto, quase inconscientemente. — Fiz a cirurgia de correção da visão há alguns meses. Estou começando uma nova etapa, sabe? Deixando o passado para trás e olhando para frente. — Enquanto falava, ela passou um braço pela cintura da Hina ao seu lado, abraçando-a com naturalidade e carinho.
O olhar de Kaito desviou para a duplicata. — Oi, Hina... quer dizer... posso te chamar de Hina? Desculpe, é que ainda é meio estranho pra mim.
A duplicata ao lado de Sakura riu, uma risada segura, parecida com a da original, mas com um som mais melodioso.
— Oi, Kai. Pode me chamar de Hana, acho que esse nome combina melhor comigo. Não sou exatamente a prima que você conhece... mas digamos que sou uma versão melhorada. — Ela terminou com uma piscadela rápida, deixando Kaito completamente desconcertado.
Sakura se adiantou, estendendo um pacote de presente para Kaito. — Eu queria te ver hoje, Kai. Dizer que... eu quero passar uma borracha no que aconteceu. Apagar a mágoa. Eu gostaria de voltar a ser sua amiga, se você também quiser.
As palavras de Sakura, ditas com tanta calma e sinceridade, atingiram Kaito como uma onda. Os olhos dele começaram a se encher de lágrimas, a represa que ele construíra por um ano inteiro finalmente cedendo. Um choro contido, preso há muito tempo, veio à tona, soluços silenciosos sacudindo seus ombros. Ele pegou o presente com mãos trêmulas e, num impulso, puxou Sakura para um abraço apertado.
— Saki... me perdoa... por favor, me perdoa... — murmurou ele contra o cabelo dela, a voz embargada pelo choro. — Eu fui um idiota, eu sinto tanto...
Sakura retribuiu o abraço, afagando as costas dele. — Tá tudo bem, Kai. Já passou.
Quando o choro diminuiu, Kaito se afastou, enxugando os olhos, visivelmente mais leve. Ele se recompôs, respirando fundo.
— Entrem, por favor. Fiquem à vontade.
Sakura hesitou por um microssegundo, olhando para a Hana ao seu lado, que deu um leve aceno de cabeça encorajador. Elas entraram.
No momento em que pisaram na sala, Mio saiu da cozinha com um copo de suco na mão. Ao ver Sakura ali, ela paralisou, a apreensão tomando conta de seu rosto. Deixou o copo na mesinha, as mãos suando frio.
— O-oi, Saki... — gaguejou, sem conseguir encará-la diretamente.
Sakura, no entanto, sorriu para ela, um sorriso gentil e sem resquícios de raiva. Caminhou até Mio e, para surpresa da mais nova, segurou suas mãos. — Olá, Mio.
Mio ergueu os olhos, surpresa pela abordagem calma.
— Eu também queria falar com você — continuou Sakura, a voz suave. — Será que... será que eu posso voltar a ser sua amiga também?
Aquilo foi demais para Mio. As lágrimas que ela segurava brotaram instantaneamente, e ela desabou em choro, abraçando Sakura com força. — Saki! Me desculpa! Por favor, me desculpa por tudo! Eu fui horrível, eu sinto tanto, tanto...
Sakura a abraçou de volta, afagando seus cabelos. — Shhh, Mio... tá tudo bem. Já passou. Vamos colocar uma pedra bem grande em cima de tudo isso, ok?
Foi nesse momento de reconciliação chorosa que a Hina Original apareceu, vinda do corredor, com uma sobrancelha arqueada.
— Mas que tanto choro é esse? Isso aqui virou o capítulo final de novela mexicana, por acaso? — perguntou, a voz carregada de seu sarcasmo habitual. Ela olhou para Sakura e Mio abraçadas, depois para Hana parada perto delas, e para Kaito secando os olhos discretamente. — Ah... entendi. Reconciliações em massa. Que fofo.
Ela levou um dedo ao canto do olho, fingindo enxugar uma lágrima inexistente de forma bem teatral. — Agora vamos parar com a choradeira, gente! Assim não dá, senão até eu vou acabar chorando de emoção!
— Tenta ser sensível pelo menos uma vez na vida, Hina! — reclamou Kaito, fungando um pouco.
— Não adianta, Kai. Ela tem um coração de gelo — disse a Hana com um pequeno sorriso.
— Nossa! Quanta indelicadeza falar de mim assim na minha frente! — retrucou Hina, fingindo-se ofendida, mas com um brilho divertido nos olhos.
Hana então se aproximou da original, parando na frente dela e a observando com uma curiosidade intensa, quase como se a estivesse analisando cientificamente.
A Hina Original sustentou o olhar, levemente incomodada com a análise, mas sem demonstrar. — Perdeu alguma coisa por aqui? Ficou hipnotizada pela minha beleza estonteante?
Hana deu uma risada leve e confiante. — Não exatamente. Só estava curiosa. Olhar para você é como olhar para o meu passado.
— Nossa, que filosófico, e esse passado te incomoda? — provocou a original.
— Sim, um pouco — confirmou Hana. — Um passado triste e deprimente. Ainda bem que superei.
Hina riu. — E está arrependida de tudo que fizemos?
Hana sorriu, um sorriso que era quase tão malicioso quanto o da original. — Nem um pouco. Não me arrependo de nada que me trouxe até esse momento — concluiu ela, o olhar voltado para Sakura.
— Hmm. — Hina ponderou por um instante, um respeito relutante surgindo em seu olhar. — Então pelo menos temos algo em comum.
Ela se virou e foi até a geladeira, pegando duas latinhas de cerveja gelada. Voltou e ofereceu uma para Hana. — Vamos comemorar, então. Afinal, é aniversário do nosso priminho. — Ela ergueu a latinha na direção de Kaito e deu uma piscadela.
Hana pegou a cerveja, também se virou para Kaito e imitou a piscadela com perfeição.
Mio, se aproxima ao lado de Kaito e dá uma cotovelada leve nele. — Kai, acorda! Você tá aí parado com uma cara de bobão.
Kaito passou a mão na nuca, completamente sem jeito e corado. — É que... duas Hinas piscando pra mim ao mesmo tempo... é demais pra minha cabeça!
Uma risada geral tomou conta da sala, quebrando a última camada de gelo. Hina Original riu com gosto, Hana acompanhou com um sorriso charmoso, Sakura riu aliviada, Mio deu uma risadinha tímida e até Kaito conseguiu rir de si mesmo. O entregador da pizza chegou logo depois, e o aniversário seguiu naquele clima agridoce e estranhamente normal – uma mistura de piadas, lembranças veladas, provocações sensuais das duas Hinas, e a promessa de um recomeço complicado, mas possível.
Fim.
Fim? Como assim, "Fim"? Acabou?
Bem... sim Hina. A história chegou a uma conclusão satisfatória para os personagens...
Satisfatória pra quem? Eu mal comecei a me divertir com essa minha cópia que se acha melhor que eu! E ainda tem muita coisa mal resolvida aqui! Autor, podemos conversar sobre uma sequência?
Talvez, ou quem sabe seu passado?
Não se atreva a tocar no meu passado sem minha expressa autorização. Ou você vai descobrir que ser expulso da narrativa foi só o começo.
N-não! Claro que não! Sem sua autorização, jamais! A história termina aqui! Definitivamente!
Hmm... acho bom, então. Fim. (Talvez, Hina dá uma piscadela para o leitor.)