Capítulo 1: A Heroína Inesperada
O ar no Grande Salão da Invocação crepitava, pesado com o cheiro de ozônio e de magia antiga. No centro do piso de mármore, um mosaico intrincado de runas pulsava com uma luz ofuscante, uma ferida de pura energia aberta no tecido do mundo. O Rei Theron IV, com a mão suada sobre o punho da espada cerimonial, observava a cena ao lado de seus magos mais poderosos, cujas vestes bordadas pareciam pequenas diante da pressão palpável no ar. A guarda real, postada nas galerias de pedra, segurava suas lanças com os nós dos dedos brancos. Aethelgard prendia a respiração.
A luz atingiu um clímax insuportável, forçando todos a desviarem o olhar. E então, com um silvo que parecia sugar todo o som do salão, a luz implodiu, deixando para trás um silêncio denso e uma névoa leitosa que se agitava no centro do círculo rúnico.
O Alto Mago Elara, um homem cuja barba parecia conter a poeira de séculos, deu um passo à frente, os olhos fixos na névoa.
— Dois...? A profecia... não menciona dois...
O Rei Theron se adiantou, endireitando os ombros, a voz projetada para soar firme e régia.
— Saudações, nobres heróis de outro mundo! Eu sou o Rei Theron. Nosso reino, Aethelgard, enfrenta uma ameaça terrível, e nós os invocamos para...
Sua fala morreu nos lábios. A névoa se dissipou, revelando as duas figuras. A primeira era um garoto, talvez com dezessete anos, vestindo um conjunto de roupas escuras e estranhamente uniformes que ninguém ali reconhecia. Seus olhos estavam arregalados em pânico e confusão, o corpo encolhido como se esperasse um golpe. A segunda... era uma mulher. Alta, de uma beleza estonteante que parecia fora de lugar e, ao mesmo tempo, comandava o espaço. Usava um vestido vermelho-sangue que abraçava suas curvas de forma audaciosa, um contraste gritante com a solenidade do salão. Ela não parecia nem confusa, nem assustada. Parecia entediada.
— Meu nome é Hina — disse ela, a voz calma e melodiosa, mas cortante. Ela não olhava para o rei, mas para o nada, um ponto vazio acima da cabeça dele. — E que história é esse de me trazer aqui?
Erguendo uma sobrancelha e cruzando os braços.
— Não, eu não estou olhando para o nada — continuou Hina — Estou olhando para você, Autor. E você não é o “meu” autor, onde está Lucas?
“O Autor para por um instante de escrever, lendo com espanto o que acabara de escrever. Como assim, falando comigo? A frase atravessou a consciência do narrador como um raio, um curto-circuito nas regras da própria criação. Eu não a trouxe aqui, a história é sobre o Ren. Estou ficando louco? Quem é ela? Como ela pode...?”
Hina riu baixo, um som que ecoou no silêncio mortal do salão.
— Talvez esteja. Ou talvez não — continuou ela, falando para o ar e ignorando completamente a realeza à sua frente. — Bom, se não foi você, então a coisa começa a ficar interessante.
Os guardas apertaram suas lanças. Os magos se entreolharam, apavorados. O Rei Theron franziu a testa, o choque inicial dando lugar a uma profunda perplexidade.
— Autor...? Senhora, com quem está falando?
Ren, o outro invocado, finalmente se afastou de Hina, olhando para ela como se ela fosse a criatura mais perigosa que ele já vira.
O medo no salão era palpável. O Alto Mago Elara se aproximou do rei, a voz um sussurro trêmulo.
— Majestade... ela fala com entidades que não podemos ver. O ritual... algo deu terrivelmente errado. Ela não emana a auro do herói, talvez seja uma espiã de Malakor.
Ren finalmente encontrou coragem para dizer algo, gaguejando.
— Onde... onde nós estamos? O que está acontecendo?
Mas ninguém estava prestando atenção nele. Todos os olhos estavam cravados em Hina, a mulher que conversava com o invisível e se portava com a autoridade de quem era dona não apenas do salão, mas da própria cena.
O rei, tentando desesperadamente retomar o controle, ergueu o queixo.
— Vocês foram invocados, conforme a Grande Profecia, para nos ajudar a derrotar o Lorde Demônio Malakor, o Devorador de Sombras, que ameaça consumir nosso mundo!
Hina virou o rosto para ele pela primeira vez, e uma gargalhada cristalina e debochada encheu o salão.
— Malakor? É sério? Isso parece nome de remédio para tosse.
Ela continuou rindo, um som genuinamente divertido que era um insulto à gravidade do momento.
— Minha jovem, não há motivos para graça! — bradou o rei, o rosto vermelho de indignação. — Malakor é o fim de todas as coisas! Não podemos perder tempo com brincadeiras! — Ignorando-a, ele se virou para Ren. — Meu jovem, qual é o seu nome? Que poder você possui para nos ajudar nesta guerra?
— M-meu nome é Ren — respondeu o garoto. — E eu... eu não tenho poder nenhum, eu acho.
Um zumbido de vozes ansiosas se espalhou pelas galerias do castelo, um misto de espanto e desespero.
— Um herói sem poderes? E uma louca?
— Silêncio! — ordenou o rei, e a ordem foi obedecida. Hina apenas observava tudo com um sorriso de canto de boca, como alguém assistindo a uma peça de teatro previsível, mas divertida.
O Alto Mago se aproximou de Ren, os olhos brilhando por um instante.
— Majestade, o garoto emite uma energia latente. Um poder que ainda não conseguimos identificar, mas ele está aqui. Já a mulher... — Ele olhou para Hina. — Não emana absolutamente nada. Nenhum sinal de poder.
— Então levem o herói até os aposentos dele, e prendam a louca! — Ordenou o rei.
— O que? Louca? Escute aqui... — começou Hina, mas foi interrompida.
Um assobio agudo e crescente cortou o ar, vindo de cima. Um barulho de rocha se partindo, um grito de pânico de um guarda na varanda. Todos olharam para o teto abobadado de vidro e cristal.
Lá fora, descendo do céu como uma estrela negra, estava uma massa de energia sombria e rochosa — um Meteoro da Entropia, lançado por um dos generais de Malakor como um "presente de boas-vindas".
O pânico explodiu. Guardas gritavam ordens, nobres corriam em busca de abrigo. O teto de cristal se estilhaçou para dentro, e o meteoro, envolto em uma aura sombria, despencou em direção ao centro do salão.
É o caos absoluto. Gritos, o som de vidro se partindo, a poeira subindo. O impacto é iminente.
E então, tudo parou.
No meio do pandemônio, Hina, com uma calma que desafiava a cena apocalíptica, ergueu uma mão. O meteoro congelado no ar, a centímetros de atingir o chão. Os cacos de vidro pararam de cair. A poeira assentou. O som desapareceu.
Sua voz ecoou pelo salão. Não era sua voz normal. Era onírica, ressonante, como se viesse de todos os lugares e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Era a voz da Narradora.
"Não, não, não. Que clichê. Um ataque surpresa logo no começo? Preguiçoso e covarde. Vamos tentar de novo, com um pouco mais de... elegância."
Enquanto sua voz ecoava, a cena se rebobinou diante dos olhos de todos, como um filme sendo passado ao contrário. Os cacos de vidro voaram para cima, reconstituindo o teto perfeitamente. A poeira voltou para o chão. O meteoro, a aterrorizante massa de destruição, simplesmente... desapareceu. Não explodiu, não foi jogado para longe. Ele deixou de existir, como se fosse apagado de uma página.
"Ah, bem melhor. Um céu limpo e um salão intacto. Onde estávamos?"
O silêncio que se seguiu foi mais profundo e esmagador do que o caos de um segundo atrás. Todos — o rei, os magos, os guardas e até mesmo Ren — encaram Hina com um medo primordial. Seus rostos estavam pálidos, os olhos arregalados em choque e terror.
O Alto Mago, tremendo, balbuciou as palavras que dariam um nome ao medo deles.
— Isso... isso não é magia... Ela... Ela é... a Bruxa da Realidade.