Capítulo 3: Mentora Caótica
Os aposentos na Torre Leste eram o que qualquer nobre chamaria de luxo absoluto. Tapeçarias de seda adornavam as paredes, móveis de madeira entalhada repousavam sobre tapetes macios, e a vista da janela panorâmica era de tirar o fôlego, mostrando a capital de Aethelgard em toda sua glória. Para Hina, era uma gaiola dourada. E o tédio era uma praga que nem mesmo o melhor vinho do reino conseguia curar.
Já haviam se passado três dias desde o "interrogatório" no Salão do Trono. Ninguém ousava incomodá-la. Refeições apareciam silenciosamente do lado de fora de sua porta, e os guardas postados no corredor pareciam mais aterrorizados com ela do que prontos para impedi-la. Com um suspiro dramático que ecoou no silêncio opressor, ela se levantou. "Chega de ser uma donzela na torre", murmurou para o quarto vazio. "Hora de ver o que o meu 'herói' anda aprontando."
Ela saiu dos aposentos com a confiança de quem era dona do castelo. Os guardas no corredor enrijeceram, mas nenhum deles moveu um músculo para detê-la enquanto ela descia as escadas em espiral, o vestido vermelho balançando a cada passo.
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O som de metal contra metal a guiou até o pátio de treinamento. A cena que encontrou era, em uma palavra, patética. Ren, vestindo uma armadura de couro que parecia grande demais para ele, empunhava uma espada com a graça de um peixe se afogando. Diante dele, um cavaleiro de aparência severa, provavelmente o instrutor, suspirava com a paciência de um santo no limite.
— Não, Herói Ren! — corrigiu o cavaleiro pela enésima vez, a voz carregada de uma exaustão contida. — Você precisa antecipar o golpe, não reagir a ele! Mantenha a postura! Os pés firmes!
Ren tentou, mas tropeçou nos próprios pés, quase deixando a espada cair. Ele se desculpou com um gaguejo, o rosto vermelho de vergonha.
Hina se encostou em um dos arcos de pedra que cercavam o pátio, os braços cruzados, um sorriso de puro escárnio surgindo em seus lábios. Ela assistiu por mais cinco minutos, cada um mais doloroso que o anterior. Finalmente, não aguentou mais.
— O que é isso? — A voz dela cortou o ar, melodiosa e cheia de veneno. — Uma aula de como se desculpar para a espada do inimigo?
Todos no pátio congelaram. O cavaleiro instrutor se virou, a mão instintivamente indo para o punho de sua própria espada ao vê-la. Ren parecia que ia desmaiar.
— Senhora Hina... — começou o cavaleiro, hesitante. — Este é o treinamento oficial do Herói...
— Oficialmente um desastre — completou Hina, caminhando lentamente para o centro do pátio. Ela circulou Ren como um predador estudando sua presa. — Olhe para ele. Ombros curvados, olhar baixo, segurando a espada como se fosse uma bengala. Vocês não estão treinando um herói, estão ensinando um cordeirinho a ser abatido com mais eficiência.
Ren engoliu em seco. — E-eu estou tentando!
— Tentar não salva um reino, querido — retrucou ela. Ela parou na frente dele, o rosto a centímetros do seu. — A partir de hoje, seu treinamento é meu. Dispensado, cavaleiro.
O instrutor olhou para ela, depois para Ren, claramente em conflito, mas o medo nos olhos dele venceu. Com uma reverência rígida e apressada, ele se retirou, deixando os dois sozinhos no pátio.
— Solte a espada — ordenou Hina.
Ren obedeceu, deixando a arma cair com um baque no chão de pedra.
— Ótimo. Agora, primeira lição: postura. — Ela deu um tapa seco nas costas dele. — Endireite-se! Ombros para trás, queixo para cima. Você foi invocado para salvar o mundo, não para pedir esmolas.
Ren se endireitou, desconfortável.
— Olhe para mim. Nos olhos. — A voz dela era um açoite. Ren ergueu o olhar, mas o desviou rapidamente. — Eu disse, olhe para mim! — insistiu ela. Ele a encarou, o coração martelando. — Bom. Agora me diga: por que você está aqui?
— P-para derrotar o Lorde Demônio Malakor...
— Errado. — cortou Hina. — Isso é o que eles querem que você faça. Eu perguntei por que você está aqui. O que você quer? Fale!
Ren ficou em silêncio, atordoado pela pergunta. Ele nunca havia parado para pensar nisso. Hina o observava, e por trás da fachada de femme fatale, ele viu um lampejo de... algo mais. Não era crueldade. Era um teste. Ela o estava forçando a pensar, a se encontrar. E, por mais intimidante que fosse, ele percebeu que, pela primeira vez desde que chegou, alguém não o via apenas como o "Herói", mas como uma pessoa.
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Na câmara privada do Rei, o Alto Mago Elara materializou-se de uma névoa de luz azulada, o rosto vincado de preocupação.
— Majestade. Bruxa... ela deixou seus aposentos.
O Rei Theron, que olhava para um retrato da falecida rainha, virou-se lentamente. — E ninguém a impediu, presumo.
— Ninguém ousaria, meu senhor. Ela está no pátio de treinamento com o Herói Ren.
O rei suspirou, a mão apertando o medalhão que usava no pescoço. — A profecia sobre a Bruxa... Elara, não podemos arriscar. Se ela é uma entidade sádica brincando conosco, precisamos saber. Se ela planeja trair-nos, precisamos estar preparados.
— O que sugere, Majestade?
— Você mencionou um mago em sua ordem... Mestre Corvus. O mais habilidoso em feitiços de ocultação e invisibilidade. Designe-o para vigiá-la. Quero saber cada passo, cada palavra. Que ele seja nossa sombra, nossos olhos e ouvidos.
Elara fez uma reverência. — Será feito, meu senhor.
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O "treinamento" continuou. Hina forçava Ren a andar pelo pátio mantendo contato visual, a falar com uma voz firme, a projetar uma aura de confiança que ele não sentia. Era exaustivo e humilhante.
— Inútil! — gritou ela, depois que ele gaguejou ao tentar se apresentar para uma estátua de gárgula. — De novo! Com convicção! Imagine que esta gárgula é o tal Lorde Tosse. Você vai pedir com licença para matá-lo?
A frustração finalmente ferveu dentro de Ren. — Isso é ridículo! Como isso vai me ajudar a lutar?
— A batalha primeiro se vence aqui — disse Hina, tocando a própria têmpora com um dedo. — Se sua mente é fraca, seu braço não serve para nada. Agora, olhe para mim quando eu falo com você, Herói!
A intensidade no comando dela o desequilibrou. Ren deu um passo para trás, tropeçando em uma pedra solta. A tentativa de recuperar o equilíbrio foi inútil; seus pés se enroscaram e ele caiu para trás com um grito abafado, o corpo batendo com força no chão de pedra do pátio.
No instante em que caiu, uma onda de energia invisível, silenciosa e absoluta, emanou do corpo de Ren, expandindo-se em um círculo perfeito a partir do ponto onde ele estava. A ondulação varreu o pátio como uma maré fantasma, passando por Hina como um sopro.
Ela sentiu um vento frio, um vácuo súbito no ar, uma sensação de nada que durou menos de um piscar de olhos. E então entendeu qual era o poder de Ren.
Do outro lado do pátio, também atingido pela onda, surgiu alguém que estava oculto por magia. O espião se assustou quando Ren e Hina olharam para ele; caiu para trás, atrapalhado, e tropeçando na própria túnica, correu e sumiu novamente em fuga.
Ren olhou para sua própria mão, depois para o local onde o mago havia aparecido. Ele não entendeu absolutamente nada do que acabara de acontecer. — O-o quê...? Quem era...?
Hina não respondeu. Ela não estava mais sorrindo. Seu rosto, pela primeira vez, mostrava uma expressão de genuína e afiada intriga. Seus olhos azuis se estreitaram, analisando Ren.
Ao mesmo tempo, na câmara do Rei, Elara ouvia o relato ofegante e aterrorizado de seu espião. O rosto do Alto Mago ficou pálido, mas seus olhos brilharam com uma compreensão súbita e terrível.
— Anulação de magia... — sussurrou Elara para si mesmo, o peso da revelação caindo sobre ele. — O poder do Herói... é anular a magia.