A reunião do conselho: “o que você vai dar pra Selena?”
Férias chegaram. A escola virou lembrança. O mundo entrou no modo “Natal”.
E Ren… entrou no modo pânico.
Na sala de casa, Bianca e Lívia formaram um tribunal improvisado.
Bianca estava largada no sofá com o celular na mão, postura oficial de “irmã especialista em te zoar”. Lívia sentou do outro lado com aquele ar de quem finge que é só curiosidade, mas na verdade está levando aquilo como se fosse uma prova final.
Bianca abriu o julgamento com um sorriso venenoso:
— Então, Ren… o que você vai comprar pra Selena de Natal?
Ren travou, como se tivesse tomado dano psíquico.
— Eu… ainda tô pensando.
Lívia cruzou os braços, séria de um jeito quase maternal:
— Você tem que dar alguma coisa. Ela vai ficar feliz. E… você sabe… é importante.
Ren engoliu seco.
— Eu sei.
Bianca começou a listar ideias como se estivesse abrindo uma loja de itens:
— Tá. Primeiro: perfume.
Ren imaginou Selena encarando o frasco como uma poção rara… e despejando metade no pescoço antes de sair de casa.
(Pensamento do Ren: Ela vai intoxicar um bairro inteiro.)
— Não.
Lívia sugeriu, tentando ser fofa:
— Um colar.
Ren já viu a cena: Selena usando o colar como “amuleto de proteção contra ogros” e encarando a fila do mercado como se fosse um corredor de dungeon.
(Pensamento do Ren: Ela vai intimidar idosos com um colar brilhante.)
— Não.
Bianca levantou outro item:
— Um vestido bonito.
Ren teve a visão exata: Selena usando o vestido como “roupa de infiltração”, tentando correr, pular, subir em coisas… e rasgando o tecido na primeira esquina.
(Pensamento do Ren: Ela vai transformar vestido em trapo de guerra em 12 minutos.)
— Também não.
Lívia respirou fundo e tentou o golpe final, com aquele tom de “agora vai”:
— Uma… lingerie.
Ren ficou vermelho num nível radioativo.
— NÃO!
Bianca gargalhou.
— Covarde.
Ren colocou as mãos na cabeça.
— Vocês não entendem! Qualquer coisa que eu der… ela vai usar do jeito errado!
Lívia revirou os olhos.
— Ren, ela te ama. Ela vai gostar.
Ren baixou a cabeça, derrotado. E, no meio do desespero, o cérebro dele achou uma lembrança como quem encontra uma chave esquecida no inventário.
Selena, várias vezes, encarando o celular dele como se fosse um artefato sagrado:
“Como funciona esse item mágico?”
“Você consegue falar com os membros da party por aqui?”
“Isso teria sido muito útil nas aventuras.”
Ren levantou a cabeça devagar, como quem acabou de desbloquear uma solução.
— Um smartphone.
Bianca piscou.
— Isso é… até inteligente.
Lívia, surpresa, sorriu pequeno.
— Ela vai amar.
Ren sentiu um alívio do tamanho de um feriado.
[Nota do narrador: ele finalmente fez uma decisão sem causar um incêndio social. Um recorde.]
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O presente: “Artefato de comunicação adquirido”
Na noite de Natal, Selena abriu o presente com cuidado, como quem abre um relicário.
Viu a caixa. Viu o brilho. Viu o objeto.
— Um… novo item mágico? perguntou, com os olhos brilhando.
Ren coçou a nuca, tímido.
— É. Quer dizer… é um celular. Mas… é o seu.
Selena segurou com as duas mãos, reverente.
— Meu…
Ela olhou pra Ren como se ele tivesse dado a ela uma espada lendária.
— Isso… é incrível.

Bianca estalou os dedos, já assumindo o cargo de instrutora:
— Tá. Agora vem a parte difícil: ensinar.
Ren sentiu o suor nascer.
(Pensamento do Ren: Eu mal sei explicar isso pra mim mesmo.)
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Tutorial: Bianca tenta explicar “como ser adolescente”
Bianca pegou o celular e começou a explicar com paciência de irmã… que durava, no máximo, trinta segundos por tópico.
— Isso aqui é pra mensagem. Isso aqui é pra ligação. Isso aqui é…
Selena observava como se estivesse aprendendo runas antigas. Ela não piscava. Ela não desviava. Ela absorvia.
Bianca então falou com uma seriedade exagerada, a mesma seriedade que só quem tem treze anos consegue fingir que é natural:
— E olha: conseguir contatos é uma das quests mais importantes pra um adolescente.
Ren fechou os olhos.
— Bianca…
Selena endireitou a postura.
— Entendido. Quest prioritária: contatos.
Ren abriu os olhos, alarmado.
— Não, Selena, ela tá brincando.
Selena já estava anotando mentalmente.
— Não parece brincadeira.
Bianca colocou a mão no ombro dela, solene:
— Não é.
Ren quis morrer ali mesmo.
Selena começou pelo óbvio.
Em cinco minutos, ela tinha os contatos de:
Ren
Bianca
mami
papi
Ela olhou a lista, satisfeita.
Então levantou devagar.
— Próximo objetivo: membros da party.
Ren apontou, desesperado:
— Selena… calma!
Selena já estava indo em direção à porta como quem sai pra caçar dragões.
— Eu volto em breve.
Bianca riu.
— Ela vai fazer “missão social” na rua?
Ren engoliu seco.
— Ela vai atrás de Caio, Davi e Lívia.
Bianca deu de ombros.
— Isso é fofo.
Ren, pálido:
— Isso é aterrorizante.
[Nota do narrador: as duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. O universo gosta dessa modalidade.]
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A missão: “coletar contatos”
Selena conseguiu.
Claro que conseguiu.
Ela voltou triunfante, como se tivesse derrotado um boss e ainda pegado loot raro.
— Consegui o contato do Caio. Ele falou “DEUSA” e caiu de joelhos de novo.
Ren suspirou.
— Normal.
— Consegui o do Davi. Ele perguntou se eu ia comprar o número dele também.
Ren fez uma careta.
— E a Lívia?
Selena deu um sorriso pequeno.
— Ela ficou vermelha… mas deu.
Ren sentiu um alívio estranho.
(Pensamento do Ren: Ok… isso foi… até normal.)
[Nota do narrador: foi normal para os padrões da Selena, o que não significa que seja normal.]
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Runas da mensagem: Ren ensina… e se arrepende
Mais tarde, já deitados, Selena ficou olhando a tela como se fosse um universo portátil.
— Ren… essas runas… por que existem tantas?
Ren olhou por cima do ombro dela.
— Emojis.
Selena apontou para um coração.
— Runa de afeto.
— Isso.
Ela achou um foguinho.
— Runa de… fogo interior.
Ren tossiu.
— Mais ou menos.
Ela achou um sorriso com gota.
— Runa de nervosismo.
Ren ficou sem jeito.
— Isso aí é mais “vergonha”.
Selena testou na prática, mandando mensagem pro Ren… mesmo ele estando do lado dela.
Selena: “Boa noite ❤️🔥🙂💧”
Ren leu e sentiu o rosto esquentar.
— Selena… a gente tá na mesma cama.
Selena virou, séria:
— Eu estou praticando.
Ren não conseguiu segurar um sorriso.
(Pensamento do Ren: Ela tá genuinamente feliz.)
Selena ficou mais animada ainda, os olhos brilhando como se tivesse encontrado magia infinita.
— Eu posso falar com todos… a qualquer momento.
Ren levantou a mão, rápido, como quem tenta fechar um portal que acabou de abrir.
— Selena. Não exagera.
Selena sorriu, dócil:
— Não vou exagerar.
Ren acreditou.
Erro clássico.
[Nota do narrador: “acreditar” é uma habilidade que o Ren usa sem ler a descrição.]
[Nota do autor: “Eu também faço isso”]
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Falha crítica: manhã seguinte
No dia seguinte, Ren acordou e viu Selena com a cara acabada.
Olheiras leves. Cabelo meio bagunçado. O olhar distante de quem viu o infinito… em forma de notificações.
Ren sentou devagar.
— Selena… você… dormiu?
Selena bocejou, abraçada ao celular como se fosse um tesouro.
— Um pouco.
Ren estreitou os olhos.
— Um pouco quanto?
Selena respondeu com sinceridade devastadora:
— Eu precisava testar as runas. E as respostas. E os grupos. E os horários. E…
Ren afundou na cama.
— Você passou a noite inteira no celular.
Selena assentiu, culpada e feliz ao mesmo tempo.
— Ele é muito poderoso.
Ren colocou a mão na testa.
(Pensamento do Ren: Eu dei a ela um artefato lendário.)
(Pensamento do Ren: Eu criei um monstro digital.)
Selena virou o rosto pra ele e sorriu daquele jeito leve que desarma qualquer bronca.
— Obrigada, Ren. Esse foi o melhor presente.
Ren olhou pra ela, derrotado… e feliz.
— Tá… só… por favor… dorme hoje.
Selena pensou, séria.
— Entendido. Hoje eu durmo.
Ren fechou os olhos, já sabendo o que vinha:
(Pensamento do Ren: ela vai falhar.)
Selena abraçou ele de lado, ainda com o celular na mão.
— Mas antes… só mais uma mensagem.
Ren gemeu.
— Selena…
Ela digitou com concentração ritualística.
Selena: “Controle-se ❤️”
Ren ficou vermelho.
E percebeu, com uma clareza perigosa:
Ele não conseguia mais imaginar a vida sem ela.