O clima estranho: “vocês tão com cara de side quest”
Caio e Davi estavam esquisitos há dias.
Não era o “esquisito normal” deles. Era outro tipo. Um esquisito de quem tá segurando segredo, ansiedade e um pacote de salgadinho ao mesmo tempo.
Ren percebeu quando os dois apareceram na porta de casa com a postura de quem vai anunciar guerra.
— Ren… Caio começou, coçando a nuca. A gente… precisa falar uma coisa.
Davi cruzou os braços, sério:
— É sobre as férias. Sobre a tradição.
Ren piscou.
— Tradição?
Caio respirou fundo, dramático como sempre:
— Você lembra… que nas férias a gente sempre ia pra aquela casa abandonada? A gente acampava, jogava RPG, comia muito salgadinho, se entupia de refrigerante… fazia piada nerd…
Davi completou, com a solenidade de um padre de templo antigo:
— Era nosso templo.
Caio baixou a cabeça, como se estivesse perdendo um item lendário:
— Só que… agora você tem namorada.
Ren riu, sincero.
E o mais assustador foi perceber que a risada saiu fácil. Natural. Como se a palavra “namorada” já estivesse instalada no vocabulário dele fazia anos.
— E daí? Só porque eu tenho namorada…
Caio e Davi arregalaram os olhos.
Ren percebeu e ficou vermelho.
(Pensamento do Ren: eu falei “namorada” sem morrer.)
— …não significa que a gente não é mais os mesmos. Claro que podemos acampar. A gente só precisa…
Ele ia dizer “só precisa combinar direitinho”.
Ia.
Porque Selena, sentada no sofá, ouviu a palavra mágica:
acampamento.
Ela levantou a cabeça como um boss acordando no meio do mapa.
— Acampamento?
Ren congelou.
Caio fez uma careta de “não”.
Davi fechou os olhos de “não”.
Ren pensou “NÃO” com letras em chamas.
Selena sorriu, animada:
— Ótimo. Vou chamar as meninas também.
Ren deu um passo desesperado:
— Selena, não, isso é uma tradição dos…
Tarde demais.
O celular de Ren vibrou. Depois vibrou de novo. Depois vibrou em sequência como se estivesse tendo um ataque.
Notificação:
Grupo criado: “Missão Acampamento do Ren”
Ren piscou devagar, assistindo a própria vida ser deletada em tempo real.
Você foi adicionado.
Ren. Caio. Davi. Bianca. Lívia.
E… outros colegas da turma.
Caio olhou para o celular com a cara de alguém assistindo o próprio enterro.
Davi murmurou:
— O templo sagrado… vai ser profanado.
E o pior:
A galera começou a responder no grupo.
“EBAAA!”
“Boraaaa!”
“Vai ter comida?”
“Que horas?”
“Eu levo marshmallow!”
Ren sentiu o chão se afastar.
(Pensamento do Ren: Eles estão aceitando. Estão CONFIRMANDO. O santuário vai cair.)
Selena, feliz, digitou:
Selena: “Missão confirmada. Preparar inventário.”
[Nota do narrador: o santuário não tinha muralhas suficientes para resistir a um grupo de WhatsApp.]
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Dia da missão: a floresta, a casa e o brilho nos olhos dela
No dia do acampamento, o grupo chegou na trilha como uma expedição estranha:
Metade achando que era um rolê.
Metade achando que era uma “quest”.
Selena estava no modo máximo. O cabelo claro dela brilhava no sol como se a natureza estivesse dando buff visual de graça. Ela olhava para as árvores como quem procura inimigos escondidos em hitbox invisível.
— Aqui… tem monstros?
Caio tentou rir.
— “Monstros” tipo… pernilongo.
Selena apertou os olhos.
— Criaturas pequenas. Venenosas.
Davi apontou para a mata, alimentando o caos com naturalidade assustadora:
— À noite tem barulho. Dizem que tem coisa esquisita.
Selena ficou ainda mais empolgada.
— Perfeito. Dungeon ativa.
Ren tentou manter tudo sob controle:
— Selena, lembra: sem magia em público.
Selena assentiu.
— Entendido. Magia… só se for emergência.
Ren respirou.
(Pensamento do Ren: isso vai virar emergência.)
A casa abandonada apareceu, do jeito que sempre foi: velha, meio torta, com aquele ar de “não devia estar aqui, mas tá”.
Caio e Davi ficaram parados por um segundo, quase nostálgicos.
— Era aqui, Caio disse, sorrindo. O templo.
As meninas olharam ao redor.
— Vocês acampavam aqui? Vocês eram… muito estranhos, uma comentou, rindo.
Davi, sério:
— Nós éramos felizes.
Selena tocou a parede velha, como se estivesse sentindo a história.
— Lugar de rituais.
Ren suspirou.
— De… RPG.
Selena assentiu como se fosse sinônimo.
— Sim. Rituais.
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O “profano” vira… divertido
No começo, Caio, Davi e Ren estavam meio contrariados. O acampamento parecia prestes a perder a graça.
Mas aos poucos… algo aconteceu.
Caio começou a explicar o RPG para duas colegas da Lívia, sendo ele mesmo. Sem tentar pagar de “legal”. Só nerd de verdade.
E por algum motivo… funcionou.
— Então você cria um personagem? Uma delas perguntou.
Caio abriu um sorriso genuíno.
— Isso. E aí você escolhe a classe, os poderes, e…
Davi entrou na conversa, inesperadamente animado, descrevendo monstros e mapas com detalhes absurdos, como se estivesse abrindo um bestiário pessoal.
As meninas riam, faziam perguntas, criavam personagens.
Ren viu Caio e Davi se aproximando delas sem perceber.
Sem “tática”. Sem desespero.
Apenas… sendo eles.
Ren pensou:
(Talvez… isso não seja o fim do mundo.)
Selena, por outro lado, levava tudo muito a sério.
Ela sentou na roda, ouvindo a história, e de vez em quando soltava:
— Isso não é eficiente.
— Esse monstro seria derrotado com fogo.
— O mago não deveria estar na linha de frente.
O grupo principal entendia: Selena não tava brincando.
As outras meninas achavam que era atuação.
— Ela é muito no personagem! alguém comentou, encantada.
Ren riu, nervoso.
— É… ela é… comprometida.
[Nota do narrador: comprometida é uma palavra gentil para “planeja a estratégia como se o mato pudesse declarar guerra”.]
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Emergência: Bianca se machuca
A tarde foi passando bem.
Até que Bianca resolveu explorar um trecho da trilha perto da casa, subindo numa parte de pedra para tirar foto.
Ren ouviu o som antes do grito.
Um escorregão.
Um “AI!” alto.
E então Bianca voltou mancando, o joelho ralado feio, sangue aparecendo, o tornozelo torcido de um jeito que não dava pra fingir.
— Bianca! Ren correu, desesperado.
Caio e Davi levantaram.
Lívia ficou pálida.
As meninas se aproximaram, assustadas.
Bianca tentou rir:
— Tá tudo bem… só…
Ela quase caiu.
Ren segurou.
Selena apareceu do lado dela num segundo, e os olhos dela mudaram.
Mudaram de “modo escola” pra “modo batalha”.
— Ela está ferida.
Ren engoliu seco.
— Selena… sem magia…
Selena olhou para ele com um foco que cortava.
— Emergência.
Ren travou.
Selena se ajoelhou, colocou a mão perto do machucado e sussurrou algo baixo, como se conversasse com o mundo.
Um brilho rápido. Pequeno. Discreto.
A dor no rosto de Bianca diminuiu. A respiração dela ficou mais leve. O corte pareceu “fechar” mais do que deveria. O tornozelo… ainda doía, mas já não parecia quebrar ela.
Bianca arregalou os olhos.
— Ren… o que foi isso?
A roda inteira ficou em silêncio.
As meninas pararam de rir.
Caio engoliu seco.
Davi encarou Selena como quem percebe que a lenda é real.
Bianca olhou para Selena, tremendo:
— Você… você não tá brincando.
Selena apenas sorriu, como se tivesse feito algo normal.
— Eu não gosto de ver membros da party machucados. Magia de cura não é minha especialidade mas consigo ajudar com torsões e arranhões.
Bianca ficou uns segundos muda. Depois olhou para Ren com expressão de “você escondeu isso de mim”.
— Ren… ela é… real.
Ren tentou responder, mas Bianca apontou para a bolsa de Selena, lembrando de tudo.
— Espera… eu devia ter percebido. Ninguém carrega barras de ouro numa bolsa pequena e é normal.
Ren abriu as mãos, como se dissesse: “tá vendo?”
Bianca respirou fundo, como se aceitasse uma verdade nova sobre o universo.
E então, muito baixinho, ela falou pra Ren, séria:
— Cuida bem dela.
Ren sentiu o coração apertar.
Ele assentiu.
— Eu… tô tentando.
Selena olhou os dois sem entender completamente o peso da frase… mas encostou no braço de Ren, como quem diz “eu tô aqui”.
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Epílogo do acampamento: profanado… ou santificado?
À noite, em volta da fogueira, com Bianca já melhor e todo mundo comendo besteira como se fosse banquete, Caio e Davi estavam diferentes.
Não era mais desespero.
Era… paz.
Caio olhou para as meninas rindo, jogando RPG, Selena ouvindo com atenção séria demais e Ren sorrindo do jeito mais raro dele.
Caio falou baixo:
— Ren…
— Hm?
Caio encarou o fogo, pensativo.
— Acho que nosso santuário não foi profanado.
Davi completou, como se fosse um veredito final:
— Foi santificado.
Ren riu de leve.
Selena, ouvindo a palavra, ficou feliz e não sabia por quê.
— Santificado é bom.
Caio olhou pra ela e levantou o copo de refrigerante como se fosse um brinde.
— É.
E por um segundo, o mundo pareceu… simples.
Ren olhou para Selena e percebeu que, mesmo com todo o caos, com toda a vergonha, com todos os “pervertido”, com todos os desastres…
A vida dele tinha ficado maior.
E talvez isso fosse o verdadeiro loot.

Quest 10 concluída: Templo preservado. Party expandida. Segredo revelado.