Guilda moderna, cabeça medieval
O grupo se reuniu numa das “guildas” da cidade, que no mundo real atendia por um nome simples: shopping.
Mas para Selena, aquilo era um milagre de organização.
Ela entrou olhando para os lados como quem pisa num templo sagrado do comércio. O cabelo longo e claro, dourado como um raio de sol, balançava enquanto ela analisava as vitrines com a seriedade de um general diante de um mapa.
— Incrível… ela murmurou. Vocês colocaram tavernas, mercadores e áreas de descanso… tudo no mesmo lugar.
Caio apontou para a praça de alimentação, cheio de orgulho como se tivesse construído o prédio com as próprias mãos:
— Isso aqui é a taverna principal.
Davi, sério:
— E ali é onde você perde dinheiro. Voluntariamente.
Selena olhou as pessoas com bandejas, as filas, as vitrines, e parecia genuinamente encantada.
— Vocês realmente dominam logística.
Ren estava no meio, meio relaxado, meio cansado, e só pensava:
(Por favor, não compra o shopping.)
[Nota do narrador: ele pensou baixo, mas o medo foi alto.]
Eles sentaram e dividiram um cachorro-quente. Selena olhou aquilo como se fosse um item raro.
— Isso é… pão com carne e molho?
Bianca riu.
— É um cachorro-quente.
Selena ficou séria de novo.
— Mas… cadê o cachorro?
Ren fechou os olhos por um segundo.
— Selena…
Caio soltou um riso.
— Ah não. Ela ainda tá nessa?
Davi murmurou:
— A gente vai ter que explicar isso toda vez.
Lívia apontou com a colher, lembrando o trauma recente:
— Depois foi um caos pra convencer ela a não capturar aquele cachorro gordo que ela viu na rua.
Selena fez uma cara ofendida.
— Ele parecia perdido.
Bianca riu.
— Ele parecia feliz. Só… muito redondo.
Ren coçou a nuca.
— Ela chamou de “montaria compacta”.
Selena assentiu, convicta:
— Eu manteria ele aquecido no inverno.
Caio engasgou com o refrigerante.
[Nota do narrador: e foi nesse dia que um cachorro virou, sem querer, um símbolo de paz mundial.]
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“Como você conheceu o Ren?”
Bianca terminou o lanche e olhou para Selena com curiosidade genuína, sem zoeira.
— Tá… no outro mundo… como você conheceu o Ren?
Ren congelou com o canudo na boca.
Lívia se inclinou um pouco, tentando parecer casual, mas o olhar dela dizia: essa informação é importante pro meu relatório emocional.
— Foi algo romântico?
Selena riu.
Um riso leve, nostálgico, como se puxasse um fio antigo do coração.
— Romântico? Não…
Ela olhou para Ren e sorriu daquele jeito que já fazia ele esquecer que existia vergonha.
— Foi… nojento.
Ren franziu a testa.
— O quê?
Selena apoiou o queixo na mão, e o mundo mudou.
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Flashback: Wyvern, lama e destino com senso de humor
O céu era mais aberto, o ar tinha cheiro de terra e perigo.
Ren e Selena se viram pela primeira vez no meio de um caos.
Um wyvern tinha descido perto de uma estrada, atacando um grupo de viajantes. Ren apareceu com a espada na mão, tropeçando na própria coragem, mas indo mesmo assim.
Selena apareceu do outro lado, com magia na ponta dos dedos e confiança demais para alguém que ainda nem tinha conhecido a party.
— Você! Ela gritou para Ren. Segura ele!
Ren, mais novo e menos traumatizado, gritou de volta:
— EU NEM SEI QUEM VOCÊ É!
— ENTÃO APRENDE AGORA!
Eles avançaram ao mesmo tempo.
O wyvern bateu as asas, levantou poeira, e a luta foi caótica. Ren tentava proteger os outros. Selena tentava explodir o monstro sem explodir os outros junto.
Por um milagre, funcionou.
Por uns dois segundos.
A criatura fez um movimento brusco, e os dois foram jogados para trás…
Direto numa poça.
Uma poça enorme.
De lama grossa.
Ren caiu de costas. Selena caiu por cima. Os dois ficaram imóveis por meio segundo, cobertos de lama, respirando pesado.
Silêncio.
Ren piscou, a lama descendo do nariz.
— …você tá bem?
Selena cuspiu lama.
— Eu vou te matar.
Ren tentou sentar e escorregou.
— Eu não fiz nada!
[Nota do narrador: o destino, naquele dia, estava com vontade de rir.]

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O banho e o “processo de esbofeteamento”
De volta ao shopping, Selena terminou a lembrança com um sorriso e completou, como se fosse detalhe normal:
— Depois disso, eu fui tomar banho num dos locais do acampamento.
Ren engoliu seco.
— Certo.
Selena continuou:
— E o Ren entrou.
Ren engasgou.
— EU O QUÊ?!
Selena fez uma expressão inocente.
— Entrou no local do banho. Eu esbofeteei ele.
Ren atual franziu a testa, indignado.
(Pensamento do Ren: Só porque eu não lembro de nada disso não significa que aconteceu.)
Lívia levantou uma sobrancelha com um sorriso fino:
— Já era pervertido no outro mundo então.
Ren apontou, desesperado:
— Não! Eu não ia…
Caio riu, apontando para Ren como se fosse um selo de qualidade:
— O herói é o mesmo em qualquer universo.
Davi, sério:
— Multiverso: consistente.
Ren afundou na cadeira.
— Isso é calúnia histórica.
Selena inclinou a cabeça.
— Não foi pervertido. Você só… se perdeu.
Ren encarou ela.
— Num banho?
Selena deu de ombros.
— Tinha fumaça. E você é ruim com direções.
Bianca gargalhou.
— Isso eu acredito.
[Nota do narrador: a “fumaça” era vapor. O “perdido” era Ren sendo Ren.]
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“E a party?” Saudosismo desbloqueado
Caio, já animado, perguntou com a boca cheia:
— E os outros membros? O grupo de vocês.
O olhar de Selena ficou mais suave.
A voz dela desceu um tom, cheia de saudade.
— Tinha o nosso capitão… Garron, o escudo da party. Classe de defesa. Um muro com pernas.
Davi murmurou:
— Isso é útil.
Selena assentiu.
— Era. E tinha a healer… uma elfa. Elyra. Ela salvou a gente tantas vezes que eu perdi as contas.
Lívia piscou, interessada:
— Ela era… bonita?
Selena respondeu sem ciúme, com naturalidade:
— Era. Mas ela era mais perigosa do que bonita. Ela curava… e também julgava.
Bianca riu.
— Curava e julgava. Isso é mãe.
Selena então olhou para Ren e completou:
— E tinha a assassina… Neriss. Ela me ensinou um pouco de furtividade.
Ren teve um flash mental imediato: Selena “se escondendo” atrás de um poste e de um arbusto na escola.
(Pensamento do Ren: Espero que ela seja melhor matando do que se escondendo.)
Caio percebeu a cara dele e riu.
— Ela te seguiu “furtiva”, né?
Ren fechou os olhos.
— Não chama de furtiva.
Davi completou:
— Era perseguição com cosplay.
Selena, sem vergonha nenhuma:
— Eu estava protegendo.
Ren, baixinho:
— Você estava fazendo escândalo atrás de uma árvore.
Selena piscou.
— …árvores são cobertura tática.
[Nota do narrador: e postes finos são… fé.]
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Lembranças que incomodam Ren… mesmo sem ele lembrar
Selena continuou contando pequenas histórias.
Ren, ouvindo, ficava cada vez mais incomodado.
Não porque era ruim. Mas porque uma parte dele… reconhecia.
Uma risada que ele não lembrava de ter dado. Um gesto que ele não lembrava de ter feito. A sensação de “isso era eu” aparecendo sem autorização.
(Pensamento do Ren: Eu não lembro… mas eu sinto.)
E isso era estranho. E bonito. E irritante.
Bianca cutucou:
— Ren, você tá fazendo uma cara de quem tá com ciúme de você mesmo.
Ren respondeu rápido:
— Eu não tô com ciúme.
Lívia sorriu.
— Tá sim.
Ren apontou.
— Não!
Davi decretou, neutro:
— Tá.
[Nota do narrador: três votos contra um. A democracia venceu.]
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Do “eu vou te matar” para “eu escolho você”
Selena foi diminuindo o tom das piadas e ficando mais séria, como se estivesse tirando um item raro da bolsa.
— No começo… eu implicava com o Ren.
Ren piscou.
— Eu acredito.
Selena deu um sorriso pequeno.
— Ele era gentil demais. Teimoso. Sempre tentando proteger os outros… mesmo quando estava com medo. Eu achava isso… irritante.
Lívia ouviu em silêncio.
Caio também.
Até Davi ficou quieto.
Selena continuou, a voz com um calor suave:
— Mas ao longo da aventura eu vi as qualidades dele. O jeito que ele não desistia. O jeito que ele tentava fazer o certo. O jeito que ele… me via.
Ela olhou para Ren com aquele brilho que deixava tudo o resto menos importante.
— Nós prometemos… que depois que derrotássemos o Maou… a gente ficaria junto.
Ren sentiu o peito apertar.
Uma parte dele lembrava do clarão. Da mão dela estendida. Do último momento antes do sonho virar despertador.
Selena terminou, baixinho:
— E aqui estou eu. Eu vim.
Silêncio.
Ren não sabia o que dizer.
Então só fez o que conseguia.
Ele pegou a mão dela em cima da mesa, de leve, como se aquilo fosse a âncora dele no mundo real.
Selena sorriu.
E por um instante, no meio da “guilda” do shopping, com cheiro de comida e barulho de gente, pareceu que o mundo inteiro tinha virado um lugar onde eles finalmente podiam… ficar.
Quest 11 concluída: memórias recuperadas. Promessa reafirmada. Ren em dano emocional.