Chuva era um fenômeno raro em nossa vila, mas naquela noite uma tempestade caiu sobre Swan como se os céus compartilhassem meu luto. As torrentes apagavam as últimas labaredas e lavavam os corpos carbonizados, irreconhecíveis.
Enterrei cada pessoa que encontrei entre os escombros, e em cada corpo imaginava um rosto que conheci, um sorriso que um dia me cumprimentou na infância ou nas manhãs no campo.
A cada pá de terra, a mesma pergunta martelava minha alma:
Por quê? Por que isso aconteceu?
Quando finalmente deitei o último corpo na terra encharcada, o amanhecer tingia os céus de cinza. Foi então que ouvi passos sobre as cinzas trituradas e o estalar de armaduras. Meus olhos ardiam, cansados demais para distinguir claramente quem se aproximava.
— Senhor Zorne, encontramos um sobrevivente. Parece ferido. — disse uma voz masculina.
— Afastem-se. Deixem que eu fale com ele.
Outro homem, com voz firme, se ajoelhou diante de mim.
— Calma, jovem. Me chamo Zorne, capitão da guarda de Azhes.
Tentei responder, mas minhas forças evaporaram. Não sei se foi a exaustão física ou o peso insuportável da perda. Mal percebi que homens me erguiam pelos braços.
— Ele está fraco. —informou um dos soldados.
— Levem-no com os outros sobreviventes. Continuem as buscas. — ordenou Zorne.
Meu coração disparou. Sobreviventes? Ainda havia sobreviventes?
Com esforço, consegui sussurrar:
— S-so… sobreviventes?
Um soldado que me apoiava respondeu com voz calma, quase reconfortante:
— Sim. Um grupo conseguiu fugir da vila durante o ataque. Estão na capital. Você vai encontrar seus amigos.
Cada passo até Azhes parecia interminável. Meu corpo lutava para permanecer desperto; minha mente oscilava entre a realidade e um vazio escuro que ameaçava me engolir.
Ao cruzarmos os portões da capital, senti o peso do medo pairando no ar — não apenas nos refugiados, mas nos próprios moradores da cidade. A visão das tendas improvisadas no pátio principal feria meu peito. Gente chorando, abraços demorados, olhares perdidos.
E então ouvi uma voz familiar, rasgando o murmúrio de lamentos:
— EPION!
Meu coração congelou.
— ZANDER!
Corri — ou tentei — e nos encontramos num abraço desesperado, sufocado de lágrimas. Nenhuma palavra era capaz de expressar o alívio e a dor que carregávamos. Apenas nos seguramos, como dois náufragos agarrados ao mesmo pedaço de madeira em um mar revolto.
Enquanto eu reencontrava meus conterrâneos no pátio da capital, bem acima de nós, no coração do castelo de Azhes, o capitão Zorne avançava pelos longos corredores de mármore. Suas botas ecoavam firmes até o salão do trono, onde o rei Vaakum Dorceis — o mais influente soberano dessa era — o aguardava.
Zorne se ajoelhou, o rosto ainda marcado pela fumaça e pelas cinzas de Swan.
— Meu rei. Todos os sobreviventes estão acampados na cidade. Estão abalados. — sua voz era grave, cansada. — E ouvimos o mesmo relato de cada um deles: uma criatura colossal sobrevoou a vila e a destruiu sem aviso.
Vaakum inclinou-se para frente, descendo os degraus do trono com expressão tensa.
— Uma criatura colossal? Quantos mortos?
— Dezenas, majestade. Talvez mais. — Zorne respirou fundo. — Enterraram muitos em covas improvisadas. Mas… — hesitou — no templo do governador, encontramos corpos com marcas de espada. Houve combate ali antes das chamas.
Vaakum franziu o cenho.
— E o governador Cádmo?
— Entre os mortos, meu rei. — respondeu Zorne. — Foi encontrado no templo. Queimaduras… e flechas cravadas no corpo.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Estamos diante de algo maior do que uma invasão. — murmurou o rei. — Atacam nossa principal fonte de minério e desaparecem sem serem vistos. E ainda essa… criatura alada.
— Quer que movamos as tropas, majestade?
Vaakum respirou fundo, medindo suas palavras.
— Não ainda. Fortaleça as defesas da capital. Arme as torres contra criaturas do céu. E enviem mensageiros — chamem o rei Magno de Rorion. Precisaremos de aliados.
Neflan — dois dias depois
Após os trágicos acontecimentos na região de Azhes, na fronteira nordeste que levava ao Reino de Neflan, as caravanas que por ali passavam começaram a espalhar rumores sobre o estranho ataque. Em pouco tempo, a capital de Neflan — segunda maior consumidora dos minérios extraídos em Swan — mergulhou em pavor. Tais rumores logo chegaram aos ouvidos do velho rei Dóren.
— Majestade, nesta manhã o comércio no centro da cidade foi tomado por histórias muito estranhas sobre um possível conflito em Azhes — relatou um dos guardas do castelo.
— Um conflito no reino de Azhes? — Dóren franziu a sobrancelha.
— Sim, meu rei. Dizem que o caminho para a vila de Swan, responsável pelo fornecimento de minério, foi fechado por ordem do rei Vaakum, e que a capital de Azhes está em alerta máximo.
— Preciso de um mensageiro que vá até Vaakum para obter informações reais sobre o que está acontecendo no reino vizinho…
Antes que concluísse a frase, um mensageiro entrou às pressas no salão, interrompendo a conversa.
— Perdão, majestade, mas trago um pedido urgente do rei Magno de Rorion — anunciou.
— Magno? — reagiu Dóren, surpreendido.
— Sim, senhor. Ele solicita passagem para suas tropas pelo Pântano Rochoso, em direção à capital de Azhes.
— Guarda Vix, cancele minha ordem sobre o mensageiro. Eu mesmo irei com minha guarda pessoal. Mensageiro Netios, diga a Magno que ele tem livre passagem — ordenou o velho rei. Ele suspirou, sombrio. — Algo muito grave aconteceu no reino vizinho. Magno não marcharia com exército apenas para visitar o irmão.
Alguns dias depois, já em Azhes, um guarda correu até o castelo para informar o rei Vaakum:
— Majestade, vosso irmão, o rei Magno, já está em nossa cidade e em breve virá atendê-lo. No entanto, meu senhor, não recebemos apenas Rorion — logo após ele, também chegou uma guarda de Neflan, acompanhada pelo rei Dóren.
— Assim que chegarem autorize a entrada imediatamente — ordenou Vaakum.
Ele não esperou muito. Os reis avançaram pelos corredores, apressados para encontrá-lo.
— Estou feliz em vê-lo, irmão — disse Magno, entrando no salão do trono. — E vejo que você se tornou o rei que esta cidade precisava.
— Agradeço por atender ao meu chamado com urgência, irmão — respondeu Vaakum, sentado no trono.
— Ora, você sabe bem que anseio por guerras. Esse período de paz já está me deixando inquieto — replicou Magno, com um meio sorriso.
Vaakum voltou-se para o visitante mais velho:
— Agradeço também sua presença, velho rei Dóren. Confesso que não me recordo da última vez que soube de vossa senhoria deixando suas terras.
— Realmente, rei Vaakum, há décadas não deixo Neflan. Por isso nossas reuniões aconteciam sempre lá. Mas, apesar da idade, os acontecimentos aqui exigiram minha vinda pessoalmente.
— O rei Dóren tem razão — completou Magno. — É ousadia demais alguém atacar Azhes. Conte-nos, irmão, o que aconteceu?
Vaakum respirou fundo.
— Desde que assumi Azhes, há vinte anos, nunca presenciei ataque tão brutal. Swan foi completamente destruída. Restam apenas cinzas e ruínas.
Dóren empalideceu.
— Swan…? E o governador Cádmo? Ele está vivo?
— Quem ousaria atacar tão rápido nossa vila e fugir impune? Vamos caçá-los e puni-los — declarou Magno, com ímpeto.
— Lamento, velho rei… o governador está entre os mortos. Há tempos ele não se reportava a mim — disse Vaakum, com amargura.
O rei Dóren baixou a cabeça, entristecido, mas não comentou.
Magno retomou:
— O que mais sabemos? Como atravessaram o território sem serem vistos?
— Há algo ainda pior — continuou Vaakum. — Sobreviventes afirmam ter visto uma criatura colossal, um demônio alado cuspindo fogo vindo dos céus.
Magno riu com desprezo.
— Um dragão? Histórias para assustar crianças! Seus sobreviventes podem estar em choque, irmão.
Mas Dóren permanecia calado, pálido.
— Não foram só sobreviventes. Minhas tropas ouviram trovões e viram uma sombra gigantesca cruzando as nuvens em direção à vila — afirmou Vaakum.
Magno cruzou os braços, irritado.
— Pode ser magia. A rainha Nélen sempre odiou a paz. Ela tem feiticeiros… talvez isso seja obra dela.
— Encontramos armas com o selo de Desparion dentro do templo de Cádmo — completou Vaakum.
— Armamentos dos Julgadores? — Magno franziu o cenho. — Se eles atacaram, então Nélen está fora disso. Nunca se aliariam.
Dóren enfim falou:
— Esta situação saiu de controle. Não podemos agir sozinhos. Precisamos avisar os elfos.
— Com todo respeito, rei Dóren — respondeu Magno —, mas esta terra agora é dos homens. Elfos perderam o direito de opinião aqui.
Dóren ergueu o olhar com gravidade.
— Há fatos que vocês desconhecem. O dragão é real. Seu nome é Talazian, um titã punido pelos deuses. Cádmo guardava uma joia capaz de invocar sua fúria.
Silêncio. Polido, tenso.
Vaakum cerrava os punhos.
— Então Fangnar sabia disso e não nos contou?!
— Essa joia estava em Swan para evitar guerra entre humanos e elfos — explicou Dóren.
— Não importa — disse Magno. — Vamos caçar os Julgadores.
— Eles não estão envolvidos — retrucou Dóren. — Estão em Higdra perseguindo o assassino de Desparion. O ataque veio dos sombrios que recebiam essas armas dos Julgadores, guiados por Síron — um renegado que segundo informações se esconde nas Tumbas do império.
Vaakum apoiou o queixo na mão.
— Sombrios… criaturas da noite, invisíveis na escuridão. Isso explica como cruzaram nossas terras.
Dóren concluiu:
— Precisamos de Fangnar. Ignorar os elfos agora seria suicídio.
Vaakum respirou fundo, derrotado pelo peso da lógica.
— Como enviamos mensagem a ele?
— Acendam a fogueira da montanha nevada — respondeu Dóren. — Sua fumaça pode ser vista em toda Varcônia. Ele virá.