MARCA DA ALMA
— Capítulo 5 — A Lei da Floresta
O pátio da Academia Arcana não era o que Eiden esperava.
Ele tinha imaginado torres imponentes, bandeiras tremulando, talvez um salão de mármore onde alguém lesse seus nomes em voz alta. Em vez disso, havia apenas uma vastidão de lajes gastas, centenas de crianças amontoadas como gado em dia de feira, e o cheiro de suor misturado ao pó de estrada. Crianças de dez anos, algumas de onze, poucas com doze. Filhos de comerciantes com botas novas demais. Plebeus de sandálias remendadas. Uma menina de cabelos cor de cobre que não parava de chorar baixinho, segurando a mão de um menino que devia ser seu irmão gêmeo. Um garoto gordo de óculos que tremia, a Marca ainda brilhando em sua testa — algo que parecia uma escama, ou talvez uma lágrima congelada.
Eiji estava ao lado dele, mas não por escolha. Apenas porque tinham chegado na mesma caravana, sentado nos bancos de trás da mesma carroça de madeira gasta, e porque ninguém ali conhecia ninguém. Eiden notou que o garoto da Casa Mio mantinha a mão esquerda sobre a cicatriz no rosto, um gesto quase involuntário, como quem verifica se uma ferida ainda está fechada.
— Fiquem nos círculos — ordenou uma voz, vinda de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo.
Eiden olhou para baixo. Não havia visto antes, mas sob seus pés, entre as fendas das lajes, linhas de luz azulada formavam círculos perfeitos, um para cada pequeno grupo de candidatos. O dele continha sete crianças: ele, Eiji, um rapaz musculoso de uns onze anos com uma Marca de ferradura no pescoço, a gêmea de cabelos cor de cobre que não parava de sussurrar com a irmã, o menino gordo de óculos que tremia, e uma garota de dez anos que não olhava para ninguém, apenas para a faca de cozinha em suas mãos.
— Os círculos se fecharão em três respirações — continuou a voz. — Não tentem sair. Não tentem quebrar o círculo. O que vier depois… é entre vocês e a floresta.
Eiden sentiu o ar mudar. Não houve luz ofuscante, nem som de trovão. Apenas uma sensação de queda invertida, de estômago subindo até a garganta, e quando conseguiu abrir os olhos de novo, o pátio de pedra havia sumido.
Ele estava de pé em terra molhada. Árvores altas demais para se ver o topo. O som de água correndo distante. E o cheiro — umidade, podridão doce, algo que lembrava a floresta atrás de Rothen, mas mais velha. Mais faminta.
Eiji estava a três passos de distância, com a mesma expressão de quem acabara de ser engolido por um pesadelo e ainda não decidiu se estava acordado.
— Onde…
— Floresta — Eiden respondeu, antes que o outro terminasse. — Não sei qual.
A placa estava a dez passos deles, flutuando a meia altura, suspensa por nada visível. Era um retângulo de pedra escura, do tamanho de uma porta, com runas gravadas que brilhavam em sequência, como se alguém as estivesse escrevendo naquele exato momento.
Eiden se aproximou. As runas se reorganizaram, formando palavras claras e sem possibilidade de mal-entendido:
Portão de Obsidiana. Sete dias. Cinquenta vagas. Quem chegar, entra. Quem não chegar… não importa. A floresta sente concentração de Mana. Grupos maiores que quatro atraem o que não deve ser despertado. Não há professores aqui. Não há regras. Apenas sobrevivência. — Academia Arcana
Eiden leu duas vezes. A terceira, já estava memorizando.
— Cinquenta vagas — sussurrou Eiji, ao lado dele. A voz saiu seca, quase sem tom. — Quantos foram teleportados?
Eiden olhou ao redor. Não conseguia ver além da clareira imediata, mas ouvia vozes distantes, passos apressados, o som de folhas sendo pisadas em todas as direções. Dezenas. Talvez centenas.
— Mais de cinquenta — disse Eiden.
Eiji assentiu. Não houve comentário sobre justiça. Apenas a constatação matemática de que nem todas as crianças que respiravam ali respirariam dentro de uma semana.
Eles não decidiram formar um grupo. Apenas aconteceu, da mesma forma que acontecia com animais de presa que reconheciam um ao outro pelo cheiro de sangue compartilhado. Eiden tinha a espada de ferro comum, a mesma que usara na estrada, agora com um entalhe novo na guarda onde o machado do subchefe a atingira. Eiji tinha a espada curta de cabo prateado, e algo mais — uma tensão no corpo, uma prontidão que Eiden reconhecia de quem já tinha visto a própria morte de perto.
Caminharam em silêncio por duas horas, seguindo o que parecia ser um riacho natural. A floresta não tinha trilhas. Apenas espaços onde a vegetação era menos densa, como se algo grande tivesse passado há pouco, ou há muito tempo.
Foi Eiji quem parou primeiro.
— Estamos sendo seguidos — disse, sem virar a cabeça.
Eiden não ouviu nada. Mas confiou. Não porque gostasse de Eiji — ainda não sabia se gostava — mas porque na estrada de aço, quando o subchefe erguera o machado, fora Eiji quem canalizara Mana na lâmina sem hesitar. Confiança, Eiden estava aprendendo, não era sobre carinho. Era sobre previsibilidade em combate.
— Quantos? — Eiden perguntou, mantendo o passo.
— Três. Talvez quatro. À esquerda, entre as samambaias altas. Não se movem como criaturas.
Candidatos, então. Eiden apertou o cabo da espada. Não desembainhou.
— Vamos acelerar — disse. — Se quisessem atacar, já teriam feito. Estão avaliando.
Eiji concordou com um movimento quase imperceptível do queixo. Aceleraram.
Ao entardecer do primeiro dia, encontraram o acampamento.
Não era deles. Estava montado numa clareira ampla, à beira de um lago pequeno de água negra. Quatro tendas de lona colorida, fogueira acesa sem qualquer preocupação com fumaça visível, e — mais impressionante — uma cerca improvisada de estacas pontiagudas cercando o perímetro. Quem quer que estivesse ali, tinha recursos. E arrogância suficiente para achar que uma cerca de madeira seguraria algo que a floresta pudesse enviar.
Eiden e Eiji se abaixaram atrás de um tronco caído, observando.
Eram cinco crianças. Todas de dez ou onze anos. Todas vestiam roupas de viagem de boa qualidade — lã fina, botas de couro legítimo, capas com brasões bordados que não eram de Casas, mas de guildas de comerciantes ou de famílias menores com dinheiro. Uma delas, uma menina de cabelos loiros presos em duas tranças, carregava um pequeno escudo redondo de madeira reforçada com metal. Sua Marca, visível no antebraço esquerdo, era um desenho geométrico que Eiden não reconheceu — algo entre uma estrela e uma teia.
— Eles não leram a placa — sussurrou Eiji.
— Leram — Eiden respondeu. — Só não acreditaram.
A menina de escudo gesticulava, apontando para um mapa rabiscado no chão com um graveto. Mapa. Quem leva mapa para um teste de teleporte?
— …com a noite caída, montamos guarda em duplas — ela estava dizendo, voz alta demais, confiante demais para uma criança de dez anos. — Amanhã seguimos rio acima. Com cinco pessoas e duas Marcas de combate, atravessamos qualquer coisa que essa floresta tenha.
Um menino gordinho de bochechas rosadas riu. Outra menina — magra, de olhos grandes demais para o rosto — concordou com entusiasmo juvenil.
Eiden sentiu Eiji se mexer ao lado dele. Não para atacar. Para ir embora.
— Não vamos avisar? — Eiden perguntou, surpreso consigo mesmo por ter formulado a pergunta.
Eiji olhou para ele. Os olhos âmbar, pela primeira vez, carregaram algo que não era frieza — foi quase curiosidade, como se Eiden tivesse dito algo em língua que ele não esperava entender.
— Avisar o quê? — Eiji respondeu. — Que grupos grandes atraem criaturas? Eles já sabem. Que a floresta é perigosa? Também sabem. Eles acham que a regra não se aplica a quem tem dinheiro. Você quer gastar sua única chance de admissão tentando salvar quem não quer ser salvo?
Eiden não respondeu. Porque Eiji tinha razão. E porque, no fundo, algo naquele acampamento — o tom de voz da menina, a maneira como as outras crianças riam, o brilho das roupas que ainda não tinham visto lama — lembrava tudo que ele odiava na distância entre Rothen e o mundo que a colina do vigia mostrava.
Eles se afastaram em silêncio.
A noite do primeiro dia foi fria.
Eiden e Eiji não acenderam fogo. Encontraram uma cavidade natural entre as raízes de uma árvore imensa, oca por dentro, com espaço suficiente para dois corpos pequenos se encolherem. Eiden ficou de costas para a entrada, espada cravada na terra ao lado da mão direita. Eiji ficou do outro lado, com os olhos abertos no escuro.
— Você não dorme — Eiden disse. Não era pergunta.
— Durmo — Eiji respondeu. — Só não fecho os olhos em lugar que não conheço.
Silêncio. O som distante de algo se movendo entre as árvores — não passos, algo mais pesado. Mais lento. Eiden sentiu o corpo inteiro tensionar, mas o som passou, afastando-se.
— Na estrada — Eiden disse, de repente, sem saber por que abria aquela porta. — Por que você não fugiu? Quando o subchefe me acertou. Você podia ter corrido.
Eiji demorou tanto para responder que Eiden pensou que tinha dormido.
— Porque você não fugiu quando ele ia me matar — disse Eiji, finalmente. — Não foi por mim. Foi porque não sabia fugir. Mesma razão.
Eiden quase riu. Quase. Mas a honestidade da resposta tinha algo de tão brutal que o humor não encontrou lugar.
— Não somos amigos — Eiden disse.
— Não — Eiji concordou.
— Mas amanhã, se algo vier por você, eu ataco por trás.
— E eu pelo flanco — Eiji completou. — Só até o Portão.
— Só até o Portão.
Não houve aperto de mãos. Apenas o acordo tácito de dois sobreviventes que sabiam que, naquele lugar, até a desconfiança mútua era mais confiável que a solidão.
O som chegou antes da luz.
Não foi grito. Foi algo pior — o tipo de som que a garganta faz quando tenta gritar mas não encontra ar suficiente, quando o medo é tão grande que até o instinto de pedir socorro trava.
Depois, o impacto. Uma vibração no chão, tão profunda que Eiden sentiu nas costelas antes de ouvir com os ouvidos.
Ele estava de pé antes de decidir se levantar. Eiji já estava do lado de fora da cavidade, espada em punho, olhando na direção do acampamento.
A floresta estava escura, mas havia luz agora — não fogo, algo mais pálido, mais frio. Um brilho azulado que pulsava entre as árvores, vindo de onde o grupo de cinco tinha montado acampamento.
— Mana concentrada — Eiji sussurrou. — Muita.
Eiden não precisou de explicação. A placa tinha sido clara: grupos maiores que quatro atraem o que não deve ser despertado.
Eles não foram para lá. Nenhum dos dois sugeriu. Mas também não fugiram. Apenas se moveram entre as árvores, silenciosos, até encontrarem um ponto elevado — uma raiz exposta de uma árvore caída — de onde pudessem ver sem serem vistos.
O que viram ficaria gravado.
O acampamento estava destruído. Não saqueado — destruído. As tendas tinham sido rasgadas de um lado só, como se uma lâmina gigante as cortasse ao meio. A cerca de estacas estava espalhada pelo chão, algumas pontiagudas cravadas na terra em ângulos que sugeriam que tinham sido usadas como armas e falhado.
Das cinco crianças, três estavam no chão. Não mortos — não todos. Uma delas, o menino gordinho de bochechas rosadas, tentava engatinhar para longe, arrastando uma perna que não respondia mais. A menina de escudo estava de pé, no centro da clareira, e seu escudo… seu escudo brilhava.
A Marca dela, Eiden percebeu. Não era apenas desenho. Era uma Marca de Proteção, e a criança a canalizava com tanta força que o escudo emitia um halo prateado, uma cúpula frágil que a cercava por completo.
Do lado de fora da cúpula, a criatura esperava.
Eiden nunca tinha visto algo assim. Não era uma Coruja-de-Ferro — não tinha penas, não tinha forma de ave. Era… massa. Uma coisa de carne cinzenta e músculos que não deveriam existir naquela configuração, com quatro pernas que terminavam em garras que pareciam feitas de obsidiana negra, e um corpo que mudava de densidade, ora sólido, ora líquido, como se a própria realidade não tivesse decidido o que ele era. Não tinha rosto. Apenas uma fenda horizontal onde deveria haver olhos, e da fenda saía o brilho azulado que iluminava a cena.
A criatura não atacava o escudo. Apenas… observava. Esperava.
— O escudo não vai aguentar — Eiji disse, tão baixo que foi quase pensamento.
Eiden sabia. Podia ver no rosto da menina — o suor, o tremor nos joelhos, a boca aberta ofegando. Canalizar uma Marca defensiva daquele nível consumia algo que não era apenas Mana. Consumia vontade. Consumia esperança. E quando a criança hesitasse, mesmo que por um piscar de olhos…
A cúpula piscou.
A criatura se moveu.
Não houve grito final. Apenas o som de carne sendo rasgada, de ossos cedendo, e depois — silêncio. O escudo rolou pelo chão, ainda brilhando fracamente, até que a luz morreu como vela ao vento.
A criatura não comeu. Não se alimentou. Apenas se afastou da clareira, movendo-se com uma lentidão quase cerimonial, desaparecendo entre as árvores como se tivesse cumprido um dever e não mais precisasse estar ali.
Eiden percebeu que estava segurando a espada com tanta força que os nós dos dedos doíam. Ao lado, Eiji não se movera. Mas quando Eiden olhou para ele, viu que a cicatriz no rosto do garoto brilhava fracamente — não de Mana, de algo mais fundo. Memória. Dor.
— Nós não avisamos — Eiden disse. A voz saiu rouca.
— Nós não poderíamos — Eiji respondeu. — E se tivéssemos tentado, estaríamos no chão junto delas.
Eiden sabia. Sabia que Eiji tinha razão. Mas saber não limpava o gosto na boca. Era o mesmo gosto de quando Cassian lhe contara sobre a guerra — sobre como, às vezes, o certo e o vivo não eram a mesma coisa.
Eles desceram da raiz e caminharam na direção oposta à criatura. Não correram — correr atrai atenção. Apenas caminharam, rápido, com os corpos tensos como arcos armados, até que a clareira ficou tão distante que até o cheiro de sangue se perdeu na umidade da floresta.
O amanhecer do segundo dia trouxe chuva.
Eles encontraram outra placa de mana — menor, flutuando a altura do peito, quase escondida entre samambaias. As runas brilhavam mesmo sob a água:
Portão de Obsidiana. Cinco dias restantes. Quarenta e duas vagas.
Quarenta e duas. Oito pessoas tinham morrido na noite. Ou desistido. Ou simplesmente… sumido.
Eiden olhou para Eiji. O garoto da Casa Mio estava encharcado, o cabelo escuro grudado na testa, a espada curta empunhada com a mesma postura de quem não planejava guardá-la tão cedo. Eiden imaginou como devia parecer — dois pirralhos de dez anos, sujos de lama, feridos de batalhas que não eram deles, caminhando por uma floresta que comia candidatos como quem come sementes.
— Eles acham que é só força — Eiden disse, de repente. — Os que montaram acampamento. Os que formam grupos grandes. Acham que número e dinheiro vencem.
Eiji limpou a água do rosto com o dorso da mão esquerda. A cicatriz, sem o brilho da noite, parecia apenas uma ferida velha.
— E o que você acha? — Eiji perguntou.
Eiden olhou para a espada em suas mãos. Para a Marca no dorso da mão direita, a lâmina prateada quase apagada sob a luz cinzenta da chuva.
— Acho que a floresta não lê brasões — disse. — Acho que ela sente. E acho que… — ele hesitou, procurando a palavra — …acho que sobreviver aqui não é sobre ser o mais forte. É sobre ser o que ela não consegue sentir.
Eiji não respondeu. Mas, pela primeira vez desde que tinham sido teleportados, algo quase parecido com concordância cruzou seus olhos.
Eles seguiram rio abaixo, mantendo distância um do outro suficiente para não formar um padrão de Mana concentrado, perto o bastante para que, se um caísse, o outro ouviria.
Atrás deles, a floresta engolia as pegadas na lama.
À frente, o Portão de Obsidiana esperava — ou não.
E em algum lugar, entre as árvores que não tinham nome, algo que não tinha rosto já começava a sentir o cheiro dos que ainda respiravam.