—Capítulo 7—
As Ordens
O corredor de luz terminou numa porta de madeira comum. Eiden empurrou. Do outro lado, uma sala circular com bancos de pedra, paredes claras e janelas altas que deixavam o sol entrar. Depois de dias na floresta escura, a luz doía nos olhos.
— Caramba — Eiden piscou, levando a mão ao rosto. — Tá claro demais.
— Você vai ficar cego antes de aprender alguma coisa — Eiji disse, ao lado dele, também piscando.
Eles entraram devagar. A sala já tinha outras crianças. Uma menina de cabelo cacheado laranja chutava o chão com o pé, entediada. Dois meninos gêmeos brigavam baixinho por um pedaço de pão que um deles escondia no bolso. Uma garota mais alta, de uns onze anos, lia um livrinho surrado e parecia não ligar pra ninguém.
Eiden e Eiji sentaram num banco vazio perto da parede.
— A gente passou — Eiden disse, como se ainda estivesse processando. — De verdade.
— Claro que passou — Eiji respondeu, mas havia alívio na voz. — Eu tava lá, lembra? Vi você correndo feito louco.
— Você também correu.
— Eu corri porque você correu. Se você tivesse parado, eu tinha parado.
— Mentira.
— É verdade. Eu não faço nada sozinho.
Eiden quase riu. Foi bom rir. Fazia tempo.
A porta se abriu de novo. Lyra entrou.
Ela estava suja, a roupa rasgada no ombro, mancando um pouco. Mas quando viu a sala cheia de gente, parou. Olhou para todos. Para Eiden. Para Eiji.
— Ei — Eiden levantou a mão num aceno pequeno. — Você também conseguiu!
Lyra não respondeu de imediato. Cruzou os braços, avaliou, e foi até um canto sentar sozinha. Mas antes de sentar, murmurou:
— Não é como se eu tivesse escolha.
— Ela é sempre assim? — Eiji perguntou, baixinho.
— Acho que sim — Eiden respondeu. — Mas ela não tentou nos matar de novo. Já é alguma coisa.
— Talvez ela só esteja cansada.
— Todo mundo tá.
A porta se abriu mais uma vez. Dessa vez, entrou um homem de túnica azul, cabelo bagunçado, cara de quem dormiu pouco. Ele carregava uma pilha de papéis que parecia prestes a cair.
— Bom dia, crianças! — ele disse, alto demais. Os papéis balançaram. — Meu nome é Irmão Aldric. Mestre de recepção. E, oficialmente, a pessoa que vai explicar por que vocês não podem simplesmente sair correndo por aí.
A menina de cabelo laranja levantou a mão.
— Sim?
— Tem comida?
Aldric piscou. Depois sorriu.
— Tem. Muita. Mas primeiro, regras. Sentem-se, por favor. Isso não vai demorar muito.
Todos se sentaram. Até os gêmeos pararam de brigar.
— Vocês passaram no Teste da Floresta — Aldric começou. — Parabéns. Significa que têm potencial. Mas não significa que são alunos oficiais ainda.
— Como assim? — o gêmeo mais magro perguntou. — A gente não passou?
— Passou. Mas aqui na Academia Arcana, vocês vão passar por quatro anos de avaliação. Quatro anos de aulas, treinos, provas e observação. Só aos catorze anos vocês entram oficialmente nas Ordens.
Um murmúrio percorreu a sala.
— Quatro anos? — a garota do livro olhou por cima das páginas. — Isso é muito tempo.
— É o necessário — Aldric respondeu. — Marcas despertam aos dez, mas são instáveis. Precisam de controle, teoria, prática. E precisamos ter certeza de que vocês não vão se corromper no meio do caminho. — Ele pausou. — Durante esses quatro anos, vocês são novatos. Terão aulas normais, notas individuais, dormitórios comuns. As Ordens — as equipes de veteranos — vão observar vocês. Às vezes, vão interagir. Mas vocês só serão convidados a ingressar oficialmente aos catorze.
— E se ninguém quiser a gente? — Eiden perguntou.
Aldric olhou para ele. Não com pena. Com honestidade.
— Então vocês continuam como novatos até se formarem. Não é punição. É apenas... um caminho diferente.
Ele bateu palmas.
— Agora sim. Comida.
•••
O salão de banquetes era grande, arejado, cheio de mesas de madeira escura. O cheiro de pão quente encheu o nariz de Eiden antes mesmo de sentar.
— Nossa — ele disse, parado na entrada. — É... muita coisa.
Mesas e mais mesas. Pão em cestas, sopa fumegante em tigelas grandes, frutas de cores que Eiden nunca tinha visto. E, nas mesas ao redor, alunos mais velhos — de doze, treze, quatorze anos — comendo, conversando, rindo. Alguns usavam túnicas coloridas com símbolos bordados: uma serpente, um lobo, uma coruja.
— Aquelas são as Ordens? — Eiji perguntou, apontando discretamente.
— Acho que sim — Eiden respondeu. — Olha, aquele ali tem um negócio de cobra no peito.
— Serpentes — uma voz disse atrás deles.
Eles se viraram. Um rapaz ruivo, de uns quatorze anos, com uma túnica verde e um brasão de coruja no ombro, segurava uma maçã.
— Sou Teron — ele disse, oferecendo a mão. Eiden apertou, surpreso. — Terceiro ano, Ordem das Corujas. E antes que perguntem: não, não estou recrutando ninguém. Vocês têm só dez anos. Só vão entrar nas equipes daqui a quatro anos.
— Então por que tá falando com a gente? — Eiji perguntou, desconfiado.
— Porque alguém precisa explicar como funciona, e os professores adoram folhetos. Eu prefiro conversar. — Ele mordeu a maçã e gesticulou para as mesas. — Vamos, sentem-se. Eu explico enquanto vocês comem. E, sério, comam. A comida daqui é boa.
Eles se sentaram numa mesa de novatos. Eiden pegou uma tigela de sopa. Estava quente, salgada, com pedaços de carne e legumes. Ele levou à boca e quase gemeu.
— Tá bom — ele disse, de boca cheia.
— Tá bom? — Teron riu. — Isso é o melhor estrogonofe de búfalo de Asterra. Minha mãe cozinha pior.
— Você tem mãe? — Eiden perguntou, sem pensar.
— Todo mundo tem, gênio — Teron respondeu, rindo de novo. — A minha é costureira. Não entende nada de Marca. Acha que eu faço mágica de palco.
Eiden riu. Eiji, ao lado, pegou uma fatia de pão e comeu devagar, mas comia.
— Então — Teron continuou, sentando-se de pernas cruzadas na mesa, como se fosse o mais natural do mundo —, a Academia funciona assim: quatro anos de base. Aulas normais, tipo escola, só que com mais coisas explodindo. Teoria das Marcas, história, controle de Mana, matemática, leitura de runas. Notas individuais. Se você tirar nota baixa, repete. Se repetir demais, vai embora.
— E as Ordens? — Eiden perguntou, entre uma colher e outra.
— As Ordens são as equipes dos veteranos. Cada uma tem cinco membros, nome de animal, filosofia própria. Ordem das Serpentes, dos Lobos, das Corujas, dos Touros, das Raposas, das Águias, das Aranhas. Elas competem nos Jogos do Crisol — uma vez por mês, tipo... um jogo de campo na floresta. Com objetivos, regras, pontos. Também fazem missões menores toda semana.
— E a gente pode participar? — Eiji perguntou.
— Daqui a quatro anos, sim. Antes disso, vocês são observados. Os Líderes das Ordens assistem às aulas práticas, anotam quem se destaca. Quando vocês fizerem catorze anos, recebem as propostas oficiais. — Ele deu de ombros. — Ou não. Tem gente que nunca entra em Ordem e vira pesquisador, professor, caçador independente. Não é o fim do mundo.
Eiden olhou para as mesas coloridas ao redor. Os veteranos comiam, conversavam, alguns empurravam uns aos outros de brincadeira. Parecia... normal. Quase uma escola normal.
— E se a gente quiser entrar numa específica? — Eiden perguntou.
— Você pode preferir, mas quem escolhe são os Líderes — Teron respondeu. — Eles montam as equipes pensando em sinergia. Você não entra sozinho. Entra porque complementa alguém.
Eiji olhou para o brasão de coruja no ombro de Teron.
— Por que Corujas? — ele perguntou.
Teron sorriu. Pela primeira vez, o sorriso foi menor, mais sério.
— Porque eu era o garoto que ficava no fundo da sala, observando todo mundo. Não gosto de lutar na frente. Gosto de saber o que o inimigo vai fazer antes dele fazer. — Ele deu de ombros. — Cada um encontra seu lugar. Ou não.
Ele se levantou.
— Conselho de veterano: aproveitem a comida. Durmam bem. Amanhã começam as aulas. E, sério, não tentem impressionar ninguém na primeira semana. Só... sejam vocês.
Teron foi embora, acenando para alguém do outro lado do salão.
Eiden e Eiji ficaram sozinhos na mesa. Comeram em silêncio por um momento. Depois Eiden disse:
— Ele é legal.
— É estranho — Eiji respondeu. — Veterano sendo legal com novato.
— Talvez nem todo mundo aqui seja horrível.
— Talvez.
Eiden pegou uma fruta roxa, estranha, e mordeu. Era doce, suculenta, com um gosto que lembrava morango e algo mais que ele não conseguia nomear.
— Isso é bom demais — ele disse, de boca cheia. — Quero levar pra casa.
— Você não tem como levar — Eiji respondeu. — Não cabe no bolso.
— Cabe sim. Olha.
Eiden enfiou uma fruta no bolso da calça. Ela ficou meio para fora, ridícula.
— Você parece idiota — Eiji disse.
— Mas eu sou um idiota com fruta.
Eiji, pela primeira vez desde que tinham deixado a floresta, riu. Não foi risada grande. Foi curta, quase surpresa, como se ele próprio não esperasse. Mas foi real.
— Você é muito estranho — Eiji disse.
— E você é muito sério. A gente se completa.
•••
Depois do banquete, Aldric os levou aos dormitórios. Corredor longo, portas de madeira com números. Eiden recebeu a chave 44. Eiji, a 45. Quartos pequenos, limpos, com cama, escrivaninha e janela.
— Quarto 44 e 45 — Aldric disse. — Vizinhos. Qualquer problema, chamem o funcionário do corredor. Durmam. Amanhã, aula de Teoria das Marcas, sete da manhã. Não se atrasem.
Ele foi embora, os passos ecoando no corredor de pedra.
Eiden entrou no quarto. Deitou na cama. O colchão era macio — estranhamente macio, depois de dias dormindo em raízes e terra. Ele olhou para o teto e suspirou.
A porta se abriu. Eiji entrou, sem bater.
— Ei — Eiden disse, sentando-se. — Você não pode simplesmente entrar.
— A porta tava aberta.
— Tava fechada.
— Tava entreaberta. — Eiji olhou em volta. — Seu quarto é igual o meu.
— É. Todo mundo tem o mesmo.
Eiji foi até a janela. Olhou para fora. A noite caía sobre a Academia, e as torres no horizonte brilhavam com luzes coloridas.
— Quatro anos — Eiji disse, de costas. — É muito tempo.
— É — Eiden concordou. — Mas a gente tá aqui. Vivo. Com comida. Cama. E fruta no meu bolso.
Eiji se virou. Olhou para o bolso de Eiden, onde a fruta roxa ainda estava metade para fora.
— Você ainda tá com isso?
— É minha fruta agora. Vou dar nome.
— Você vai estragar.
— Antes de estragar, eu como.
Eiji balançou a cabeça, mas havia algo quase como diversão nos olhos âmbar.
— Boa noite, Eiden.
— Boa noite, Eiji.
Eiji foi embora. Mas antes de fechar a porta, parou.
— Eiden?
— O quê?
— Obrigado. Por ter corrido comigo. Na floresta. Você podia ter seguido sozinho.
Eiden não respondeu de imediato. Quando falou, a voz saiu mais baixa:
— Eu também podia ter parado. Você também podia ter parado. A gente não parou. É só isso.
Eiji assentiu. Fechou a porta.
Eiden ficou sozinho no quarto. Olhou para a fruta no bolso. Tirou-a, colocou na escrivaninha. E, pela primeira vez em dias, dormiu sem sonhar com floresta.
•••
No corredor, Lyra caminhava com Mila ao lado.
A menina de cabelo laranja não parava de falar — sobre o banquete, sobre o quarto dela, sobre como a cama era mais macia que a de casa. Lyra ouvia, respondendo com monossílabos, mas não mandava embora.
— Meu quarto é o 47 — Mila disse, apontando. — O seu é qual?
— 46 — Lyra respondeu.
— Nossa, somos vizinhas! — Mila sorriu, largo e fácil. — Isso é ótimo. Eu não gosto de ficar sozinha. Minha mãe diz que eu falo demais, mas eu acho que é porque eu penso demais. Se eu não falo, minha cabeça explode.
— Sua mãe parece sábia — Lyra murmurou.
— Ela é costureira. Costura lençol. Muito lençol. — Mila parou diante da porta 46. — Esse é o seu. O meu é o próximo.
Lyra colocou a chave na fechadura. Abriu. O quarto era pequeno, simples, mas tinha janela. A noite entrava suave, trazendo o cheiro de grama e algo distante que lembrava floresta.
— É bonitinho — Mila disse, espiando por cima do ombro. — Maior que o meu. Sortuda.
Lyra não respondeu. Entrou, deixando a porta aberta.
Mila hesitou. Depois, segurou algo que trazia escondido atrás das costas — duas fatias de bolo num prato pequeno.
— Ei — ela disse. — Trouxe isso do banquete. É de chocolate. Ou algo parecido. Quer?
Lyra olhou para o bolo. Depois para Mila.
— Por quê?
— Porque você parecia que precisava. — Mila deu de ombros. — Não precisa ser amiga. Só... não gosto de comer sozinha.
Lyra hesitou. A porta do quarto 46 ficou aberta por um momento a mais do que ela pretendia.
Depois, fez sinal para Mila entrar.
— Só o bolo — Lyra disse. — Não prometo conversa.
— Tudo bem — Mila sorriu. — Eu converso pelas duas.
A porta se fechou.
E, pela primeira vez desde que deixara o norte, Lyra não dormiu sozinha.