Uma nova vida estava começando.
O entardecer descia lentamente sobre a Vila Núbia, cobrindo as casas de adobe com tons quentes de cobre e ouro gasto. As construções simples, erguidas com barro moldado à mão e telhados de palha de tamareira, absorvia a luz que se despedia, como se soubessem que em breve seriam entregues à noite.
No ponto mais alto de uma formação de granito, sobre um terraço escavado na própria rocha, um menino permanecia ao lado do pai, ambos em silêncio, observando o céu.
O sol afundava-se por trás das colinas rochosas, e à medida que desaparecia, algo inquietante tomava forma. A lua avançava lentamente, apagando a luz restante e lançando sobre o vale uma penumbra estranha. O eclipse começava.
A sombra espalhou-se pelas margens férteis do Nilo, escurecendo suas águas profundas e engolindo as plantações, os caminhos de terra e os limites da vila. A primeira noite chegou como um véu pesado, sufocando cores e sons, impondo-se sobre tudo.
O calor acumulado durante o dia nas paredes de barro começou a se dissipar rapidamente, escapando para o céu limpo. A temperatura caiu de forma abrupta, e o vento seco da noite soprou do deserto, trazendo consigo o som constante do rio chocando-se contra as pedras e o farfalhar inquieto das palmeiras ao redor das casas.
O vento tornou-se mais forte.
À margem do rio, uma pequena falua balançava presa pelas cordas de cânhamo. A madeira antiga do casco rangia a cada movimento, emitindo estalos longos e irregulares que pareciam responder aos gritos que vinham do interior da casa atrás deles.
Gritos de parto.
Cruéis. Dolorosos.
O menino virou-se.
A construção era modesta, quase frágil diante da vastidão que a cercava. Tijolos de barro empilhados com cuidado, um teto de palha reforçado por vigas de madeira escura, tudo erguido diretamente sobre a rocha de granito. Aquela casa era seu único lar, o abrigo que os separava da areia, do sol impiedoso e da morte silenciosa do deserto.
A porta entreaberta projetava no chão seco um feixe irregular de luz, vindo das lamparinas acesas no interior. O brilho quente suavizava a aspereza das pedras, como se tentasse afastar a noite por alguns instantes a mais.
Como se tivesse sido provocada pelo olhar do menino, a porta foi fechada por alguém lá dentro.
A luz desapareceu.
As paredes grossas de barro abafaram os gritos apenas o suficiente para torná-los ainda mais angustiantes.
O pai do menino também voltou o olhar para a casa. Permaneceu imóvel por um breve instante, então o envolveu com os braços, puxando-o para perto do peito largo e firme.
— Ela vai ficar bem — disse em voz baixa. — Sua mãe é forte. Seu irmão ou irmãzinha chegará em breve.
O menino era velho o bastante para perceber que aquelas palavras serviam mais para o homem do que para ele.
O corpo de seu pai era uma muralha viva, com uma pele morena, marcada por um bronzeado constante, carregava o tom quente de quem vive sob o sol aberto, com nuances douradas que se destacavam à luz.
O corpo era forte e bem definido, não pela ostentação da força, mas pela resistência adquirida em esforço contínuo, com músculos firmes e proporcionais. Os cabelos negros caíam espessos e densos, de fios escuros e saudáveis, emoldurando o rosto com um ar sóbrio. Os olhos castanhos, profundos e atentos, refletiam calma e determinação, sempre observando mais do que demonstravam.
Os traços faciais eram harmoniosos e agradáveis, com uma beleza discreta e natural em um rosto que não chamava atenção pelo exagero, mas pela presença silenciosa e segura que inspirava confiança.
Ele fora moldado pela vontade de Atum e endurecido nas campanhas sangrentas travadas nas fronteiras do sul. Seu corpo não era apenas carne e osso, mas um memorial vivo de conquistas e sobrevivência.
Um amuleto de proteção repousava sobre seu peito, pendurado por um fio de couro gasto. Era uma herança antiga, feita de vidro polido e âmbar escurecido pelo tempo. As marcas do sol em seu rosto revelavam áreas mais claras ao redor dos olhos, protegidas durante anos pelo tecido do turbante.
Apesar da brutalidade da terra e da vida dura que ela lhe impusera, havia calor em seus olhos. Humor contido. Um amor profundo e incontestável pelo filho que segurava nos braços. A guerra fora tudo o que conhecera, mas sua humanidade permanecera intacta.
— Afaste-se da beirada, Nakht. Você pode cair — disse com suavidade.
As mãos calejadas ajustaram o linho áspero ao redor do rosto do menino, formando um triângulo cuidadoso sobre a ponte do nariz para protegê-lo do vento cortante. Em seguida, o homem sorriu e tocou a testa do filho com o nó do dedo.
Ambos vestiam longas roupas de algodão escuro e pesado, suas silhuetas fundindo-se às sombras das rochas núbias.
O silêncio do deserto voltou a se impor, quebrado apenas pelo assobio do vento nas fendas do granito.
Nakht apertou a mão do pai, sentindo a aspereza do couro de sua pele. Aquilo o fazia sentir-se seguro.
Então um som diferente cortou a noite.
Não era o vento. Nem o rio.
Era um choro.
Agudo, novo e vigoroso.
Um som que parecia desafiar a vastidão estéril ao redor.
O pai de Nakht paralisou por um instante. A tensão em seu corpo cedeu aos poucos, como se um peso antigo tivesse sido removido de seus ombros.
A porta de madeira se abriu novamente, espalhando a luz das lamparinas de óleo de rícino sobre a areia. Uma mulher idosa surgiu na soleira, a parteira da vila. Limpava as mãos em um pano de linho gasto. Seu rosto estava exausto, mas seus olhos brilhavam.
Ela não precisou dizer nada.
— Vamos, Nakht — disse o pai, agora com a voz firme e carregada de uma alegria rara. — O ciclo recomeça.
Eles caminharam em direção à luz.
Ao entrar na casa, o calor do fogão de barro envolveu o menino, acompanhado pelo cheiro forte de ervas secas e suor. Sua mãe repousava sobre esteiras de palha, pálida e exausta, mas viva. Em seus braços, um pequeno vulto envolto em tecidos limpos se movia inquieto.
O bebê tinha a pele avermelhada e os punhos cerrados, lutando contra o ar frio que ainda insistia em entrar.
O homem ajoelhou-se ao lado da esposa e tocou-lhe a testa com a mesma ternura que dedicara ao filho do lado de fora.
Nakht aproximou-se, observando o irmão mais novo.
Ali, entre aquelas paredes simples que os protegiam do deserto implacável, sob a sombra de um eclipse que já se dissipava, ele compreendeu algo pela primeira vez.
Apesar da dureza da terra.
Apesar da noite.
A vida persistia.
Como o Nilo, que sempre retornava.
A noite já não era um vazio de sombras, mas um berço silencioso de uma nova história. Nakht sorriu, sentindo que, pela primeira vez, o futuro não era apenas uma promessa distante de sobrevivência, mas um presente vivo, respirando ali, diante de seus olhos.