O sol pairava soberano sobre o vale do nilo, derramando sua luz como ouro líquido. As águas do rio refletiam um azul metálico, ondulando lentamente, cintilantes como escamas de uma serpente divina adormecida. O vento morno trazia consigo o cheiro de lodo fértil, flores de lótus e vida antiga com uma respiração que jamais cessava.
Dez cheias haviam passado desde que a paz se firmara sobre a pequena vila núbia. E assim como o nilo moldava suas margens, o tempo moldava homens, crianças e silêncios.
À beira da margem, onde o papiro crescia alto e as garças brancas observavam imóveis, quase como estátuas esculpidas pelo próprio deserto, três figuras quebravam a quietude da manhã.
Nakht, agora com quinze invernos, movia-se com a economia precisa de alguém que aprendera cedo demais a não desperdiçar forças. Seu corpo já não era o de uma criança, mas ainda guardava traços de juventude. A pele morena, marcada pelo sol constante, contrastava com os olhos azuis atentos, sempre avaliando o entorno. Ele segurava a rede com firmeza, os dedos calejados encontrando naturalmente os nós do linho, enquanto os músculos das costas se destacavam sob a túnica simples. Cada passo sobre as pedras úmidas era calculado, silencioso.
Ao seu lado, Narmer era quase o oposto.
Aos dez anos, havia nele algo leve, quase etéreo. Sua pele clara pouco denunciava a aspereza do clima, e os cabelos ruivos, presos em pequenas tranças laterais, brilhavam como cobre recém-polido sob o sol. Os olhos dourados, grandes demais para o rosto ainda infantil, não paravam quietos — ora acompanhavam o voo errático de uma libélula, ora o reflexo da luz na água. Segurava sua pequena vara de pesca com mais esperança do que técnica, os pés afundando levemente no barro.
Atrás deles, em silêncio, estava Madoc.
A presença do pai não precisava de palavras para se impor. Alto, de postura firme, o corpo carregava a energia e força não se podiam expliicar. Seus olhos eram profundos, como se observassem não apenas o rio, mas algo além dele. Havia nele uma calma que não vinha da tranquilidade, mas da aceitação do mundo como ele é.
Após longos instantes de silêncio, Madoc falou
— Paciência, pequeno lótus.
Sua voz era grave, contida, sem pressa. Não elevava o tom, nem precisava.
— O Nilo não se oferece a quem tenta tomá-lo. Ele se revela a quem aprende a esperar.
Narmer franziu o nariz, balançando a vara com cuidado exagerado, como se o peixe pudesse ouvir seus pensamentos.
Madoc deu dois passos à frente e parou atrás de Nakht. Sem dizer nada, ajustou a posição dos ombros do filho mais velho com um toque firme, quase cerimonial. Apenas então voltou a falar
— Veja a corrente.
Apontou com o queixo para a raiz exposta de uma tamargueira parcialmente submersa.
— Ali. A água gira, desacelera. Os grandes peixes descansam onde o esforço cessa.
— Fez uma breve pausa. — Na vida, é o mesmo. Não dispute força onde todos brigam. Observe onde ninguém olha.
Nakht assentiu, em silêncio. Não havia necessidade de resposta. Ele escutava como quem grava algo no próprio osso, entendendo que aquelas lições iam muito além da pesca.
— E eu? — Narmer perguntou, a voz carregada de uma pontada de frustração. — O peixe não gosta de mim?
Madoc voltou o olhar para o filho mais novo. Seus olhos suavizaram-se quase imperceptivelmente.
— Ele sente você, Narmer. — disse. — Sua pressa, seu desejo.
Ajoelhou-se para ficar à altura do menino.
— Não tente convencer o rio. Faça parte dele. Respire… como a água respira.
Narmer tentou imitar a respiração profunda do pai, inflando o peito de forma exagerada. Madoc quase sorriu.
O tempo passou sem que percebessem. O mundo reduziu-se ao som da água tocando as pedras, ao farfalhar distante das palmeiras e ao canto ocasional de um pássaro invisível. Quando o cesto de vime finalmente repousava pesado ao lado deles, repleto de tilápias prateadas ainda se debatendo, Madoc apenas assentiu.
— É o suficiente.
O caminho de volta seguia por uma trilha de terra batida, ladeada por arbustos e pequenas dunas. A Vila Núbia surgia adiante como uma miragem sólida: casas de tijolos de barro caiadas, refletindo a luz intensa, crianças correndo entre sombras e vozes distantes.
Ao cruzarem o pátio sombreado da casa, o aroma de pão recém-assado misturado à mirra envolveu-os de imediato.
— Então? — disse uma voz feminina, carregada de calor e autoridade.
Tuya surgiu à porta.
Se Madoc era a rocha silenciosa, Tuya era o rio que dava forma à casa. Seus cabelos negros, cortados curtos, emolduram um rosto de traços firmes e belos. Os olhos dourados observavam tudo desde os peixes, os filhos, o estado de espírito de cada um em um único olhar.
— A pesca deu frutos hoje?
Narmer riu antes mesmo que alguém respondesse. Nakht ergueu o cesto.
— O suficiente para hoje.
— Mais do que suficiente. — Madoc completou, estendendo o cesto à esposa.
Por um breve instante, sua mão repousou na nuca de Tuya. Não houve palavras. Não houve pressa. Apenas um gesto silencioso de intimidade antiga.
— Mãe! — Narmer correu até ela, estendendo uma concha perfeitamente lisa. — Olha o que achei!
Tuya ajoelhou-se, limpando uma mancha de barro do rosto do menino com o polegar.
— É linda. — disse, sincera. — Guarde-a bem. Coisas assim não aparecem duas vezes.
Depois ergueu o olhar para Nakht.
— Ajude seu pai com as ferramentas antes de sair.
Ele assentiu.
As horas seguintes fluíram com naturalidade: o som de objetos sendo guardados, risadas contidas, Narmer sendo repreendido com doçura, Madoc observando tudo em silêncio. Ali, naquele pequeno espaço cercado pelo deserto implacável, existia um santuário.
Quando o sol já estava baixo no céu da tarde, Nakht e Narmer despediram-se dos pais com uma reverência respeitosa e seguiram em direção à periferia da vila.
O clima estava frio, um sinal flagrante do mês estando no meio do segundo mês de Akhet, o calendário do vilarejo se não todo quase toda a vastidão do continente oriental seguia os moldes do Calendário de Atum, um calendário dividido em 365 dias, divididos em três estações de quatro meses com 30 dias cada, totalizando 12 meses, mais 5 dias adicionais.
Ele era estruturado em torno da agricultura e das cheia do Nilo, com o ano novo marcado pelo nascer heliaco da estrela Sírio
O vilarejo de Núbia era situado ao leste da cidade de Meroé e leste da capital do reino de Amun chamado Menfis ao qual era um domínio tão antigo e poderoso que muitos já o chamavam de império. Suas muralhas, templos e exércitos estendiam-se por terras incontáveis, e sua influência alcançava desertos, oásis e rios distantes. Entre as civilizações conhecidas, apenas a Babilônia ousava ser comparada a ele em glória e grandeza
— Tilápia fresca pescada ao nascer do sol! Direto do rio! Barato, barato!
— Pães de trigo recém-assados com mel e tâmaras! Macios como nuvens!
— Enguia defumada com ervas! Combina perfeitamente com cerveja de cevada!
— Figos doces! Romãs maduras! Uvas do oásis!
Os vendedores ambulantes percorriam as vielas de terra batida erguendo cestos de palha sobre a cabeça e panelas de barro fumegantes nas mãos. Suas vozes ecoavam altas e roucas sob o sol dourado do entardecer, misturando-se ao cheiro de cevada assada, peixe do Nilo e ervas esmagadas. Acenavam para os transeuntes com tâmaras maduras, figos recém-colhidos, cebolas, alhos-porós e alfaces frescas ainda úmidas da irrigação do rio, enquanto outros serviam tigelas de ensopado quente e pão achatado recém-saído das pedras quentes, chamando clientes como sacerdotes em oração, insistentes e cheios de vida.
O destino era uma casa simples, cercada por um jardim vasto onde ervas medicinais e flores raras cresciam com um vigor quase antinatural.
Ali vivia o Velho Maahes.
Maahes não era um ancião comum. Seu corpo, marcado por décadas de batalhas e serviço na guarda de elite do Faraó, ainda mantinha uma postura sólida. Cicatrizes antigas cruzavam seus braços e peito como inscrições de um passado que se recusava a ser esquecido. Mais do que um guerreiro, era um erudito das artes místicas — alguém que conhecia tanto o peso de uma lâmina quanto o custo de um feitiço.
Um antigo estudante formado pela Torre de Valor, a maior academia mágica do mundo, ele figurava entre os poucos no Império de Amun dignos de carregar o título de professor. Contudo, “professor” não era apenas uma designação profissional, mas uma posição de verdadeiro peso político e social. Aqueles que a possuíam desfrutavam de um prestígio superior ao da própria nobreza onde uma simples recomendação sua bastava para abrir as portas de instituições imperiais que permaneciam fechadas até mesmo para famílias ancestrais.
Esse era o principal motivo pelo qual a maioria dos pais enviava seus filhos para que Mahees os ensinasse não apenas a ler e escrever na língua do Império, chamada Thoth, mas também para que, por meio de suas conexões, ele pudesse lhes conceder um futuro mais promissor.
Sentado sob uma pérgula de videiras, apoiado em um banco de madeira, Maahes ergueu o olhar ao notar os irmãos.
— Ah… vejam só quem resolveu aparecer. — A voz do velho Maahes soou rouca, arrastada, como papiro antigo sendo desenrolado com cuidado. Um sorriso torto surgiu sob a barba rala. — Meus alunos favoritos. Pensei que tivessem se perdido no caminho… ou desistido de aprender.
Ele apontou para o chão com o cajado.
— Venham. Sentem-se. Hoje não vou aborrecê-los com datas mortas ou símbolos que ninguém mais lembra. — Fez uma breve pausa, observando as reações. — Hoje vamos falar de magia como vocês pediram antes
Narmer praticamente caiu sentado aos pés do ancião, os olhos dourados brilhando de ansiedade, acompanhando cada pequeno tremor das mãos velhas — mãos que, apesar da idade, ainda se moviam com precisão quase cirúrgica.
Nakht ficou em pé por alguns segundos a mais, varrendo o jardim com o olhar atento, como se esperasse que algo saltasse das sombras. Só então se acomodou em um tronco, mantendo certa distância.
— Mestre Maahes… — Narmer se inclinou para frente, mal conseguindo conter o sorriso. — É sério mesmo? O senhor vai… vai nos ensinar magia finalmente?
O velho soltou uma risada baixa, curta, carregada de afeto — e de aviso.
— Ensinar? — repetiu, inclinando a cabeça. — Não se anime tanto, pequeno. Eu só abro a porta. Quem decide atravessá-la… são vocês.
Ele ergueu um dedo ossudo. — E a tecelagem não é sobre força. É sobre escolha. E algumas escolhas levam a lugares onde nem mesmo um velho teimoso como eu pode seguir.
Nakht franziu o cenho, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Escolha? — perguntou. — Sempre achei que magia fosse… uma coisa só. Um único caminho.
Maahes ajustou os óculos com calma, observando Nakht por cima das lentes, como se estivesse medindo o peso de suas palavras.
— Ah, se fosse tão simples, o mundo seria um lugar bem mais silencioso. — Ele se levantou devagar e começou a andar entre as ervas do jardim. — O corpo humano, Nakht, é como um forno antigo. Dois fogos queimam dentro dele. Aura e Prana. Vivem no mesmo templo… mas jamais obedecem às mesmas leis.
Ele parou e tocou uma folha entre os dedos.
— Comecemos pelo Prana. — Seu tom ficou quase contemplativo. — O Prana não é realmente “seu”. Ele atravessa você. Está no ar que entra nos seus pulmões, na terra sob seus pés, no espaço vazio entre as estrelas.
Ele sorriu de canto. — Um Tecelão não ordena o mundo. Ele conversa com ele. Sussurra. Escuta. E, se tiver sensibilidade suficiente, persuade.
Narmer parecia hipnotizado, olhando o ar como se fios invisíveis dançassem diante de seus olhos.
— É… é como tocar a alma das coisas? — murmurou.
— Exatamente. — Maahes assentiu. — Harmonia. Ajustes sutis. Uma mudança pequena no lugar certo pode alterar tudo.
Nakht ergueu o olhar, a expressão mais fechada.
— E a Aura?
O velho parou de andar. Quando se virou, seu semblante já não era o mesmo.
— A Aura… — repetiu. — Essa não pede permissão.
Ele fechou o punho lentamente.
— Ela nasce da carne. Do coração batendo como um tambor de guerra. Cada batida lança um impulso, e esses impulsos, quando domados, deixam de ser faíscas e viram um incêndio.
Por um breve instante, o ar ao redor de sua mão pareceu vibrar, distorcendo-se levemente.
— A Aura é o caminho dos guerreiros. Fortalece músculos até que resistam como granito. Endurece ossos para que não cedam sob o peso de um elefante. Aguça os sentidos até o tempo parecer… hesitar.
Ele relaxou o punho. — É direta. Violenta. Primitiva. Nas mãos erradas, destrói tudo o que toca. Nas mãos certas… protege aquilo que não pode ser perdido.