O pátio interno da casa de Maahes era simples, mas carregava uma presença silenciosa que fazia o ar parecer mais denso.
O jardim de pedras claras era circundado por tamareiras antigas, cujas folhas balançavam lentamente ao vento quente do entardecer.
Entre elas, pequenos símbolos rúnicos estavam entalhados em rochas baixas, quase escondidos com marcas de um conhecimento que não precisava ser exibido para ser respeitado.
Narmer e Nakht permaneciam sentados lado a lado sobre esteiras de junco. Ambos ainda tentavam digerir tudo o que haviam ouvido.
— Impressionante… — Narmer foi o primeiro a quebrar o silêncio, com os olhos brilhando de curiosidade genuína. — Então… é possível aprender ambos os caminhos? Tanto o espiritual quanto o físico?
Maahes, sentado diante deles, apoiava-se levemente em um bastão de madeira escura, mais por hábito do que por necessidade.
Ele era um homem moldado pelo tempo, de cabelos prateados penteados para trás como quem tenta impor ordem ao próprio cansaço, e uma barba curta que emoldurava um rosto marcado por linhas de vigília e reflexão. Seus olhos, por trás das lentes simples, carregavam um brilho tranquilo com o olhar de alguém que já havia visto muito mais do que dizia.
Havia nele uma dignidade contida, quase severa, típica de um homem erudito que sacrificaria o conforto e a leveza da vida em nome do conhecimento, convivendo diariamente com verdades que poucos ousariam encarar.
— Sim — respondeu ele, com um tom calmo e paciente. — Embora isso dependa do talento… e, claro, da dedicação.
Ele fez uma breve pausa, como se escolhesse as palavras com cuidado.
— O mundo não se curva apenas àqueles que desejam poder, mas àqueles que persistem quando o desejo já não é suficiente.
Narmer assentiu lentamente, absorvendo cada sílaba.
— Por exemplo — continuou Maahes — eu mesmo me especializei dentro de uma das áreas fundações anímicas. Minha área principal é a golemancia e o estudo de runas, sendo um Escriba de Runas de nível avançado.
Nakht arregalou levemente os olhos.
— Nível… avançado? — repetiu, quase como se testasse a palavra.
Maahes sorriu de canto.
— Palavras grandes demais para algo que, no fim, se resume a errar muito até errar menos — disse, com uma leve risada rouca. — Mas não se preocupem. Sou mais do que capaz de ensinar o básico a vocês dois. Já tive muita experiência ensinando garotos curiosos, interessados em áreas amplas demais para alguém sensato.
— Então não somos os primeiros imprudentes — Narmer comentou, divertido.
— Longe disso — Maahes respondeu, balançando a cabeça. — E certamente não serão os últimos.
Houve um breve silêncio confortável, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas e pelo som distante do rio.
Foi Nakht quem se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— E a aura? — perguntou, direto, sem rodeios.
Maahes ergueu uma sobrancelha, claramente interessado.
— Oh? — murmurou. — Parece que alguém está inclinado a seguir os caminhos de um guerreiro, hm?
Nakht coçou a nuca, um pouco constrangido.
— Talvez… — respondeu. — Eu gosto da ideia de ser forte. De poder proteger.
Maahes soltou uma risada baixa.
— Muito bem. É claro que conheço os funcionamentos da aura. Afinal… — ele inclinou-se levemente para trás — eu já fui jovem. Treinei bastante o corpo, principalmente para durar mais que a média.
— Durar? — Narmer perguntou, confuso.
— Como assim? — Nakht emendou.
Maahes apoiou o bastão no chão e falou com um tom mais didático, mas ainda caloroso.
— Como sabem, a aura fortalece o corpo, não é mesmo? — Ambos assentiram. — Porém ela não se limita apenas à força. Um corpo bem nutrido por aura pode retardar o desgaste, manter os órgãos saudáveis, fortalecer ossos, músculos… e até prolongar a vida útil.
— Uau… — disseram os dois quase ao mesmo tempo.
Narmer estreitou os olhos, curioso.
— Espera… então quantos anos o senhor tem?
Maahes ficou em silêncio por um instante. Então, inclinou-se levemente para frente e piscou.
— Isso é um segredo de estado.
Os dois caíram na risada.
O riso deles era leve, juvenil, sincero e Maahes os observava com um sorriso suave, quase nostálgico. Por um breve momento, seus olhos pareceram distantes, como se lembranças antigas tivessem sido despertadas.
— Pois bem — disse ele, batendo levemente o bastão no chão. — Em que exatamente vocês estão interessados?
Narmer não hesitou um segundo sequer.
— Tecelagem!
Nakht respondeu quase no mesmo instante.
— Guerreiro!
Os dois se entreolharam, surpresos, e então começaram a rir.
— Eu devia imaginar — disse Maahes, divertindo-se com a cena. — Dois irmãos… dois caminhos diferentes.
Ele se levantou lentamente, os movimentos firmes apesar da idade aparente.
— Muito bem. Para começar…
Maahes virou-se para Nakht.
— Vá até o centro do jardim e faça cem flexões, cem agachamentos e cem polichinelos.
— O quê?! — Nakht arregalou os olhos. — Agora?!
— Agora — confirmou Maahes, implacável.
— Mas—
— Sem “mas” — interrompeu-o. — Isso é para fortalecer seu corpo. Vamos começar a esculpi-lo desde já e estimular a produção de energia vital. Nos primeiros dias, isso será tudo o que você fará. Depois, ensinarei como canalizar a aura. Agora vá.
Nakht bufou alto.
— Isso não parece nada espiritual…
— O corpo é o primeiro templo — respondeu Maahes, sem sequer olhar para ele.
Resmungando, Nakht caminhou até o centro do jardim.
— Um… dois… três… — começou, já ofegante nas primeiras flexões.
Narmer observou o irmão com um meio sorriso.
— Força — disse, provocando.
— Cala a boca! — Nakht respondeu entre dentes.
Maahes virou-se então para Narmer.
— E você?
— Eu…? — Narmer perguntou, ajeitando-se. — Sou o mais complexo?
— Bastante — Maahes respondeu com sinceridade. — A tecelagem exige paciência, sensibilidade e uma mente aberta. Você aprenderá muitas coisas… mas venha comigo.
Ele caminhou até uma área mais sombreada do jardim, onde símbolos antigos estavam desenhados no chão com pigmentos naturais.
— Começaremos com algo simples — disse. — Uma meditação em conjunto.
Narmer levantou-se e o seguiu.
Eles sentaram-se frente a frente.
— Feche os olhos — instruiu Maahes. — Respire fundo. Não tente controlar nada. Apenas observe.
Narmer obedeceu.
O mundo pareceu se afastar lentamente.
— O que você sente? — perguntou Maahes, em voz baixa.
— Nada… — Narmer murmurou. — Eu devia sentir algo?
— Apenas relaxa — disse Maahes.— Isso é o começo.
Enquanto isso, ao fundo do jardim, Nakht já estava suando, o corpo ardendo, mas os olhos determinados.
E Maahes sorriu.