O som seco de madeira sendo golpeada ecoava pela rua estreita.
Toc.
Toc.
Toc.
Regular. Paciente. Preciso.
Madoc não tinha pressa.
Segurava o cinzel com firmeza, ajustando a dobradiça da porta como quem realiza um ritual antigo. Cada movimento era contido, econômico, quase silencioso.
Ele sempre trabalhava assim.
Sem desperdício.
Sem gestos largos.
Sem conversa desnecessária.
O sol da manhã já começava a esquentar a argila das paredes, espalhando aquele cheiro terroso que só existia nas primeiras horas do dia. Poeira fina grudava em seus braços suados.
A porta da padaria de Kefera estava torta havia semanas.
Madeira inchada. Pinos gastos.
Nada grave.
Mas Kefera reclamava como se o mundo fosse acabar.
Ele não a culpava.
Pequenos incômodos pareciam enormes quando se envelhecia.
Toc.
O martelo desceu outra vez.
A dobradiça encaixou melhor.
Madoc passou o polegar pela superfície, testando.
Firme.
Bom.
— Sempre tão calado… — veio a voz rouca atrás dele.
Kefera observava da sombra, braços cruzados no avental cheio de farinha.
— Já está aí faz quase meia hora e não disse nem um bom dia.
Madoc ergueu os olhos devagar.
— Bom dia, senhora Kefera.
A voz era baixa. Grave. Tranquila.
Sem pressa.
Como água corrente.
Ela bufou.
— Se você falar mais baixo, eu vou achar que estou ficando surda.
Ele apenas assentiu levemente.
Kefera nunca soube dizer se ele era tímido ou simplesmente distante demais.
Talvez os dois.
— Essa porta ainda aguenta? — ela perguntou.
Madoc empurrou a madeira duas vezes. O rangido sumira.
— Agora sim. Troquei o pino e ajustei o encaixe. Deve durar anos.
— Hm. Você sempre fala em “anos” como se fosse nada.
Ele ficou em silêncio por um momento.
Anos.
A palavra tinha um gosto estranho.
Longo demais.
Distante demais.
Para ele… anos eram nebulosos assim como seu passado.
— É só um jeito de dizer — respondeu.
Kefera o encarou por alguns segundos, depois balançou a cabeça.
— Tuya tem sorte. Homem que sabe consertar tudo é melhor que muito nobre por aí.
Ele não respondeu.
Elogios sempre o deixavam desconfortável.
Não achava que merecia nada.
Afinal…
Ele nem sabia quem era.
Madoc guardou as ferramentas no saco de couro.
O couro já estava gasto, costurado três vezes.
Como ele.
Usado.
Remendado.
Funcional.
Enquanto trabalhava, pensamentos antigos surgiram, como sempre surgiam quando suas mãos estavam ocupadas.
Memórias que não existiam.
Ou melhor…
A ausência delas.
Um vazio.
Um silêncio.
Ele lembrava do presente.
Da vila.
De Tuya.
Dos filhos.
Mas antes disso…
Nada.
Nem rostos.
Nem nomes.
Nem infância.
Nem dor.
Nem alegria.
Só escuridão.
Você foi encontrado nas redondezas
Eles disseram.
Vagando.
Sem rumo.
Sem história.
Sem passado.
Ele se lembrava vagamente da sensação.
Areia nos pés.
Sede.
O céu grande demais.
E um medo estranho, profundo, como o de uma criança perdida.
Às vezes, de madrugada, ainda sentia aquilo.
Aquela sensação de estar… deslocado.
Como se o mundo não fosse exatamente o lugar ao qual pertencia.
Madoc apertou levemente os dedos.
A madeira rangeu.
— Você está bem? — perguntou Kefera.
Ele piscou, voltando ao presente.
— Sim.
Sempre essa resposta.
Sempre simples.
Sempre curta.
Porque explicar seria difícil.
Como explicar a alguém que você não lembra do próprio nome original?
Que não sabe quantos anos tem?
Que o tempo parece escorrer por você sem deixar marcas?
Ele parecia jovem demais.
Tuya já passava dos trinta e seis.
Ele… parecia ter vinte.
E não envelhecia.
Não mudava.
Anos se passaram.
Nada.
O mesmo rosto.
O mesmo corpo.
Às vezes ele se perguntava, em silêncio.
Será que sou humano?
O pensamento o visitava mais do que gostaria.
— Seu filho veio aqui mais cedo — disse Kefera, tirando-o do devaneio.
Os olhos dele suavizaram.
— Narmer?
— Esse mesmo. Educado demais.
Madoc soltou um sopro pelo nariz.
Quase um riso.
— Ele é assim.
— Parece você.
Madoc ficou quieto.
Parecia?
Talvez.
Narmer tinha aquele olhar distante.
Pensativo.
Como se estivesse sempre procurando algo invisível.
Ele entendia aquilo.
Entendia demais.
— E o grandão? — Kefera perguntou. — Nakht?
— Deve estar dolorido do treino.
— Hah! Bom. Homem que não sente dor não cresce e nem amadurece.
Madoc apenas assentiu.
Depois de um tempo, Kefera entrou novamente na padaria.
Ele ficou sozinho.
O vento soprou quente pela rua.
Madoc olhou para as próprias mãos.
Calos.
Marcas antigas.
Algumas profundas demais para alguém que só fazia trabalhos simples.
Às vezes ele tocava essas marcas e pensava.
Quem eu era…?
Soldado?
Criminoso?
Mercenário?
Nobre?
Monstro?
Não saber era pior que qualquer resposta.
Se tivesse sido alguém terrível… Tuya ainda o aceitaria?
Se tivesse feito coisas imperdoáveis… seus filhos ainda o chamariam de pai?
O peito apertou.
Ele fechou os olhos.
Respirou.
Lento.
Controlado.
Como sempre fazia quando pensamentos ficavam pesados.
Então murmurou, baixo, quase como uma oração.
— Não importa quem eu fui…
Seus dedos apertaram o saco de ferramentas.
— Importa quem eu sou agora.
Tuya.
Narmer.
Nakht.
Essa era a única verdade que precisava.
O resto podia continuar perdido.
Ele começou a caminhar de volta para casa.
Passos lentos.
Silenciosos.
Como alguém que não quer perturbar o mundo.
Algumas crianças correram por ele.
Um cachorro latiu.
A vida seguia simples.
E, pela primeira vez naquela manhã, Madoc sentiu algo próximo de paz.
Talvez não tivesse passado.
Talvez não tivesse respostas.
Mas tinha um lar.
E, para alguém que acordou um dia sem lembrar nem o próprio nome…
Isso já era mais do que suficiente