O terceiro dia de Akhet amanheceu dourado.
O sol ergueu-se devagar por trás das dunas, como um disco de cobre incandescente sendo puxado do ventre da terra. A luz espalhou-se pela Vila Núbia em tons quentes de mel e argila, tingindo as casas de barro, os celeiros e as cercas de madeira com um brilho antigo, quase sagrado.
Do Nilo vinha o cheiro de água doce misturado à lama fértil. Das casas, fumaça fina subia das fogueiras matinais. Grãos secos, couro, suor e terra.
Era o cheiro do trabalho.
Era o cheiro de casa.
Madoc já estava acordado havia muito tempo.
Seus braços grossos erguiam sacos de cevada como se fossem cestos vazios. Cada movimento era direto, eficiente, sem desperdício. O baque dos fardos caindo na carroça ecoava seco pelo pátio.
Perto dali, o Senhor Omar observava.
Mesmo idoso, mantinha as costas retas. A barba curta estava bem aparada, e suas roupas simples escondiam um tecido mais fino do que o comum. Não precisava ostentar riqueza, pois ela transparecia nos gestos calmos, na postura de quem já negociará com meio mundo.
Nakht e Narmer ajudavam na organização das cargas.
Nakht carregava dois cestos de trigo.
Os braços tremiam.
As costas ardiam.
As costelas ainda doíam como se tivessem sido prensadas por pedra.
Cada passo era uma agulha atravessando os músculos.
Mas ele não parava.
Se eu parar… pai vai perceber.
E ele já carrega peso demais.
Ele apertou os dentes e seguiu em frente.
Narmer vinha atrás com uma corda enrolada no ombro, olhando mais para o céu do que para o chão. Seus olhos acompanhavam um bando de íbis cruzando o ar em formação.
— Bonito… — murmurou distraído. — Parecem espíritos voando.
No passo seguinte, tropeçou numa pedra.
Quase caiu de rosto no pó.
Madoc soltou um suspiro pesado.
— Narmer…
Só o nome já carregava cansaço suficiente.
O garoto se endireitou às pressas.
— Tô trabalhando, pai! Tô sim!
— Não parece — respondeu Madoc, seco, sem sequer virar o rosto.
Narmer coçou a nuca, envergonhado, e começou a amarrar a carga.
O nó escorregou.
Desfez.
Escorregou de novo.
Nakht passou por ele e refez a amarração com movimentos rápidos.
— Assim nunca vai segurar — disse, baixo.
— Ah… foi mal.
— Você sempre fala isso.
Narmer fez uma careta, depois sorriu.
— Eu tento, tá? Só… minha cabeça viaja às vezes.
Nakht bufou.
— Você pensa demais.
— E você pensa de menos — retrucou Narmer.
Os dois se encararam por um segundo.
Então riram.
Leve. Espontâneo. Coisa de irmãos.
O Senhor Omar observava a cena à distância. Os olhos enrugaram-se com certo carinho.
Ele se aproximou de Madoc.
— Seu filho é esforçado — comentou.
Nakht fingiu não ouvir, mas as orelhas ficaram quentes.
— Ele é teimoso — respondeu Madoc.
— Isso também.
Omar cruzou os braços.
— Crianças assim crescem rápido demais.
— O trabalho ensina — disse Madoc.
O velho balançou a cabeça devagar.
— Ou rouba.
O silêncio que seguiu foi pesado.
Nakht sentiu a conversa pesar no peito sem entender completamente.
Rouba… o quê?
Ele olhou para as próprias mãos.
Calos grossos. Cortes. Unhas quebradas.
Talvez… a infância?
O sol subiu mais alto.
O calor ficou denso.
O ar parecia grudar na pele.
Depois de mais algumas viagens, as pernas de Nakht falharam.
A visão escureceu.
O coração batia feito louco.
Ele precisou apoiar a mão na carroça.
Respira…
Só respira…
Narmer percebeu imediatamente.
— Ei… você tá bem? — perguntou, aproximando-se.
— Tô.
— Mentira.
— Tô sim.
Narmer franziu a testa.
Ele podia ser distraído com o mundo…
Mas nunca com o irmão.
— Devia descansar.
— E você devia trabalhar direito.
Narmer riu.
— Justo.
O Senhor Omar se aproximou.
O olhar experiente percorreu Nakht dos pés à cabeça.
— Seus braços estão duros como pedra, garoto — disse ele. — Há quanto tempo você não para?
— Estou bem, senhor — respondeu Nakht, endireitando as costas.
Omar colocou a mão pesada em seu ombro.
— Eu já carreguei mais peso do que você imagina. E aprendi uma coisa.
Nakht o encarou.
— Orgulho não enche estômago — concluiu o velho. — Sente-se alguns minutos. Depois volte.
Nakht hesitou.
Olhou para o pai.
Esperava uma bronca.
Uma ordem para continuar.
Madoc apenas assentiu.
— Vai.
Aquilo doeu mais do que qualquer músculo.
Cuidado.
Ele não sabia lidar com cuidado.
Nakht sentou-se à sombra da carroça.
O vento do Nilo tocou seu rosto quente.
O corpo finalmente relaxou.
Narmer sentou ao lado dele.
Os dois ficaram observando o rio brilhar ao longe.
Depois de um tempo, Narmer quebrou o silêncio.
— Ei…
— Hm?
— Quando a gente crescer… você acha que vai continuar fazendo isso pra sempre?
Nakht pensou.
Olhou para o pai trabalhando sozinho.
Depois para as próprias mãos.
— Não sei — murmurou. — Mas… não quero que ele carregue tudo sozinho.
Narmer sorriu pequeno.
— Você é chato.
— Eu sei.
— Mas é um chato bom.
Ficaram ali, em silêncio.
O som do vento passando pelos campos.
O rangido da madeira.
Os insetos cantando.
Por alguns instantes, a Vila Núbia parecia eterna.
Como se o mundo fosse apenas aquilo.
E nada pudesse quebrar aquela paz.