Enquanto Nakht e Narmer descansavam na sombra, o calor do meio-dia ondulava sobre os campos como uma névoa invisível.
Madoc caminhava ao lado do Senhor Omar pelas redondezas do terreno.
O chão estava seco, rachado em placas de barro endurecido. Espantalhos rangiam com o vento. Ao longe, servos recolhiam ferramentas, aproveitando a rara folga.
Omar andava com as mãos para trás, observando a própria plantação com a calma de quem já viu estações demais passarem.
Madoc o seguia meio passo atrás, como sempre fazia sem perceber.
Hábito antigo.
Respeito silencioso.
Ou talvez apenas sua natureza reservada.
Por um tempo, nenhum dos dois falou. Apenas o som dos passos esmagando areia.
Até que Madoc limpou a garganta.
— Eu gostaria de agradecer — disse, por fim.
Omar ergueu uma sobrancelha, fingindo confusão.
— Agradecer? Pelo quê?
Madoc soltou um pequeno sorriso de canto. Quase imperceptível.
— Não finja que não sabe.
Ele chutou uma pedrinha do caminho.
— Toda semana o senhor me chama… paga bem acima do preço… por serviços que seus servos fariam sem dificuldade.
Omar olhou para frente, como se estivesse interessado demais nas palmeiras.
— Ah… isso?
Fez um gesto displicente com a mão.
— Não é nada demais.
— É sim — insistiu Madoc. — E eu sei.
O silêncio voltou por um instante.
Então Omar suspirou.
— Eu dou um dia de folga para meus serviçais — explicou. — Eles trabalham demais. Nesse dia, contrato gente de fora. Ajudo algumas almas necessitadas… e descanso a consciência.
Madoc soltou um sopro nasal.
— Então eu sou uma das almas necessitadas.
Omar riu.
Uma risada franca, curta.
— Sim. De fato.
Madoc aceitou aquilo sem ofensa.
Era verdade.
Ele não tinha nome, não tinha passado, não tinha profissão.
Apenas dois braços fortes e uma família para sustentar.
Às vezes, parecia pouco.
— O senhor é um bom homem, Senhor Omar — disse ele.
Omar parou de andar.
Virou o rosto devagar.
— Eu sou?
Havia algo quase… cansado naquela pergunta.
Como se ele próprio não acreditasse.
Madoc assentiu.
— O senhor é um dos homens mais ricos da vila. Talvez só perca para Mahees. Ainda assim escolheu viver aqui… no pó… no calor… enquanto poderia estar na capital cercado de luxo.
Ele continuou, simples e direto.
— E ainda dá trabalho para os outros.
Omar ficou em silêncio por alguns segundos.
O vento soprou por entre os trigais, fazendo as espigas sussurrarem.
— Você pode ter razão… — murmurou ele. — Mas não é bondade.
Madoc o encarou.
— É arrependimento.
A palavra caiu pesada.
— Eu já fui pobre. Passei fome. Prometi que meus filhos nunca passariam por isso.
Omar forçou um sorriso.
— Então dei tudo. Ouro. Conforto. Professores. Casas grandes.
Seu olhar se perdeu no horizonte.
— E, no processo… esqueci de dar a única coisa que importava.
Madoc não falou nada.
Sentiu que não devia interromper.
— Tempo — completou Omar. — Eu nunca estava lá.
A voz falhou levemente.
— Agora eles vivem na capital. Só falam de lucro, contratos, expansão… Quando me visitam, parece que estão negociando comigo.
Ele soltou uma risada amarga.
— Criei ótimos comerciantes. Péssimos filhos.
O coração de Madoc apertou.
Sem saber por quê.
Talvez porque… ele não lembrava do próprio pai.
Não lembrava de nada.
Era como olhar para um buraco dentro da própria cabeça.
Às vezes, tinha medo.
Medo de que, se recuperasse as memórias… pudesse não gostar do homem que foi.
— Eu trocaria todo esse dinheiro — continuou Omar, baixo — por uma segunda chance… por um vínculo como o seu.
Ele apontou discretamente para longe, onde Nakht e Narmer conversavam.
— Eles olham para você como se fosse o mundo inteiro.
Madoc acompanhou o olhar.
Narmer falava animado, gesticulando.
Nakht fingia indiferença, mas escutava.
Tão diferentes.
Tão vivos.
Meu mundo inteiro… são eles.
O pensamento veio natural.
Simples.
Assustadoramente verdadeiro.
— Eu te invejo, Madoc. De verdade — concluiu Omar.
Madoc demorou alguns segundos para responder.
— Imagino… deve ser difícil.
Não havia conselho.
Nem frases bonitas.
Só compreensão silenciosa.
Às vezes, isso bastava.
Os dois retomaram a caminhada.
O sol já começava a descer.
Mais tarde, quando o trabalho terminou, Madoc apoiava Nakht sobre os ombros.
O garoto estava acabado.
Os braços pendiam frouxos, as pernas arrastando no chão.
— Eu consigo andar… — resmungou Nakht.
— Não consegue — respondeu Madoc, calmo.
— Consigo sim…
— Não consegue.
Narmer vinha ao lado, rindo.
— Parece um peixe morto!
— Cala a boca… — murmurou Nakht.
— Pai, ele quase chorou carregando os sacos!
— Mentira!
— Chorou sim!
— Eu suei pelo olho, idiota!
Madoc balançou a cabeça, exasperado… mas havia um calor estranho no peito.
Barulho.
Vida.
Família.
Quando chegaram em casa, a porta se abriu.
Tuya apareceu com as mãos na cintura.
— Óia só quem voltou… — disse ela, sorrindo. — Os homens da casa.
O olhar dela caiu sobre Nakht pendurado no pai.
— Por Kanak!… o que aconteceu com ele?
Narmer apontou, rindo.
— Quebrou no meio!
— Eu ainda tô vivo! — protestou Nakht.
Tuya cobriu a boca para esconder o riso.
Madoc apenas a encarou.
Ela sustentou o olhar.
Os dois sorriram em silêncio.
Aquele sorriso pequeno.
Cúmplice.
De quem dividia o mesmo fardo… e a mesma felicidade.