As semanas correram rápidas como uma brisa fresca no verão.
Não deixaram marcas claras, apenas a sensação incômoda de que o tempo havia escorrido pelos dedos. Quando perceberam, Akhet já se aproximava do fim, e o vilarejo de Núbia parecia diferente, mais vivo.
O ar carregava cheiros novos cono pão assando, cevada fervendo, ervas secando ao sol. Sons que antes eram raros tornaram-se comuns como vozes de viajantes, passos de animais de carga, rodas de carroça rangendo na terra batida.
Gente de fora. Comércio. Movimento. Vida.
Alguns diziam que era coincidência. Outros falavam em sorte. Mas a maioria repetia a mesma coisa em voz baixa, quase reverente.
— É a bênção do Arcebispo Hakar — murmuravam.
E, observando de longe, realmente parecia.
Desde sua chegada, as colheitas tinham sido generosas. Menos crianças adoeciam. A sopa da igreja nunca faltava. Mercadores começaram a parar ali para descansar, e onde havia descanso… havia troca. E onde havia troca… havia prosperidade. Era como se a simples presença do homem tivesse empurrado a maré da miséria alguns passos para trás.
Diziam que ele agia em nome de Kanak.
Alguns juravam que o viram curar febres apenas com a imposição das mãos. Outros afirmavam que seus conselhos impediam brigas antes mesmo delas começarem. Verdade ou exagero, pouco importava. O povo acreditava. E, às vezes, fé era mais forte que qualquer milagre.
A maioria dos arcebispos jamais pisaria num lugar como Núbia. Preferiam a capital onde tem mármore, ouro, debates políticos, tapetes macios. Hakar era o oposto. Dormia em quartos simples, comia o mesmo pão duro que os aldeões, caminhava na poeira, chamava todos pelo nome. Por isso o respeitavam. Não como autoridade. Mas como um dos seus.
Do outro lado das plantações, sob o sol alto da manhã, Madoc cravava a enxada na terra úmida. O som ritmado ecoava entre os sulcos.
Tchac. Tchac. Tchac.
O suor escorria pela testa e descia pelo pescoço largo. Ele limpou o rosto com o antebraço e cuspiu de lado.
— Hah… essa terra tá mais macia esses dias… — Madoc resmungou enquanto afundava a ferramenta outra vez.
Entrou fácil. Fácil demais.
— Parece até que tão alimentando ela com manteiga… — completou, soltando um riso curto.
Omar não estava por ali. Nos últimos dias, o dono das terras quase não aparecia, passando a maior parte do tempo na igreja, ajudando Hakar com registros, distribuição de comida e conversas intermináveis. Madoc não entendia direito, mas também não reclamava. Menos ordens. Mais silêncio. Bom negócio.
Ao longe, ele viu mais gente na estrada principal. Forasteiros. De novo.
— Esse padre tá trazendo meio mundo pra cá… — murmurou, voltando ao trabalho.
O subsolo da residência de Mahees não lembrava em nada uma casa. Era frio como pedra funerária. As paredes de calcário bruto estavam marcadas por sulcos de cinzel e inscrições rúnicas avançadas. O cheiro de poeira, óleo de máquina e couro velho pairava no ar. Tochas fixadas em suportes de bronze crepitavam com chamas baixas, projetando sombras que pareciam se mover por vontade própria.
No centro da câmara, um círculo havia sido talhado no chão.
Madeira chocou contra madeira. Golpes rápidos. Respiração pesada.
— Mais alto o cotovelo — a voz rouca ecoou, mecânica e oca, como duas pedras se esfregando. — Sua guarda está aberta.
Nakht girou o pulso, tarde demais. A espada de madeira bateu contra sua costela e ele recuou dois passos, o ar escapando em um grunhido.
À sua frente estava o Autômato de batalha um golem de quase dois metros, esculpido em pedra escura e placas de argila reforçadas. As juntas, presas por tiras de couro encantado, permitiam movimentos fluidos demais para algo daquele tamanho. Runas fracas brilhavam em seu tórax como veias de luz.
Ele segurava uma espada de treino idêntica à de Nakht, porém se movia como um veterano de guerra.
— Postura instável — continuou a criatura. — Centro de gravidade elevado. Você morre primeiro.
Nakht cuspiu o gosto de ferro da boca.
— De novo — Nakht disse, erguendo a guarda.
O autômato avançou sem contagem nem aviso. Três golpes verticais. Nakht bloqueou o primeiro, desviou o segundo, mas o terceiro raspou no ombro. Dor ardente. Ele rangeu os dentes.
— Não recue… mantém os pés… lembra do que o meu criador disse… — murmurou para si.
Respiração pelo nariz. Expiração lenta.
O mundo desacelerou.
Seus músculos já não eram os de semanas atrás. Ombros mais largos, braços definidos, veias saltando sob a pele suada. Cada movimento agora carregava peso. Intenção. Força.
O golem estocou direto. Nakht bateu a lâmina lateralmente e escorregou para o flanco, contra-atacando a cintura. O som ecoou pelo porão.
— Correto — disse o autômato. — Ângulo eficiente. Continue.
Os golpes aceleraram. Passos raspando pedra. Madeira vibrando. Poeira subindo.
Então ele sentiu.
Um calor sob a pele. Não físico. Mais profundo. Como sangue espesso demais para ser apenas sangue.
Aura.
Fraca. Instável. Mas ali.
Ele desceu a espada com mais intenção. O impacto soou mais pesado.
— Força aumentada em 7% — analisou o golem. — Uso rudimentar de aura detectado. Repita.
Os olhos de Nakht brilharam.
Dessa vez, ele atacou primeiro. Corte diagonal, chute baixo, empurrão de ombro. O golem bloqueou, mas recuou meio passo.
Só meio.
Mas era progresso.
— Bom… — Nakht murmurou.
O autômato girou o corpo inteiro.
BAM!
O ombro de pedra o acertou como um aríete. Nakht voou para trás e caiu de costas, sem ar.
— Excesso de confiança detectado — declarou o golem. — Morto.
Nakht ficou olhando o teto por alguns segundos, suando, dolorido… sorrindo.
— …de novo — disse, levantando.
Acima do solo, a atmosfera era outra. Incensos queimavam lentamente, o aroma doce de mirra preenchendo a sala.
Narmer estava sentado de pernas cruzadas, coluna ereta, olhos fechados, mãos nos joelhos. Tentando. Tentando há horas.
Mahees observava de pé, braços cruzados, expressão cansada. Ao lado, um jovem dedilhava uma lira, notas suaves vibrando no ar como se tocassem algo invisível.
— Respire fundo, Narmer — disse Mahees com paciência. — Sinta o prana. Não procure. Apenas perceba.
Narmer inspirou. Soltou.
Nada.
— Eu… não sinto nada, mestre… — murmurou.
A música mudou de ritmo. Mesmo assim, nada.
— Tente mais uma vez — pediu Mahees, gentil.
Narmer apertou os punhos.
— Eu… eu quero conseguir…
Minutos se passaram.
— Mestre… por que é tão fácil pro Nakht? — ele sussurrou.
Mahees suspirou antes de responder.
— Porque cada pessoa nasce com portas diferentes, garoto — disse, pousando a mão em sua cabeça. — Algumas abrem para o corpo. Outras para a alma. Algumas… quase não abrem.
Narmer mordeu o lábio.
— Então eu… sou inútil?
A voz do velho ficou firme.
— Nunca repita isso. Poder espiritual não define valor. Só define o caminho. Se a alma não responde… então fortaleceremos o corpo. Ou a mente. Ou ambos. Sempre há um caminho.
Lá embaixo, o som do treino ecoava.
— Mas hoje… vamos descansar — concluiu Mahees.
— …sim, mestre — Narmer respondeu, cabisbaixo.
No porão, Nakht arfava, coberto de hematomas, mas de pé. A espada tremia em suas mãos.
— Última rodada — disse o autômato.
Nakht sorriu.
— Vem com tudo, meu nobre! — respondeu, avançando.
Eles colidiram. Sem hesitação. Golpes fluindo como água, bloqueios se tornando contra-ataques, pés dançando no círculo de pedra.
E por um breve segundo, a aura ao redor dele cintilou como vapor quente.
Pequena.
Mas real.
O autômato recuou.
Pela primeira vez.
— Progresso confirmado — declarou.
Nakht ergueu a espada, olhos ardendo de determinação.
Lá em cima, um garoto lutava para sentir a alma.
Aqui embaixo, outro lutava para forjar o próprio corpo.
Dois caminhos. Duas batalhas. Ambos difíceis. Ambos solitários.
E apenas começavam.