Mahees preparou o café em silêncio, o aroma forte das ervas torradas se espalhando lentamente pela sala simples. O crepitar da chaleira foi o único som por alguns instantes. Ele serviu duas xícaras de cerâmica, aproximou-se da poltrona onde seu colega descansava e se sentou de frente para ele, as cadeiras quase se tocando. O vapor subia entre os dois como uma névoa quente, suavizando o frio da manhã.
Ambos beberam um gole em silêncio.
O bardo apoiou a xícara no joelho, observando o líquido escuro girar lentamente.
— Mahees… você sempre me impressiona, sabia? — Ziggy disse, erguendo os olhos claros. — Nunca imaginei que veria um garoto que não reagisse à terapia de frequência espiritual.
Mahees soltou o ar pelo nariz, cansado.
— É pior do que eu imaginava, Ziggy — respondeu, encarando o café como se buscasse respostas no fundo da xícara. — Eu nunca vi algo assim… é como se ele estivesse morto em espírito.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Ziggy apenas suspirou e tomou outro gole. Ele coçou levemente o couro cabeludo sob os fios loiro-claros, um gesto distraído de alguém que pensava demais e falava pouco.
— Sim… e é até irônico, não acha? — ele comentou. — O irmão mais velho é cheio de vida, energia transbordando… e o irmão mais novo tem quase nada.
Mahees assentiu lentamente.
— Você tem um ponto. Nakht é, sem dúvidas, especial. Quando começamos o treinamento físico para aumentar a produção de aura, ele gerou muito mais que o normal… — seus olhos brilharam por um instante, misto de surpresa e preocupação. — É como se o corpo dele fosse algo completamente fora de curva.
Ziggy soltou um leve riso nasal.
— Um é abençoado pela vida… o outro é abençoado pela morte.
Ele girou a xícara entre os dedos antes de continuar, agora mais sério.
— O que você tem em mãos, Mahees, é algo completamente anormal. Sempre houve pessoas com espiritualidade baixa, isso é comum. Mas a terapia de frequência eventualmente estabiliza o corpo e a alma, cria um elo, mesmo que fraco… permite seguir nas artes místicas. — Ele ergueu os olhos. — Porém a terapia falhar a ponto de sequer formar um elo entre alma e corpo… isso nunca aconteceu na história.
As palavras ficaram suspensas no ar como poeira.
Mahees apoiou os cotovelos nos joelhos, entrelaçando os dedos.
— A única opção é convocar o mestre… — murmurou. — Ele é minha última escolha… além do Veterano William.
Ziggy franziu o cenho.
— William? — repetiu, com descrença. — Ele é uma opção mais viável, sim… mas duvido que os estudos dele tenham dado frutos. E não acho que você queira transformar seu aluno em cobaia.
Mahees fez uma careta discreta.
— Ele pode ser o melhor entre nós… mas eu também não confio nos métodos medicinais dele — completou Ziggy. — Gênio demais costuma esquecer que está lidando com pessoas.
— Você tem razão… — Mahees suspirou, derrotado.
Ziggy tomou o último gole de café e repousou a xícara na pequena mesa ao lado.
— Falando no mestre… ele já respondeu?
— Ainda não. Deixei mensagens através do espelho, mas nada. — Mahees massageou a testa. — Deve estar ocupado, como sempre.
Ziggy deu um meio sorriso.
— Ele sempre está. Para alguém como ele, anos são como segundos. Nossa pressa provavelmente nem existe do ponto de vista dele.
O silêncio voltou a se instalar.
Depois de alguns instantes, o bardo falou novamente, agora mais direto:
— Já faz cinco dias que estou aqui tocando canções para seu pupilo, tentando alinhar a frequência da alma dele… e nada mudou. — Ele inclinou a cabeça. — Eu não posso ficar aqui para sempre, sabia?
Mahees assentiu.
— Eu entendo. E agradeço, de verdade. Pode ir, se quiser.
Ziggy levantou-se devagar e pousou a mão no ombro do amigo.
— Ei… não fique assim. Você tentou o seu melhor. Nem sempre é possível ajudar todo mundo. — Ele sorriu de leve. — Pelo menos o irmão mais velho tem futuro.
Mahees não respondeu.
Ziggy deixou a xícara vazia sobre a mesa e caminhou até o grande espelho apoiado na parede do corredor. A moldura de bronze estava gravada com pequenas runas opacas, quase invisíveis à primeira vista.
Ele estalou o pescoço, alongando os ombros.
— Até logo. Foi um grande prazer vê-lo, amigo — Ziggy disse, erguendo a mão em despedida. — Se eu encontrar o mestre, aviso para entrar em contato com você.
— Agradeço… — Mahees respondeu em voz baixa.
Ziggy estendeu a mão e tocou o espelho.
A superfície ondulou.
Como água.
Seus dedos atravessaram o vidro sem resistência, engolidos por uma camada prateada e líquida. Sem hesitar, ele deu mais um passo e o corpo inteiro afundou no reflexo, desaparecendo como uma pedra jogada num lago.
A superfície voltou ao normal.
Silêncio.
A casa ficou vazia.
Mahees permaneceu sozinho, segurando a xícara fria, encarando o próprio reflexo no espelho imóvel — e, pela primeira vez em muito tempo, sem saber o que fazer a seguir.