Com o fim do primeiro mês de Akhet, o Arcebispo Hakar despediu-se do vilarejo de Núbia.
A manhã estava clara, o sol já alto, tingindo os campos de dourado. Alguns moradores se reuniram na estrada apenas para vê-lo partir.
Não havia carruagens nem guardas, era apenas ele com sua túnica simples, sandálias gastas e o velho cajado de madeira clara.
Ainda assim, ninguém ousava tratá-lo como alguém comum.
— Que Kanak ilumine seus passos, arcebispo — disse uma mulher, curvando-se.
— Volte quando puder! — gritou uma criança.
Hakar apenas sorriu.
— Se o Sol permitir, eu retornarei — respondeu com calma. — Continuem ajudando uns aos outros. Isso vale mais que qualquer sermão.
Então seguiu pela estrada de terra, pequeno contra o horizonte, até desaparecer.
E, quando sumiu, Núbia pareceu… quieta demais.
Mas as mudanças que ele deixara permaneceram.
O forno da padaria nunca esfriava. As carroças chegavam com mais frequência. As hortas cresciam mais verdes. Prosperidade silenciosa, mas constante.
Vida.
Longe das casas, perto de um afloramento de pedras, Nakht treinava.
Seu cotovelo descia contra a rocha repetidas vezes.
A dor já não era aguda, pois era quente, espalhada, constante.
Mesmo assim, ele continuava.
Girava o quadril. Contraía o abdômen. Descia o golpe com o peso do corpo inteiro.
— Mais fundo… — murmurou para si. — Mais forte!
A pele do cotovelo estava vermelha e inchada. Pequenas rachaduras sangravam.
Ele ignorou.
Se doer… significa que está funcionando.
Respirou fundo.
Sentiu.
Aquela estranha pressão sob a pele. Como vapor preso dentro dos músculos.
Aura.
Fraca… mas viva.
Ele fechou o punho.
Então golpeou de novo.
A rocha tremeu levemente.
Seus olhos brilharam.
— Progresso.
Um sorriso torto surgiu em seu rosto suado.
— Se o golem visse isso, diria uma besteira como “força muscular aumentada em três por cento”… — imitou a voz mecânica do autômato e riu sozinho.
Mas o riso sumiu rápido.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Ainda é pouco… ainda é lento…
Se Nakht parasse… ele pensava demais.
E pensar doía mais que treinar.
Por isso continuava.
Sempre continuava.
Perto dali, sentado à sombra de uma árvore, Narmer observava.
Tinha um pano e uma jarra com água ao lado.
Ele tinha uma tarefa simples a de esperar o irmão terminar.
Ele assistia em silêncio.
Cada golpe ecoava em seu peito.
Ele melhorou de novo…
Nakht parecia diferente a cada semana. Maior. Mais firme. Mais… vivo.
Enquanto isso…
Narmer olhou para as próprias mãos finas.
Nenhuma prana
Nenhuma sensação.
Nada.
Apenas… normal.
— Você vai furar a pedra desse jeito — comentou, tentando soar leve quando Nakht se aproximou para beber água.
Nakht pegou a jarra e virou metade de uma vez.
— Tomara — respondeu, ofegante. — Aí o mestre me deixa lutar com algo de verdade.
Narmer forçou um sorriso.
— Você é maluco.
— E você é mole demais — Nakht provocou, rindo. — Devia treinar comigo às vezes.
Narmer desviou o olhar.
— Eu… prefiro os livros.
Nakht percebeu a hesitação.
Ficou em silêncio por um instante.
— Ei — ele cutucou o ombro do irmão. — Cada um tem o próprio jeito, né?
Narmer assentiu, mas a frase não o convenceu.
Porque ele já sabia.
Não era o “jeito”.
Era a falta.
Mais tarde, dentro da casa de Mahees, a aula começava.
Três jovens sentavam-se em círculo sobre tapetes de palha. O ar cheirava a incenso de mirra. Pequenos sinos pendiam do teto, vibrando levemente com o vento.
Narmer ficava de lado, organizando livros.
Assistindo.
Sempre assistindo.
— Fechem os olhos — disse Mahees com calma. — Sintam o prana. Não forcem. Apenas escutem o próprio interior.
Silêncio.
Respirações lentas.
Minutos passaram.
Então—
— Mestre… eu senti! — disse uma garota, surpresa. — É quente… como água morna!
— Muito bem — Mahees respondeu com um sorriso orgulhoso. — Esse é o primeiro elo.
Outro rapaz ergueu a mão.
— Eu também… algo no peito… como uma vibração.
— Excelente. Mantenha a calma. Não persiga. Deixe fluir.
Narmer apertou o livro contra o peito.
Todos conseguem…
Ele fechou os olhos discretamente.
Tentou também.
Respirou.
Esperou.
Nada.
Nem calor. Nem vibração. Nem silêncio diferente.
Só… vazio.
Abriu os olhos.
Os outros já sorriam, animados.
Mahees anotava progressos.
Ninguém o chamava.
Ninguém esperava nada dele.
Porque já sabiam.
Eu nem consigo começar…
Ele abaixou a cabeça.
Talvez ele tivesse nascido quebrado.
Ao entardecer, Nakht voltou do treino, sujo de poeira.
Encontrou Narmer sentado na escada, encarando o chão.
— Aula acabou? — Nakht perguntou.
— Uhum.
— E aí? Conseguiu alguma coisa?
Silêncio.
Narmer forçou um sorriso.
— Consegui… organizar os livros mais rápido que ontem.
Nakht parou.
Entendeu.
Coçou a nuca.
— …quer treinar comigo amanhã?
— Pra quê? Eu só ia atrapalhar.
— Idiota — Nakht deu um leve soco no ombro dele. — Você é meu irmão. Não atrapalha.
Narmer olhou surpreso.
Nakht virou o rosto, meio sem jeito.
— Além disso… — murmurou — é chato treinar sozinho.
Por alguns segundos, o peso no peito de Narmer diminuiu.
Só um pouco.
— Tá bom… eu vou.
— Então levanta essa cara de funeral — Nakht disse, estendendo a mão. — Vamos comer antes que o mestre pegue tudo.
Narmer riu fraco.
Segurou a mão do irmão.
E levantou.
Talvez ele não tivesse talento.
Talvez nunca tivesse.
Mas… pelo menos não estava sozinho.
E, às vezes, isso já bastava.