Cinco anos haviam se passado desde aquele dia,
A areia encontrava-se revirada como terra arada, palmeiras quebradas jaziam inclinadas em ângulos estranhos, e o ar quente tremulava com o peso de impactos recentes. No centro daquele caos, uma figura avançava como um aríete humano, atravessando o terreno com passadas largas e violentas, cada passo afundando o solo e arremessando poeira para trás como a cauda de um cometa.
Era Nakht
Seu corpo agora era gigantesco alto como dois homens comuns, ombros largo como uma muralha movia-se com leveza absurda, músculos talhados sob a pele escura como se tivessem sido esculpidos por um deus artesão. As veias saltavam, o suor brilhava sob o sol impiedoso, mas sua respiração permanecia controlada, ritmada, treinada. Aquilo não era fuga.
Era aquecimento.
Atrás dele, dezenas de criaturas de Golemacia rompiam o oásis em perseguição.
Leões de bronze, rinocerontes de ferro, serpentes segmentadas por runas luminosas, todos correndo com movimentos artificiais e violentos, olhos acesos como carvões. O som de engrenagens, placas se encaixando e cascos metálicos esmagando a areia ecoava como um exército marchando.
Nakht olhou por cima do ombro e sorriu de canto.
— O Velho Mahees realmente caprichou hoje em?
Ele girou o corpo enquanto corria, cravou os pés no chão e deslizou vários metros, abrindo um sulco profundo na areia antes mesmo de parar completamente. No mesmo instante, um leão mecânico saltou das palmeiras, presas abertas, garras cortando o ar em um arco mortal, rápido o suficiente para rasgar um cavalo ao meio.
Nakht não recuou.
Avançou.
A mão dele agarrou a juba metálica da criatura no meio do salto, interrompendo o movimento com um tranco brutal. O impacto foi tão violento que o ar ao redor estalou. Usando o próprio peso do monstro, ele girou o quadril e o esmagou contra o chão, afundando a carcaça na areia como um meteoro. Antes que as runas reagissem, seu punho já descia revestido de aura densa, pesada como rocha maciça.
O golpe atingiu a cabeça do leão.
A estrutura inteira cedeu.
A explosão espalhou fragmentos de metal como chuva.
Ele já caminhava quando os destroços ainda caíam.
Um rugido grave rasgou o ar. O rinoceronte surgiu atravessando palmeiras como gravetos, três metros de altura, duas toneladas de puro ferro rúnico avançando a uma velocidade insana. A investida fazia o chão vibrar como um tambor de guerra.
Nakht simplesmente firmou os pés.
Quando a colisão veio, o som pareceu o choque entre montanhas.
Ainda assim, o monstro parou.
O chifre pressionava o abdômen dele, mas não avançava um centímetro. Os músculos de Nakht incharam como cordas tensionadas, os pés afundando na areia enquanto ele segurava a criatura pelo rosto. Com um único giro de quadril, ergueu aquela massa absurda acima da cabeça e a arremessou para longe. O rinoceronte cruzou o céu como um projétil e desapareceu atrás das dunas.
Antes que o eco do impacto retornasse, algo frio se enrolou em seu corpo.
Uma serpente colossal.
Anéis de pedra comprimiram seus braços, costelas, pescoço, apertando com força suficiente para esmagar aço. As runas brilhavam enquanto a pressão aumentava, tentando dobrar seus ossos.
Nakht soltou um riso baixo.
— Só isso?
Seus músculos se expandiram violentamente, veias pulsando como rios. A aura vazou pelos poros como vapor. Com um único movimento de expansão, ele forçou os braços para fora e a serpente simplesmente não aguentou. As placas racharam, depois se estilhaçaram, e o corpo inteiro explodiu em dezenas de pedaços.
O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo.
Então vieram os passos.
Pesados. Compassados. Inegáveis.
Cada um fazia a água do oásis tremer em círculos.
Das sombras surgiu o Automoto de Batalha, uma armadura colossal com quase quatro metros e meio de altura, placas espessas reforçadas por camadas de runas, juntas protegidas por selos luminosos. Não parecia uma criatura — parecia uma fortaleza que aprendera a andar.
Os olhos vermelhos acenderam.
Nakht estalou o pescoço, animado.
— Agora sim… hoje e o dia que eu finalmente acabo com você!
— Iniciando...
Eles desapareceram ao mesmo tempo.
O choque aconteceu no meio do campo como um trovão. Punhos colidiram, e a onda de impacto varreu areia e folhas por dezenas de metros. O automoto girou o tronco e desferiu uma sequência brutal de golpes com socos curtos, cotoveladas esmagadoras, chutes e joelhadas calculadas onde cada movimento e preciso como uma máquina de guerra.
Nakht respondia no mesmo ritmo.
Bloqueava com os antebraços. Deslizava o corpo por centímetros. Desviava sentindo o vento cortar o rosto.
Metal contra carne endurecida por aura produzia sons secos, violentos.
O automoto de repente canalizou energia, as runas brilhando intensamente, e lançou um gancho devastador direto no rosto de Nakht. O impacto o lançou para trás como uma bala de canhão. Ele voou, mas no ar agarrou o tronco de uma palmeira, dobrou a árvore como uma mola e se impulsionou de volta.
A aura ao redor de sua perna tomou forma.
Escamas.
Presas.
Um dragão rugindo feito uma tempestade emergiu.
— Fúria de Krum!
Ele desceu como um meteoro.
O chute colidiu com os braços cruzados do automoto e o mundo pareceu explodir. O chão afundou formando uma cratera, a água do oásis se ergueu em ondas, as palmeiras se curvaram como se temessem o impacto. As placas do golem rangeram, rachaduras correndo pelas runas.
Mesmo bloqueando, ele foi forçado um passo para trás.
Só um.
Mas foi o suficiente.
Nakht pousou diante dele, sangue escorrendo do lábio, sorriso largo no rosto, olhos brilhando de excitação.
— Finalmente! Hoje e nosso último duelo
As runas do automoto brilharam mais forte.
— Potência ajustada. Combate real iniciado.
O ar ficou pesado.
O chão tremeu novamente.
Eles avançaram ao mesmo tempo.
Não houve hesitação, cálculo ou teste de distância, era apenas pura intenção de esmagar o outro.
O chão cedeu sob os pés de Nakht no instante em que ele disparou, a areia explodindo para trás como uma cortina dourada. Do outro lado, o Automoto de Batalha inclinou o torso e impulsionou-se com força mecânica, as runas nas pernas brilhando como fornalhas, cada passo deixando pegadas profundas como crateras.
Duas massas colossais cortando o ar.
Então colidiram.
Punho contra punho.
O impacto produziu um estrondo seco, semelhante ao choque entre dois aríetes de guerra. A onda de choque se espalhou em um círculo visível, varrendo o oásis inteiro!
A água tremeu, palmeiras se curvaram violentamente, folhas foram arrancadas e lançadas ao céu como pássaros assustados.
Nenhum dos dois recuou.
Os braços tremeram.
Os músculos de Nakht incharam.
As placas do automoto rangeram.
E então a trocação começou.
Nakht girou o ombro e desferiu um cruzado brutal na lateral do elmo metálico. O golpe afundou a armadura e produziu um estampido surdo. Antes que o som morresse, o automoto já revidava com um direto no estômago, pesado como um martelo de cerco, dobrando o ar ao redor do impacto.
— Boa força… você ficou mais pesado, não ficou? O velho Mahees realmente te deu uma melhorada
— Potência atual: cento e trinta e dois por cento — respondeu o automoto, a voz metálica vibrando dentro do elmo. — Objetivo: suprimir alvo Nakht.
— Tenta.
Nakht travou os músculos e absorveu, deslizando meio passo para trás.
Ele respondeu com uma cotovelada ascendente no queixo da armadura.
O automoto rebateu com uma joelhada.
Soco.
Bloqueio.
Gancho.
Martelada.
Metal e carne colidiam sem descanso, cada choque liberando pequenas explosões de ar comprimido. A areia ao redor foi sendo empurrada para longe, formando um círculo limpo como se o próprio campo temesse se aproximar deles.
O automoto atacava com precisão mecânica, ângulos perfeitos, força constante. Nakht lutava como uma fera de maneira imprevisível, pesado, esmagador. Ele desviava por centímetros, deixava golpes raspando sua pele apenas para entrar na guarda do inimigo e devolver dois ou três impactos ainda mais violentos.
Nakht girou o quadril e disparou um cruzado contra a lateral da cabeça do golem. O metal afundou com um clang surdo, mas o automoto já havia girado o corpo no mesmo movimento, usando o impacto para alimentar um contra-ataque. Um direto veio como um pistão, esmagando o ar antes mesmo de tocar.
Nakht ergueu o antebraço.
O golpe o empurrou vários metros, os pés sulcando a areia.
— Tsc… — ele cuspiu sangue de leve. — Ainda bate como um aríete.
O automoto não respondeu.
Avançou.
Sequência perfeita.
Soco alto, soco baixo, cotovelada, joelhada.
Sem desperdício de movimento. Sem emoção. Apenas eficiência.
Nakht desviava por centímetros, sentindo o vento dos golpes cortar seu rosto. Ele bloqueava o necessário, absorvia o inevitável e respondia com violência ainda maior. Um gancho no abdômen, uma cabeçada no elmo, uma rasteira que fez o gigante de metal perder o equilíbrio por um instante.
— Muito previsível! — Nakht provocou, girando o corpo para escapar de um martelo descendente. — Sempre a mesma cadência!
— Analisando padrão de esquiva… — as runas do peito piscaram. — Ajustando trajetória.
O próximo golpe mudou.
Veio mais curto.
Mais rápido.
Acertou o ombro de Nakht em cheio.
Ele foi arremessado contra uma palmeira, quebrando o tronco no impacto.
— …Tch.
Antes que se levantasse, o automoto já estava sobre ele, punho erguido para esmagar.
Nakht rolou para o lado.
O soco atingiu o chão.
A areia explodiu como dinamite.
Nakht surgiu por baixo da guarda e acertou três golpes consecutivos nas juntas do joelho do golem.
Rachaduras se espalharam.
— Junta direita comprometida — anunciou a máquina.
— Agora você fala minha língua.
O automoto girou o torso e lançou uma cabeçada.
Nakht não recuou.
Testa contra metal.
O som ecoou pesado.
Ele riu.
— Finalmente… é assim que se luta!
Um soco dele atingiu o tórax do golem.
As placas racharam.
O automoto respondeu com uma cabeçada que abriu um corte na sobrancelha de Nakht.
Sangue escorreu.
Ele sorriu.
— É disso que eu tô falando…
O golem ergueu os dois braços para esmagá-lo de cima.
Nakht mergulhou para dentro da guarda.
Em vez de recuar, colou o corpo ao do adversário.
Peito contra metal.
Calor contra frio.
As mãos dele se abriram e pressionaram o abdômen reforçado do automoto, bem no centro das runas de energia.
Por um instante, tudo desacelerou.
Ele fechou os olhos.
Inspirou profundamente.
O ar entrou pesado, denso, como se estivesse sugando o próprio deserto para dentro dos pulmões.
O coração bateu uma vez.
Duas.
A aura deixou de ser selvagem.
Comprimeu.
Condensou.
Como veneno acumulando-se nas presas de uma serpente.
As runas do automoto piscaram.
— Anomalia interna detecta—
Tarde demais.
Os olhos de Nakht se abriram, frios e predatórios.
Sua voz saiu baixa. Grave. Antiga.
— Presas de...Apep.
A aura não explodiu para fora.
Ela penetrou.
Escorreu pelas frestas da armadura como fumaça viva, infiltrando-se nas juntas, nos selos rúnicos, nos canais de energia.
Por um segundo, nada aconteceu.
Então o interior do automoto começou a brilhar.
Luz escapou pelas rachaduras.
As runas enlouqueceram.
E o som que se seguiu não foi de um impacto externo e sim interno.
A explosão veio de dentro para fora.
As placas do peito se projetaram como estilhaços, braços foram arremessados longe, a cabeça girou no ar antes de cravar na areia. Uma onda de choque circular expandiu-se violentamente, varrendo o oásis e levantando uma tempestade de poeira que engoliu tudo ao redor.
Quando a areia baixou, só restavam destroços espalhados como ossos de um titã abatido.
Nakht permanecia no centro.
Braços ainda estendidos.
Vapor subindo do corpo.
Respiração pesada.
A aura dissipando como fumaça após um incêndio.
Ele estalou o pescoço, chutou um pedaço da armadura fumegante para o lado e sorriu, cansado, mas satisfeito.
— Cinco anos, mas finalmente consegui mostrar essa lata velha o seu lugar.
O oásis voltou ao silêncio.
Só o vento.
E os restos de mais um treino que nenhum humano comum sequer sobreviveria para presenciar.