O sol já descia no horizonte quando Nakht atravessou os últimos metros de areia que separavam o oásis do vilarejo de Núbia.
O céu estava tingido de tons dourados e alaranjados, e a luz morna do fim de tarde repousava sobre as casas de barro como um manto tranquilo, tão diferente do caos que ele deixara para trás. Depois de horas de impacto, explosões e metal rasgando o ar, aquele silêncio quase parecia estranho.
Seus passos eram pesados, mas calmos.
O corpo ainda fumegava levemente do esforço. Pequenos cortes marcavam os braços, hematomas escureciam a pele, e poeira cobria seus ombros largos como uma segunda pele. Ainda assim, havia satisfação em seu semblante.
Ele tinha vencido.
Pela primeira vez… vencido de verdade.
Perto da entrada do vilarejo, sob a sombra torta de uma tamareira antiga, uma figura já o aguardava.
Mahees.
O velho estava sentado sobre uma pedra larga, apoiado em seu cajado, como se estivesse ali há horas. Os olhos semicerrados, o rosto cheio de rugas profundas, mas atentos como os de uma águia.
Nakht diminuiu o passo.
Claro… ele já sabia.
Mahees ergueu o olhar devagar e soltou um leve bufar nasal, quase um riso.
— Oh… — disse, inclinando a cabeça de lado — dessa vez você voltou com as próprias pernas, hm?
O tom provocativo era inconfundível.
Nakht parou a alguns passos dele, levou as mãos à cintura e soltou uma gargalhada cansada.
— Boa tentativa, velho… — respondeu, ainda recuperando o fôlego. — Mas dessa vez eu finalmente venci.
Havia orgulho na voz. Um orgulho infantil, quase.
Como um garoto pedindo reconhecimento.
Mahees o observou em silêncio por alguns segundos.
Não sorriu.
Não zombou.
Apenas assentiu.
— Sim… você finalmente venceu.
O tom era calmo. Simples demais.
Algo estranho.
— Agora… eu não tenho mais nada para te ensinar.
O sorriso de Nakht congelou.
— …Espera. O quê?
Mahees apoiou o cajado no chão e se levantou com a tranquilidade de sempre, como se tivesse acabado de comentar sobre o clima.
— As aulas acabaram.
E começou a andar.
Simples assim.
Como se fosse embora depois de comprar pão.
— Ei— ei, ei, ei! — Nakht estendeu a mão, pego desprevenido. — Espera um momento aí! Velho Mahees!
Ele correu atrás dele, quase tropeçando nos próprios pés, algo cômico demais para alguém do seu tamanho.
— Como assim acabou o treino?! Você só solta isso e vai embora?!
Mahees continuou andando sem pressa.
— Significa exatamente o que eu disse. Eu terminei o seu treinamento.
— Terminou…? — Nakht repetiu, atônito. — E agora?
O velho lançou-lhe um olhar de canto.
— Agora depende de você.
Nakht piscou.
— Depende… de mim?
— Sim.
Os dois caminharam lado a lado pela estrada de terra que levava ao vilarejo. O vento levantava pequenas espirais de poeira ao redor dos pés.
— Eu te ensinei a lutar. Ensinei a sobreviver. Ensinei a suportar dor, medo e cansaço. — A voz de Mahees era firme, mas tranquila. — O resto não é algo que eu possa colocar nos seus punhos.
Ele apontou o cajado para o peito de Nakht.
— O resto vem daqui.
Nakht ficou em silêncio.
Então Mahees continuou:
— Você pode tentar a Academia Imperial da Escola de Krum.
O nome caiu pesado.
Nakht parou de andar.
— A… Academia Imperial…?
— A melhor academia de formação de guerreiros e militares do Império — confirmou Mahees. — Eu ainda tenho alguns contatos. Posso conseguir uma recomendação para você.
O coração de Nakht bateu mais forte.
— Você tá falando… dos Guerreiros de Krum…?
— Sim.
O velho o encarou diretamente.
— A elite da elite.
Por um instante, Nakht se viu usando aquela armadura, marchando ao lado de soldados lendários, lutando nas fronteiras, protegendo cidades inteiras. Honra. Glória. Força.
Era o sonho de qualquer guerreiro.
Seus dedos se fecharam sozinhos.
— Isso… isso seria a maior honra possível…
Mas a empolgação morreu antes de terminar a frase.
O olhar dele caiu.
— …Porém…
Mahees esperou.
— Eu teria que ir pra capital… — Nakht murmurou. — Teria que deixar o vilarejo… meu pai… minha mãe… Narmer…
A imagem da família veio à mente.
Seu peito doeu mais do que qualquer golpe que havia recebido dos Golem.
Mahees observou o conflito sem interromper.
Então falou, mais suave do que o habitual.
— Não precisa decidir agora.
O vento soprou entre eles.
— Pense bem. Com calma. — Ele voltou a caminhar. — Caminhos grandes sempre cobram algo em troca.
Deu mais alguns passos, então completou.
— Faça sua escolha… Nakht.
E seguiu em frente, deixando-o parado no meio da estrada, sozinho com o pôr do sol e com o peso do próprio futuro.