Nakht e Narmer atravessaram a porta de casa empurrando-a com os ombros, ainda no meio de uma discussão que já vinha desde a rua.
O interior os recebeu com o cheiro morno de pão assando e ervas secas penduradas nas vigas do teto. A luz do fim de tarde atravessava as janelas estreitas, tingindo o chão de barro com tons dourados.
Narmer carregava um livro grosso apertado contra o peito como se fosse um tesouro.
Nakht lançou um olhar enviesado.
— Você pegou um livro novo? O que ele tem de especial?
Narmer ajeitou os óculos no nariz, visivelmente animado.
— Esse grimório é uma cópia do Franga Preta. Ele cataloga diversas profissões mágicas. Ensina o artesanato rúnico, criação de talismãs, fundição de anéis encantados… até fundamentos cabalísticos de construção espiritual.
Ele falava rápido demais, quase tropeçando nas próprias palavras, como se tivesse medo de esquecer algum detalhe.
Nakht bocejou alto.
— Isso parece bem chato.
Narmer parou.
— Chato?
— É. Um monte de velhos escrevendo teoria.
— Claro… — Narmer bufou, virando o rosto — … um ignorante não entenderia a complexidade disso.
Nakht riu.
— Prefiro socar coisas.
— Sim, eu sei. Seu cérebro também.
Antes que a discussão escalasse, passos suaves ecoaram da cozinha.
Tuya surgiu limpando as mãos em um pano, o rosto iluminado por aquele sorriso que só mães possuem — cansado, mas infinitamente acolhedor.
— Ora… quem chegou.
Os dois imediatamente se endireitaram.
A tensão desapareceu.
Mesmo Nakht, que enfrentava monstros de pedra sem hesitar, sempre ficava estranhamente dócil perto dela.
— Voltaram cedo hoje — ela comentou. — Treino acabou mais rápido?
Nakht coçou a nuca.
— Mais ou menos…
Ele trocou um olhar rápido com Narmer.
O peso do fim do treinamento com Mahees ainda pressionava seu peito, mas ele não queria estragar aquele momento simples.
Casa. Cheiro de comida. Vozes familiares.
Coisas pequenas demais… e preciosas demais para alguém que talvez tivesse que partir.
Seus dedos se fecharam lentamente.
[.]
O ar dentro do laboratório era denso, pesado com cheiro de reagentes e vidro aquecido.
Frascos borbulhavam em mesas longas. Tubos serpenteavam como veias artificiais. Criaturas estranhas dormiam dentro de cilindros transparentes, flutuando em líquidos.
William ouvia com os braços cruzados, a impaciência quase visível.
— Eu preciso de sua ajuda — disse Mahees por fim. — Tenho um aluno… com um problema especial. Único.
— Que tipo de problema?
Mahees respirou fundo.
— Ele praticamente não tem alma. É como… um vivo natimorto.
William ergueu uma sobrancelha.
— Essa é, de longe, a descrição mais estranha que já ouvi.
Mahees caminhou devagar, a bengala ecoando no chão vítreo.
— Como você sabe, o corpo é um sistema bioelétrico avançado. o fluxo de Íons e elétrons do corpo ajuda a garantir que o corpo funcione harmoniosamente e apoie funções vitais.
William revirou os olhos.
— Você pode pular essa parte. Eu sei como o corpo humano funciona.
— Eu sei que sabe — Mahees sorriu de leve — mas velhos professores têm vícios. ,— Gostamos de começar do início.
— Certo… continua com essa merda então.
Mahees ignorou o comentário.
— O coração produz e armazena energia. O que chamamos de aura. Soldados usavam joias para fortalecer e enriquecer o fluxo.
— Ainda estamos no prefácio — murmurou William.
Então Mahees parou.
Seu tom mudou.
Ficou mais baixo.
Mais sério.
Un excelentíssimo filho da puta dramático na visão de William.
— Porém… existe algo mais profundo. Algo que não pertence à matéria.
Silêncio.
— Energia espiritual. Nascida da alma. Frequência pura. O elo entre o homem e o divino.
William revirava os olhos esperando.
— Continue.
— Como você já sabe, existe a espiritualidade alta e a espiritualidade baixa. Isso pode ser percebido de várias maneiras… às vezes na personalidade, às vezes em algo muito mais profundo. — Mahees cruzou os braços, o olhar pesado de reflexão. — Essas pessoas não estão corretamente vinculadas à próprias alma. É como se houvesse um desalinhamento, uma dissonância interna.
Ele fez uma breve pausa antes de continuar.
— Para corrigir isso, elas precisam se sintonizar com a própria essência. E o método mais eficiente é a manipulação de frequência.
Sua voz soava técnica, quase clínica.
— Quando ajustamos a frequência correta, corpo e alma passam a vibrar em harmonia, como dois instrumentos tocando a mesma nota. Normalmente, é uma tática infalível.
O silêncio que se seguiu pesou no ar.
— Porém… desta vez falhou. — Seus olhos se estreitaram. — Algo que simplesmente não deveria acontecer. E é por isso que estou aqui. Preciso que você me ajude a desvendar esse mistério.
Ele então acrescentou, em tom mais grave.
— Para piorar… o indivíduo também não produz nem acumula aura..
William pareceu pensativo por um momento e completou.
— Nenhuma produção biológica… e nenhuma produção espiritual?
— Exato.
Pela primeira vez, um brilho genuíno surgiu nos olhos reptilianos de William.
Interesse puro..
— Interessante… — ele murmurou.
— Interessante? — Mahees franziu o cenho.
Um sorriso torto surgiu no rosto de William.
— O que você trouxe até mim… não é um problema.
Ele caminhou até uma mesa, pegando uma prancheta.
— É a possibilidade de um caso que nunca existiu antes.
Virou-se.
— Um paradoxo.
A voz ficou mais animada.
Quase infantil.
— Um espécime único.
Ele anotou algo.
— A Cobaia 5679… pode ser a coisa mais rara que já vi.
Mahees estreitou os olhos.
— Ele não é uma cobaia.
William apenas sorriu.
— Por enquanto, mas quando eu começar o tratamento será uma cobaia e inevitável