Acordar no meio da noite nunca era um bom presságio.
Omar abriu os olhos devagar, ainda preso entre o sonho e a vigília, com a estranha sensação de que algo estava errado. O quarto estava escuro demais. Silencioso demais. Até o canto dos insetos havia cessado.
Por alguns segundos, ele apenas ficou imóvel, encarando o teto invisível.
O que me acordou…?
Então ouviu.
Um ruído baixo, arrastado.
Como algo sendo puxado pelo chão de areia do pátio.
… shhhh… shhhh… shhhh…
Ele franziu o cenho.
Vento?
Não. As janelas estavam fechadas.
Prendeu a respiração.
O som cessou.
Talvez eu tenha imaginado…
Quando estava prestes a deitar novamente, o silêncio foi rasgado.
— S-SOCORRO…!
O grito veio de fora da propriedade.
Um grito humano.
Cru.
Desesperado.
Interrompido no meio, como se uma mão tivesse tapado a boca do infeliz.
Omar sentou-se na cama de uma vez, o coração disparando contra o peito.
— Que diabos…?
Suor frio brotou em sua nuca.
Ladrões?
Ele tentou se convencer de que era algo normal, algo explicável… mas havia algo naquela voz. Algo errado. Não era apenas medo.
Era pavor.
Ele estendeu a mão e acendeu a lamparina. A chama vacilou antes de estabilizar, projetando sombras longas demais nas paredes. Por um instante, Omar teve a estranha impressão de que as sombras se moviam depois da luz.
— Tsc… estou ficando velho…
Pegou a espada ao lado da cama. O peso familiar do metal trouxe algum conforto.
Quando saiu para o corredor, chamou em voz baixa:
— Hassan? Yusef? Vocês ouviram isso?
Nenhuma resposta.
Estranho.
A essa altura, pelo menos um deles já deveria estar acordado.
Seus passos ecoavam alto demais enquanto atravessava o pátio. Encontrou dois empregados perto do portão, segurando lanças, claramente assustados.
— Senhor Omar — um deles sussurrou — nós ouvimos um grito vindo de fora…
— As mulheres já estão dentro?
— Sim.
— Tranque as portas. Ninguém sai.
— O senhor vai sozinho?
Omar hesitou por meio segundo, mas endireitou as preventivas.
— Se for um viajante ferido, não podemos ignorar. Se for um bandido eu mesmo cuido disso já fui um guerreiro antes de ser comerciante
Eles trocaram olhares nervosos.
— Tome cuidado, senhor…
Ele apenas assentiu e atravessou o portão.
O lado de fora parecia… diferente.
O oásis sempre fora tranquilo à noite. Grilos, vento nas palmeiras, água correndo.
Mas agora havia apenas silêncio.
Um silêncio espesso.
Pesado.
Como se o mundo tivesse sido abafado por um pano molhado.
Cada passo na areia soava alto demais.
Ele engoliu seco.
Por que parece que alguém está me observando…?
Olhou por cima do ombro.
Nada.
Só escuridão.
Continuou andando, erguendo a lamparina.
Então viu.
Uma silhueta adiante.
Um homem que permanecia parado no meio da trilha, imóvel como uma pedra esquecida pelo tempo, o chapéu de aba larga projetando uma sombra espessa que escondia metade do rosto, enquanto as roupas gastas de viajante eram marcadas por poeira, remendos e longas jornadas que balançavam levemente ao sopro do vento.
Alívio o atingiu primeiro.
— Ei! Você! — chamou. — Foi você quem gritou?
Sem resposta.
— Está ferido?
A figura não se mexia.
Nem sequer respirava.
Omar aproximou-se devagar.
Algo estava errado.
Muito errado.
— Senhor…?
A luz tocou o rosto do homem.
Pálido.
Cinza.
Estático demais.
Os pés estavam tortos… dobrados para trás.
Como se tivessem sido quebrados e recolocados do jeito errado.
O coração de Omar afundou.
— O que… aconteceu com você…?
A cabeça do homem girou.
Não virou.
Girou.
Devagar.
Como madeira rangendo.
Os olhos eram negros. Totalmente negros. Sem branco. Sem vida.
Então veio o som.
CRACK.
Outro.
CRACK.
Os ossos começaram a estalar sob a pele.
Os braços se alongaram.
Esticaram como borracha.
A roupa rasgou.
Mais articulações surgiram.
Dedos demais.
Compridos demais.
A boca abriu… e não parou de abrir.
Rasgou até quase as orelhas.
Fileiras de dentes brotaram como espinhos.
Omar recuou, tropeçando.
— N-não… isso não é humano…
A coisa inclinou a cabeça.
E falou.
Com várias vozes sobrepostas.
Como um coral de mortos.
— s o c o r r o…
Era o mesmo grito.
Imitado.
Zombando.
Omar gritou e avançou com a espada, golpeando com todas as forças. A lâmina atravessou a carne como se fosse lama podre. Não houve sangue.
A criatura sorriu com um sorriso largo demais, antinatural, rasgando o rosto ainda mais como uma fenda na carne. Então desapareceu.
Num simples piscar de olhos, o espaço que ocupava ficou vazio, como se nunca tivesse estado ali. Antes que ele pudesse reagir, ela surgiu novamente, bem à sua frente, próxima demais, próxima o suficiente para que o ar ao redor esfriasse. Braços frios o envolveram por trás, rígidos como galhos mortos, prendendo seus movimentos. Outra mão subiu brutalmente e tapou sua boca, sufocando qualquer grito. E, no instante seguinte, algo atravessou seu abdômen de maneira afiada e muito precisa.
Ele perfurou a carne com um som úmido, enquanto o calor do sangue contrastava com o toque gélido da criatura.
Ele sentiu algo quente escorrer.
Tentou gritar.
Nada saiu.
O cheiro era insuportável, pesado demais para os pulmões, como se o próprio ar estivesse apodrecendo. Podridão. Carne velha deixada ao sol, inchada e úmida. Morte. Cada respiração queimava a garganta e revirava o estômago, impregnando o paladar com um gosto metálico e doentio, como se ele estivesse engolindo o próprio fim.
Seu pescoço torceu.
O mundo virou.
E tudo ficou escuro.
Minutos depois, os empregados chegaram correndo.
— Senhor Omar?!
— Onde ele está?!
Encontraram a lamparina caída ainda acesa.
Seguiram a luz.
Então pararam.
Ninguém teve coragem de se aproximar primeiro.
Omar estava no chão.
Os olhos arregalados.
A boca aberta em um grito eterno.
O corpo dobrado em ângulos impossíveis.
Como se algo tivesse tentado encaixá-lo dentro de uma caixa pequena demais.
Mas o pior não era isso.
Eram as marcas.
Dezenas.
Centenas.
Pegadas.
Rastros de mãos.
Marcas de arrasto ao redor dele.
Como se muitas coisas tivessem rastejado em círculos… observando… tocando… esperando.
E todas as marcas…
levavam para o deserto.
Para a escuridão.
Como se a própria noite tivesse vindo buscá-lo.