Três Meses Depois
Três meses haviam se passado.
Ao noroeste do reino de Marvet, uma pequena floresta respirava em silêncio. Suas árvores tinham troncos brancos como ossos antigos, e a grama, de um verde intenso, parecia viva parecia ondulando suavemente ao toque do vento que soprava constante rumo ao norte.
No coração daquela calmaria, um jovem golpeava o tronco de uma árvore com um machado gasto.
Usava trapos sujos e rasgados, roupas que já haviam perdido a forma original. Seu rosto tinha um formato quase quadrado, traços que denunciavam alguém que não pertencia àquelas terras. O olho esquerdo estava coberto por um pano escuro, amarrado de forma descuidada.
Aquele era Edi Slove.
Ou, ao menos, o que restava dele.
Seus cabelos, antes loiros, agora eram completamente negros, exceto pelas pontas desbotadas que ainda insistiam em manter a cor antiga. Os olhos verdes estavam fundos, cercados por olheiras profundas. Havia neles um vazio inquietante era como se algo essencial tivesse sido arrancado de dentro.
Ele passou toda a tarde cortando lenha.
Quando o sol começou a se pôr, arrastava um grande feixe de troncos amarrados às costas. Caminhava sem direção, sem saber para onde ir. Apenas andava.
E repetia para si mesmo, como um mantra quebrado:
— Lembre-se… lembre-se… lembre-se…
Então, o som quebrou o silêncio.
Cascos de cavalos golpeando a terra. Rodas de carroças rangendo. Vozes.
Edi virou-se lentamente.
À frente, dois cavaleiros avançavam, carregando um estandarte: uma caveira negra, de cuja boca aberta brotava uma flor roxa. Logo atrás deles vinha uma grande comitiva de soldados, cavaleiros e carroças. No centro, destacava-se uma em especial.
Uma carroça feita de mármore branco, adornada com rubis e ouro.
Por um instante, Edi esqueceu o frio. Esqueceu a fome. Apenas contemplou aquela beleza absurda.
— Quanto quer pelas lenhas? — perguntou um dos soldados, puxando o cavalo à frente.
Edi ergueu o olhar.
Por algum motivo estranho, compreendia perfeitamente aquele idioma que nunca ouvira antes.
— Não vendo lenha — respondeu, com a voz seca.
O soldado riu.
Jogou uma moeda no chão. Ouro puro. No centro, um rubi incrustado.
— Este é o preço.
Edi observou a moeda por alguns segundos. Suspirou.
— Se eu morrer de frio ou de fome… o que farei com isso?
— Já não é problema nosso — respondeu o outro soldado, impaciente.
A locomotiva branca aproximou-se, e outros soldados começaram a murmurar, perguntando por que haviam parado.
— Já vi motivos melhores para morrer do que lenha — provocou um deles.
Edi soltou a corda que prendia os troncos.
— No momento… esse é o único que eu tenho.
O primeiro soldado sorriu.
Com um movimento rápido, girou o estandarte. A ponta revelou-se uma lança. Ele a lançou direto em direção ao olho direito de Edi.
No mesmo instante, algo se rompeu dentro dele.
Uma lembrança.
Uma lança.
Alguém atacando.
Por instinto, Edi ergueu o machado.
O impacto foi seco.
A lâmina destruiu o estandarte no ar.
Um silêncio pesado caiu.
— Foi como bater na porta do inferno — disse o soldado, rindo.
Vários soldados sacaram suas armas, cercando Edi. Ele ainda tremia, tentando lembrar quem era aquele homem da lança… quando, subitamente, a carroça de mármore se abriu.
Todos os soldados de Marvet entraram em formação.
O rei havia saído.
Eduart caminhou para fora, envolto em um manto negro. Usava uma túnica branca adornada com ouro. Sua coroa era feita de ossos polidos e ouro, incrustada de safiras. A pele era pálida. Os cabelos, negros como a noite. Os olhos… azuis. Belos. Mortos.
No pescoço, uma cicatriz atravessava a garganta como se alguém já tivesse tentado cortá-la.
— Vamos matar alguém… por lenha? — perguntou Eduart, aproximando-se.
— Meu senhor, ele quebrou seu estandarte — disse o soldado.
— O único estandarte que você deve defender é o seu rei — respondeu Eduart. — O resto é apenas pano.
Ele parou diante de Edi.
— Diga-me… qual é o seu nome?
Edi abriu a boca.
Nada veio.
— Eu não sei.
Eduart inclinou a cabeça, intrigado. Seus olhos, porém, brilhavam com certeza.
— Sem nome, então…
Ele levou a mão ao queixo, pensativo.
— Eu o chamarei de Endo.
Os soldados murmuraram, confusos. Aquele era um nome de respeito demais para um estranho.
— Por que estão assim? — disse Eduart, sorrindo. — Endo não foi ousado o bastante para desafiar o rei como este homem foi.
Ele voltou-se para Edi.
— Endo… parece bom para você?
Por um instante, Edi sorriu.
Agora tinha algo que era seu.
Um nome.
— Endo… — murmurou. — É um bom nome pra mim.
E, naquele dia, Edi Slove morreu de vez.
No lugar dele, nasceu aquele que seria conhecido como Endo.
Em Diviza
O quarto de Torki era silencioso, iluminado apenas por uma lamparina presa à parede de pedra. O ar tinha cheiro de ervas e metal, remédios, próteses, ferragens. Torki estava recostado na cama, o corpo ainda coberto por bandagens, mas os olhos atentos. Ele falava o idioma de Quintos, que permanecia sentado ao seu lado, embora seu forte sotaque deixasse claro que ainda travava pequenas batalhas com cada palavra.
— Então… Edi foi morto, e vocês ainda não sabem quem fez isso? — perguntou Torki, a voz baixa, dura. Seus olhos se estreitaram como lâminas.
Quintos respirou fundo.
— Pelo que Joran nos contou… ele foi encontrado com uma lança cravada no olho.
O silêncio caiu como uma pedra.
O rosto de Torki congelou por um instante. Sua mente voltou rápida, certeira como uma lembrança que o queimava por dentro. Augusto. Seu velho amigo. O homem que havia recebido o título de Lança Negra. O mesmo que nutria um ódio profundo por Edi.
Uma lança.
Era impossível ignorar.
— Uma lança… — rosnou Torki, cerrando os dentes.
Quintos tentou mudar o foco, colocando uma mão leve no ombro dele.
— Você já está melhor agora. Estamos preparando as próteses novas para a perna. As dos braços… ainda vão levar algum tempo, mas estamos avançando.
Torki inclinou a cabeça.
— Agradeço a vocês por isso. — Sua voz era sincera, mas cansada. — Seremos gratos… quando retornarmos às Ilhas de Moro.
— Espero que encontrem seu caminho. — disse Quintos, levantando-se. — Até lá… eu cuidarei de vocês.
Ele caminhou até a porta, abriu-a devagar e saiu, deixando o quarto novamente em silêncio.
Torki ficou imóvel por alguns segundos. Apenas o som do vento batendo na janela preenchia o espaço.
Então, sua mão se fechou num punho trêmulo.
A imagem de Edi voltou à sua mente — a última vez que se viram, a discussão, as palavras duras, o orgulho ferido.
— Seu idiota… — murmurou Torki, a voz quebrando.
As lágrimas surgiram, primeiro discretas, depois inevitáveis.
Ele as deixou cair.
Porque naquele instante, sozinho naquele quarto frio de Diviza, Torki entendeu que talvez jamais tivesse a chance de pedir desculpas.